Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 01.06.2011 01.06.2011

Yabba-dabba-doo

Por Bruno Dorigatti

É quase impossível alguém ter crescido no mundo ocidental depois dos anos 1960 sem ter contato com a criação de William Hanna e Joseph Barbera. Os dois foram responsáveis por todo um universo lúdico, que habita a memória dos adultos que conviveram com a televisão. Basta mencionarmos os nomes de Tom e Jerry, Os Flintstones, Zé Colmeia, Os Jetsons, Scooby-Doo e Manda-Chuva. Ou ainda Dom Pixote, Pepe Legal, Homem Pássaro, Formiga Atômica, Jonny Quest e Zé Buscapé.

A lista não para por aí, mas estes bastariam para ativar a memória afetiva de quem conviveu com os personagens, acompanhou suas aventuras e ainda se lembra de algum jargão ou trilha sonora dos desenhos.

Tudo isso só foi possível devido ao encontro um tanto casual dos protagonistas desta história, William Hanna e Joseph Barbera — que completaria 100 anos em 24 de março de 2011 —, fundadores da companhia que leva seus sobrenomes. William Hanna, cujo centenário foi comemorado no ano passado, começou aos 20 anos como editor e letrista em um estúdio independente. Depois de ter trabalhado como contador, Joseph Barbera
entrou para os Estúdios Van Beuren aos 21 anos. Ambos iriam se encontrar na Califórnia, quando passaram a trabalhar um ao lado do outro na Metro-Goldwyn-Mayer (MGM), em 1937. Foi no estúdio que criaram, junto com Fred Quimby, o primeiro desenho animado de uma longa e prolífica parceria. Tom e Jerry subverteu a ordem vigente dos filmes de animação ao arriscar o riso através de uma violência imaginada e possível somente na fantasia. Em 1945, Jerry chegou a dividir a tela do cinema com ninguém menos que Gene Kelly dançando “The worry song”. A dupla que protagoniza a clássica perseguição entre gato e rato ganhou sete Oscars de melhor curta de animação, entre 1943 e 1952.

Mas a parceria deslancha mesmo quando a MGM resolve fechar seu departamento de animação em 1957, e os dois se unem para criar o Hanna-Barbera (HB). “No início do mercado de animação, o único cliente eram as companhias cinematográficas, que tinham até estúdios próprios para a criação de desenhos animados. Mas a chegada da televisão criou uma série de novas oportunidades e o Hanna-Barbera foi o primeiro grande estúdio a produzir material exclusivo para a TV. Nesse sentido, a empresa foi fundamental em um momento de transição na história dos desenhos animados de uma mídia para outra”, afirma André Morelli, autor dos livros Super-Heróis nos desenhos animados (Europa, 2010) e Super-Heróis no cinema e nos longas-metragens da TV (Europa, 2009) e redator da revista Mundo dos Super-Heróis.

Até então, os desenhos animados eram produzidos para o cinema, já que a televisão, surgida no início dos anos 1950, ainda não havia tomado conta dos lares norte-americanos. Os filmes animados tinham custos elevados, que nem sempre eram cobertos com a bilheteria. Ao criarem desenhos mais curtos e menos dispendiosos, com cenários mais simples e menos detalhados, a dupla conseguiu equacionar o que parecia impossível. Passaram a fazer duas horas e meia de animação por semana, enquanto anteriormente se levava um ano para chegar a 40 minutos. “O problema é que era um mercado completamente diferente: para criar uma série de TV, eles teriam que produzir muitos episódios em pouco tempo e com um orçamento muito menor do que eles estavam acostumados nos tempos da MGM”, continua Morelli.


A estreia se deu no mesmo ano de criação da HB, em dezembro, no canal NBC, com The Ruff and Reddy Show, conhecidos aqui como Jambo (o gato) e Ruivão (o cachorro). Ainda no final da década, criaram Pepe Legal, Olho Vivo e Faro Fino, Dom Pixote e Mister Magoo. “O traço era mais estilizado, as cores eram chapadas, havia muita repetição de cenas para economizar no trabalho dos animadores e cada episódio tinha cerca de quatro minutos. Era uma forma de driblar as limitações, e tornou viável a produção de desenhos animados para a TV”, acrescenta.

Mas a conquista definitiva do público aconteceria na década seguinte. Nos anos 1960, Os Flintstones e seu peculiar e arquetípico retrato da tradicional família suburbana norte-americana – com a diferença de ser ambientada na Idade da Pedra – conseguiu emplacar no horário nobre. Foi o primeiro desenho com personagens humanos, em episódios de meia hora, e a partir daí, tudo mudou no que diz respeito aos desenhos animados na televisão. Naquela década surgiram Zé Colmeia e Scooby-Doo, Os Jetsons  e A Formiga Atômica, A Tartaruga Touché e o Coelho Ricochete, Bob Pai e Bob Filho, Corrida Maluca e Jonny Quest, Space Ghost e Os Herculoides, Space Ghost e Wally Gator. Seja humanizando animais ou criando super-heróis, a Hanna Barbera construiu uma incrível, e até então impensável, linha de produção de personagens e situações muito mais próximas da nossa realidade do que os desenhos de Walt Disney, o único estúdio com produção comparável. E apesar de não ter criado um ícone à altura de Mickey Mouse, provavelmente atingiu um público equivalente.

