Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 03.05.2013 03.05.2013

Zafón e Mallo: a vez dos autores juvenis espanhóis

Por Maria Fernanda Moraes
 
Eles são espanhóis e se tornaram queridinhos do público juvenil lá fora assim que estrearam na literatura mundial.
 
O catalão Carlos Ruiz Zafón, nascido em Barcelona, é especialista em criar universos fantásticos e misteriosos.
 
Seu compatriota Agustín Fernández Mallo, da Corunha, é formado em física e publicou diversos livros de poesia antes da sua primeira obra de ficção, Nocilla Dream (Ed. Companhia das Letras).
 
Apesar de terem em comum o sucesso entre o público jovem e uma dose de realismo fantástico, os escritores percorreram caminhos diferentes. Fã das histórias de Charles Dickens, Carlos Ruiz Zafón fez sua estreia no mundo literário com a Trilogia da Névoa, cujo primeiro volume – O Príncipe da Névoa (Editora Suma de Letras) – foi publicado no Brasil recentemente.
 
Já Agustín Fernández Mallo teve seu primeiro livro lançado no Brasil em março e é reconhecido por ter aberto caminho para uma nova geração de autores, a chamada Geração Nocilla – composta de escritores nascidos entre 1960 e 1976, apadrinhados pelo movimento McOndo de Alberto Fuguet e Rodrigo Fresán –, também conhecida como Geração Afterpop, que investiga a sociedade de consumo, a mistura de gêneros literários e a liberdade narrativa.
 
NOCILLA PROJECT
Nocilla, creme de avelã espanhol semelhante à nossa Nutella, é uma das inúmeras referências pop que aparecem no romance de Agustín. A ideia para o nome do livro veio da música “Nocilla, que Merendilla”, do grupo punk galego Siniestro Total (clique aqui).
 
Nocilla Dream é a primeira parte da trilogia intitulada “Nocilla Project” (os outros dois livros ainda são inéditos no Brasil).
 
Nocilla Dream é o primeiro volume do chamado Nocilla Project
 
Escrito quando Agustín sofreu um acidente e teve que ficar na cama por 25 dias zapeando canais da televisão, o livro traz exatamente esse espírito: é uma espécie de road movie com ares de filme B, como quem está diante da TV, passando pelos canais com programas aleatórios. Lembra em grande parte O Jogo da Amarelinha, clássico de Júlio Cortázar.
 
A obra tem 113 capítulos curtos, interligados por várias histórias independentes que se cruzam ou têm apenas uma leve inspiração, lembrando uma ou outra. Em comum entre as narrativas, só uma estrada no meio do deserto de Nevada (US50), que é cenário de todas elas, e uma árvore que cultiva vários pares de sapatos em seus galhos e funciona como o centro físico da narrativa.
 
As histórias se alternam entre o registro pop e o erudito, trazendo referências diversas: elas citam desde "Karma Police", do Radiohead, até Italo Calvino, Thomas Bernhard e Jorge Luis Borges.
Agustín também é adepto da chamada “docuficção", uma maneira de se articular uma construção bebendo do gênero documental, mas também com boa dose de ficção.
 
Segundo o autor, o próximo volume da trilogia, Nocilla Experience (ainda sem previsão de publicação no Brasil), tem o mesmo tom poético de Nocilla Dream. O que muda é apenas a metáfora condutora: em vez do deserto, aparece um rio. E o último, Nocilla Lab, não se assemelha a nenhum dos anteriores.
 
O DICKENS DE BARCELONA
Além de “fenômeno da literatura popular”, Zafón foi exaltado pela crítica por sua escrita, que mistura o erudito e o acessível, tem influência de Humberto Eco e Jorge Luis Borges e apresenta magia e suspense. Ele já foi chamado inclusive de “o Dickens de Barcelona”.
 
Na Trilogia da Névoa (escrita na década de 90 e publicada no Brasil em 2013), pode-se perceber uma característica peculiar da sua literatura. Apesar de enquadradas na categoria “juvenil”, suas obras não se restringem a um público específico, já que, além de amores adolescentes, trazem também histórias de pactos demoníacos, investigações misteriosas, dados históricos, passagens mal-assombradas e muito suspense.
 
O segundo volume da Trilogia da Névoa está previsto para junho deste ano
 
Ele mesmo conta em sua página que, quando era adolescente, não costumava ler romances catalogados como “juvenis” e, por isso, escreveu a série pensando em jovens que poderiam continuar gostando dela anos mais tarde, aos 23, 43 ou 83 anos. De acordo com ele, é um segundo passo também para que alguns leitores novos possam, posteriormente, iniciar suas próprias aventuras na leitura pela vida afora.
 
A trama de O Príncipe da Névoa se passa em 1943, quando a família do jovem Max Carver muda-se para um vilarejo no litoral, por decisão do pai, um relojoeiro e inventor. Porém, a nova casa dos Carver está cercada de mistérios. Atrás do imóvel, Max descobre um jardim abandonado, contendo uma estranha estátua e símbolos desconhecidos. Os novos moradores passam a se sentir cada vez mais ansiosos e, a partir daí, uma sombria história de mistério se desenvolve.
 
Depois da trilogia, veio Marina, em 1999 (publicado no Brasil em 2011), livro que inicialmente foi tido como uma obra juvenil, mas precisou ser reavaliado posteriormente.
 
O fato foi preponderante para que Zafón optasse realmente por passar a escrever para o público adulto. O resultado foram as publicações de A Sombra do Vento (2007), O Jogo do Anjo (2008) e O Prisioneiro do Céu (lançado no Brasil em 2012).
 
As obras mais recentes não perderam o clima de mistério, suspense e do universo fantástico. A isso, somou-se mais um “personagem” que sempre protagoniza seus enredos: a sua cidade natal, Barcelona.
 
Agustín abriu portas para escritores espanhóis que ficaram conhecidos como 'Geração Nocilla"
 
O escritor se apodera do cenário grandioso de Barcelona, com suas largas avenidas, seus casarões abandonados e sua atmosfera gótica e espectral, para ambientar os romances. Atualmente, Zafón vive em Los Angeles e trabalha também como roteirista.
 

O segundo volume da Trilogia da Névoa – O Palácio da Meia Noite – tem previsão de lançamento no Brasil para junho de 2013. As Luzes de Setembro, o terceiro volume, ainda não tem data.

 
 
 
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