Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 22.09.2011 22.09.2011

Zélia ‘tatia’ segura e sedutora no limiar entre o teatro e a música (de Tatit)

Por Mauro Ferreira, do blog Notas Musicais
 
Resenha de espetáculo
Título: TôTatiando
Artista: Zélia Duncan
Direção: Regina Braga
Direção musical: Bia Paes Leme
Local: Sesc Belenzinho (São Paulo, SP)
Cotação: * * * * *

Não é show, mas tem música e músicos no palco. Não é teatro, mas tem textos falados e textos dramatizados. Não é recital, mas tem poesia. TôTatiando – o espetáculo ora encenado por Zélia Duncan no Sesc Belenzinho, em São Paulo (SP), neste mês de setembro de 2011 – transita no limiar entre a música e o teatro. A palavra cantada se irmana em cena com a palavra teatralizada, tal como na obra do compositor paulista Luiz Tatit, musa inspiradora do espetáculo. TôTatiando celebra os 30 anos de carreira de Zélia Duncan de forma heterodoxa. Embaralhando papéis e personagens, a cantora se transforma em atriz e em outra personaartística para tatiar segura e sedutora nessa fronteira tênue, guiada pela direção de Regina Braga. Atriz festejada por sua trajetória nos palcos, Braga debuta na direção de forma feliz. Percebe-se o dedo da estilista na costura perfeita da cena sem que a diretora estreante queira aparecer mais do que a cantriz também estreante na função dupla. Do cenário arquitetado pela diretora de arte Simone Mina às atuações dos músicos, coadjuvantes indispensáveis para sublinhar o sentido do que é dito/cantado em cena, tudo soa integrado e harmonioso em TôTatiando. Ao entrelaçar 15 temas de Tatit, o roteiro tece um emaranhado de sentidos e significados talvez até ocultos para quem enquadra a obra do compositor no escaninho musical. Os versos das duas primeiras músicas, O Meio (2000) e Ah! (1981), sinalizam de cara o tom geralmente lúdico da encenação. O Meio brinca metalinguisticamente com a dificuldade de iniciar algo – no caso, o próprio espetáculo. Ah! graceja com a procura pela palavra mais exata e plena de sentido. Já Haicai (1997) e Banzo (1992) são dois temas mais explicitamente teatralizados. As letras são encenadas como narrativas em que Zélia se porta como atriz em diálogo com as personagens dos versos de Tatit. Tal narrativa é intencionalmente, mais adiante, quebrada com texto em que Zélia expõe a relação de Tatit com Itamar Assumpção (1949 – 2003), parceiro do compositor em Dodói (2005), número em que TôTatiando atinge seu pico emocional. Com humor quase sarcástico, Eu Sou Eu (1997) questiona as permanentes mutações do ser humano em que Zélia dialoga com foto em que aparece no início da carreira, vivida em Brasília (DF). Há música no roteiro teatral quando Zélia canta dois temas como Sem Destino (2010). Há música também quando o tecladista Tércio Guimarães – alocado no canto esquerdo do palco ao lado do guitarrista Webster Santos – simula a batida de um coração em De Favor (2010) em sintonia com os versos que falam do músculo que bombeia sangue e (figurativamente) emoções. Contudo, há – sobretudo – refinada teatralidade em TôTatiando, exemplificada – por exemplo – no gestual delicado com que Zélia evoca um clown em Esboço(2000) e nas inflexões da recitada Felicidade (1997), música que faz parte do show Pelo Sabor do Gesto em tom menos teatral. No fecho, Rodopio (1992) faz uso da metalinguagem para explicitar a felicidade da cantora transformada em atriz por estar em cena interpretando letras e músicas de Luiz Tatit neste espetáculo tão leve e tão pleno de sentidos e significados.
 

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