Tentar desvendar os mecanismos que colocaram estes desenhos na memória afetiva de todas as gerações que cresceram acompanhando-os é sempre difícil, mas Morelli arrisca alguns: “Carisma era um dos principais ingredientes na fórmula da HB. Willliam Hanna era um animador nato, com grande senso de ritmo e construção de histórias. Já Joseph Barbera tinha um traço preciso e era um grande criador de gags, pequenas situações de humor físico ou verbal. Juntos, os dois criaram personagens que se tornaram eternos graças a suas frases de efeito e movimentos característicos, que sempre se repetiam diversas vezes no mesmo episódio”. Outra característica importante do estúdio, segundo Morelli, é a simplicidade na ideia básica das histórias: “um gato que persegue um rato, um urso que adora cestas de piquenique, uma família pré-histórica. Temas simples, que qualquer pessoa pode identificar, de adultos a crianças bem pequenas. Isso tornou a temática dos desenhos universal”.

Joseph Barbera imaginava que não fosse se dedicar a vida inteira à animação. “Eu nunca me cansei de Tom e Jerry, mas eu tive um sonho de fazer mais com minha vida do que desenhos animados”, chegou a afirmar. Mas se orgulhava do seu trabalho, considerava-o uma forma de alívio. “A animação é um alívio para o que está acontecendo no mundo. Você se levanta de manhã e, ao ligar o rádio, ouve que uma ponte caiu em Albany, explodiu uma bomba aqui e há uma inundação na Costa Leste. Então você liga a TV e vê tudo isso, ao vivo. Onde está o alívio? É isso que fazemos: proporcionamos alívio em forma de fantasia. É importante fazer as pessoas esquecerem o que realmente está acontecendo”, sentenciou Barbera em uma das mais conhecidas opiniões sobre o seu próprio trabalho.

Como já dito, a importância da Hanna-Barbera só pode ser comparada a do estúdio criado por Walt Disney. O que seria do panorama da animação se eles tivessem chegado a trabalhar juntos? “No início de sua carreira Joseph Barbera Mandou uma carta para Walt Disney, com alguns desenhos do Mickey. Walt respondeu à carta e disse que gostaria de marcar um encontro de negócios com Barbera, o que nunca aconteceu. Se a Disney tivesse contratado Joseph, é possível que ele nunca tivesse conhecido William Hanna e a história da animação seria completamente diferente”, completa Morelli.

Nos anos 1990, o estúdio HB foi comprado pelo conglomerado de comunicação de Ted Turner, criador da CNN, e que inclui outros canais, como TNT e Cartoon Network. Mais tarde, este último foi adquirido pela gigante Time-Warner, e hoje alguns dos mais famosos desenhos criados pela Hanna-Barbera são exibidos no Cartoon Network. Além disso, é possível deliciar-se com as aventuras de Os Flintstones, Scooby-Doo, Os Jetsons, Jonny Quest, Corrida Maluca e Manda-Chuva nos DVDs que a Warner lançou nos últimos anos. Recentemente, Zé Colméia foi adaptado para o cinema, o que já havia acontecido com Os Flintstones (em 1994 e 2007) e Scooby-Doo (em 2002), com personagens em carne e osso. Já a adaptação de Os Smurfs, outro desenho surgido nos estúdios Hanna-Barbera nos anos 1980, estreia em agosto em versão digital, quando os pequenos e azulados vão parar em Nova York. Há também livros, como Art of Hanna-Barbera (1989), de Ted Sennett em parceria com a dupla, Hanna-Barbera Cartoons (2005), de Michael Mallory, The Hanna-Barbera Treasury (2007), de Jerry Beck, e o recém-lançado William Hanna and Joseph Barbera, de Jeff Lenburg; nenhum deles ainda publicados no Brasil.

“Acredito que o grande legado deles para qualquer artista seja a forma criativa que o estúdio encontrou para superar todo tipo de limitação. Acima da técnica ou de grandes orçamentos, o segredo estava nas suas ideias e no bom humor. Uma parte do público de hoje pode acreditar em um primeiro momento que as animações clássicas são ingênuas e de um visual pouco chamativo. Mas duvido que essas mesmas pessoas consigam assistir a um episódio do Manda-Chuva sem dar pelo menos uma boa gargalhada”, finaliza Morelli.

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