Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 28.09.2012 28.09.2012

Ziraldo: o contador de histórias

 
 
 
 
Por Marcelo Rafael
 
“Escrevo um livro para falar o que eu penso sobre a alma humana. Não me preocupo muito em ensinar nada para a criança, nem em orientar. Meu negócio é fazer um livro para agradar, que a criança goste de ler.”
Essas são as palavras de Ziraldo, que completa, neste 24 de outubro, 8 décadas de vida. Seu personagem mais famoso, o Menino Maluquinho, já tem 32 anos, tendo sido lançado na Bienal do Livro de São Paulo em 1980. O livro ganhou o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, na época, tornou-se um sucesso editorial e foi traduzido para várias línguas.
Ao longo desses anos, uma vida recheada das mais variadas produções, tanto para adultos quanto para crianças, muitas modificações tecnológicas e sociais aconteceram no mundo. Mas Ziraldo mantém o carinho pelo livro em papel.
“Quero que o livro permaneça na mão da criança, que ela leia, que ela ame o livro”, conta ele, comentando suas intenções ao criar uma nova obra. “Se é que há uma intenção quando eu faço um livro”, completa.
O público mudou. Mas será que mudou muito desde aquelas crianças do século XX –quando A Turma do Pererê e o Menino Maluquinho foram criados – para estas do século XXI? De acordo com o artista, a mudança foi no entorno, mas não na essência.  “Antes, elas eram analógicas, agora são digitais. Foi só isso.”
Ele acredita que as crianças continuam sofrendo pelas mesmas razões, ficam tristes e alegres pelas mesmas razões, gostam e desgostam como sempre etc. “Mudaram as circunstâncias, só não mudou o ser humano.”
E os pais? Transformaram-se ao longo desse tempo? Com experiência também como jornalista, chargista político e cartunista, Ziraldo avalia que hoje em dia os pais estão mais liberais, têm mais informações do que tinham antes, mas ainda derrapam no quesito leitura. “O Brasil não foi um país criado com livros, de forma que as pessoas não têm o hábito da leitura e ficam com dificuldade de passar isso para os filhos.”
Neste ponto, ele considera fundamental a função da escola na educação das crianças. “Deixe a escola fazer esse papel, porque o professor tem mais consciência da necessidade de se dominar a leitura e a escrita para uma melhor compreensão do mundo.”
Em casa, com a família, as preocupações seriam outras, como os cuidados com o uso da internet e das novas ferramentas virtuais pelos pequenos. “Enquanto o seu filho estiver dentro da sua casa, você é o responsável por protegê-lo de todas as coisas que ameaçam. E o critério é seu”, afirma.
No entanto, Ziraldo não considera o computador o grande vilão. “É uma dádiva que o ser humano jamais alcançou. Hoje, não há nenhuma informação no mundo que não esteja ao seu alcance.” O que é necessário, segundo ele, é ter critérios ao usá-lo, já que a internet não fornece informação de maneira organizada. “Você precisa saber ler e escrever (corretamente) para saber qual é a melhor informação que você recebeu (da internet)”, completa.
E nisso, além dos professores e dos pais, entra, novamente, o livro. A criança, para ele, não deveria ter acesso ao computador e à web sem passar antes pelo livro. “É ele que te abre a cabeça, que te informa, que te estimula a curiosidade, ajuda a refletir.”
Ziraldo conta que não mexe com essas novas tecnologias nem pensa nelas durante o processo de criação. “Eu não mexo com ‘plataformas’, eu mexo com conteúdo”. A partir daí, segundo ele, é com a editora. 
 
                                                                                                   Crédito: Rafael Adorján
Ziraldo e objetos no escritório no Rio de Janeiro
Para ele, este é justamente um dos motivos do sucesso das historinhas do Menino Maluquinho: não falar do mundo tecnológico em que as crianças estão inseridas hoje em dia. “Não falo de circunstâncias. Cito algumas coisas, mas para citar como as pessoas são impactadas por elas em termos de afeto, carinho, interesse.”
Tendo em vista os sucessos dos livros lançados, todos os anos, pelo artista, a molecada parece aprovar. E ele, para felicidade geral do público, pretende continuar. “Eu sou contador de histórias. Desde que o mundo é mundo que o homem conta histórias”, encerra.
 
Conheça um pouco mais sobre os gostos de Ziraldo:
 
LIVROS ADULTOS QUE O MARCARAM
>> Madame Bovary
>> Grande Sertão Veredas
>> Os Sertões
>> Quincas Borba
>> Crônica de Uma Morte Anunciada
>> Quincas Berro D´Água
>> Viagem aos Seios de Duília
>> “Falta ler uns centos e tantos da maior importância”, completa Ziraldo
 
LIVROS IMPORTANTES PARA O PÚBLICO INFANTIL HOJE
>> O melhor livro da Ana [Maria Machado]
>> O melhor da Ruth {Rocha]
>> Qualquer um da Adriana Falcão
>> O livro sobre D. Pedro I da Mariana Massarani
>> Qualquer livro da Flávia Savary
 
FILMES QUE MARCARAM A SUA VIDA
>> Amarcord
>> Os Eternos Desconhecidos
>> Central do Brasil
>> The Husbands
>> Todos Dizem Eu Te Amo
>> O Incrível Exército de Brancaleone
>> Todas as comédias italianas daquela época e todos os filmes, meu Deus!, que eu gostaria de ter feito, como os filmes – todos – dos Irmãos Cohen.
 
PESSOAS QUE INSPIRAM SUA CARREIRA E OBRA
>> Padre Juquinha
>> Professor Armando Silva
>> Reinaldo Jardim
>> Enrico Bianco
>> Millôr Fernandes
>> minha mãe
>> Dona Zizinha
>> e outras tantas mulheres que eu amei
 

OITO PRAZERES DA VIDA
>> Bom humor da mulher amada
>> Rever filhos e netos
>> Conversar com quem você tem afinidades
>> Fazer o que você gosta de fazer e viver desse gosto
>> Ficar sozinho de madrugada, ouvindo música e trabalhando
>> Comer devagarzinho
>> E aquela coca-cola toda

 
 
 
 
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