Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 13.12.2010 13.12.2010

William Kennedy, a memória viva de Albany

Por Bruno Dorigatti

Foto de Tomás Rangel
 
 
 
 

"Podem me ouvir? We are ready to rock n’ roll!" Bem humorado, o senhor de cabelos brancos, alto, elegantemente vestido com terno e gravata, testa o micronofe antes de começarmos o papo sobre literatura, jornalismo e o que o levou a escrever sobre sua terra natal, Albany, no Estado de Nova York. Aos 82 anos, William Kennedy é hoje um dos grandes escritores americanos que continuam por aí, produzindo e refletindo sobre a sua aldeia para espelhar o mundo. Conhecido pelo livro que chegou aos cinemas, Ironweed, adaptado por Hector Babenco, com Jack Nicholson e Meryl Streep nos papéis principais, Kennedy na verdade retrata em seu Ciclo de Albany, uma época que parece ter ficado definitivamente para trás. 

Em O grande jogo de Billy Phelan, um dos seus livros do ciclo lançados por aqui pela Cosac Naify, ele procura mapear a alma de uma cidade e uma época dominada por mafiosos e contraventores associados aos poderes políticos locais. O mesmo acontece em A lenda de Legs, seu primeiro romance, que aborda e ficcionaliza a vida de um dos mais lendários mafiosos dos anos 1920 e 1930, Jack Legs Diamond, verdadeira celebridade na época. Kennedy relembra histórias de sua infância, mas sem saudosismo, recorda de como as contravenções, seja a distribuição de álcool, a prostituição ou os cavalos, eram liberadas, ainda que proibidas, como se encaminhou para o jornalismo e de lá, para a literatura, onde encontrou o espaço para dar vazão àquilo que não conseguia nos jornais. Confira a seguir trechos da longa conversa com Kennedy, onde ele comenta ainda alguns dos escritores que foram fundamentais para que ele também optasse por seguir este caminho. 

> Assista à entrevista exclusiva de William Kennedy ao SaraivaConteúdo

O senhor escreveu sobre a sua primeira história, chamada “Ovos”…

William Kennedy. Hahaha… 

… e como ela foi importante para a sua escrita, mesmo não sendo tão boa. Quais foram seus passos depois disso para conseguir ser publicado?
Kennedy. Esta é uma longa história [risos]. Eu apenas continuei escrevendo por anos. Quando “Ovos” foi publicado, era 1946, 1947, quando estava na faculdade. E em 1959, 1960, foi quando eu realmente comecei o meu primeiro romance que chegou a ser publicado. Havia escrito entre 30 e 35 histórias curtas, nunca contei, não sei. Costumava jogar fora. Tenho algumas delas e medo de lê-las, porque provavelmente será embaraçoso ler estas histórias, nem sei mais como elas são. Mas segui escrevendo até que algo aconteceu. Alguém presta atenção naquilo que você escreveu, você fez algo diferente. Recordo-me quando estava em Porto Rico, dez anos depois de sair da faculdade, e não havia publicado nada. E comecei a escrever um romance, era sobre Albany [sua cidade natal, no estado de Nova York, EUA]. E as histórias que vinha escrevendo antes disso se passavam em Miami, na Europa, em Porto Rico. Mas então comecei a escrever sobre Albany e, depois que escrevi o primeiro capítulo, algo pareceu novo para mim. Pareceu-me muito melhor. E não poderia lhe dizer por quê. Posso dizer agora porque eu pensava que era melhor, mas na época só achava aquilo diferente para mim. Eu aprendi algo, fiz algo que não estava acostumado a fazer. E o fato de que eu realmente conhecia sobre o que estava escrevendo, não era um escritor turista, mas uma pessoa que entendia do assunto de alguma forma. E saíram, os diálogos, as descrições, tudo que estava escrevendo. E então percebi que era sobre isso que eu deveria escrever, então comecei a pensar sobre Albany de maneira diferente. Comecei a explorá-la, e foi o que fiz, por anos. 

E por que a opção de escrever sobre os anos 1930 e estes personagens do submundo e da margem na América?
Kennedy. Bem, eu cresci em uma cidade dirigida por políticos irlandeses e todos políticos wasp [white, anglo-saxonand protestant – branco, anglo-saxão e protestante]. Dinheiro antigo, muito antigo. Eram as pessoas mais ricas no século XIX em Albany, os Cornings. E um deles foi o homem que criou a primeira grande ferrovia, ao reunir pequenas ferrovias. O começo do capitalismo na América se deu com a consolidação dessa grande rede ferroviária, o Sistema Central de Nova York. Esse era o dinheiro antigo. E então havia os jovens imigrantes irlandeses, de County Slago [município do nordeste da Irlanda], recém-estabelecidos no sul da cidade, vizinhos deste dinheiro antigo. Eles bebiam juntos, na época havia briga de galo, um esporte muito comum naqueles tempos. E também caçavam juntos, iam às brigas de galo. Então a nova geração do dinheiro de antiga linhagem e esses jovens irlandeses se reuniram e se envolveram na política – porque o dinheiro antigo sempre esteve envolvido na política, mas os irlandeses foram se envolvendo cada vez mais. Foi esse tipo de cidade que eles criaram. Houve um fenômeno de poder e consolidação, muito dinheiro e um grande número de eleitores, que criou uma organização nos anos 1920 e assumiu a prefeitura. E eles nunca se foram. Aquela organização ainda existe, 90 anos depois. E é diferente agora, muito diferente, muito corrupto. Na América, uma das grandes forças políticas de Nova York era a Tammany Hall [máquina política do Partido Democrata, que comandou a cidade por quase 200 anos], muito dominada pelos irlandeses. Porque havia tantos irlandeses que migraram, Nova York e Albany são duas grandes cidades irlandesas. E a maneira de administrar a cidade incluía o controle de todas as operações ilegais, como a prostituição, a venda de bebidas alcoólicas quando isso era proibido [durante a Lei Seca, entre 1920 e 1933], os jogos de azar. Os políticos tocavam estes negócios e cobravam taxas para que outros também tivessem o privilégio de fazer.  

A cidade inteira era, em larga escala, ilegal. E foi neste local que cresci. Meu pai, meu tio trabalhavam com jogos de azar. E foi o que fiz também [risos]. Na faculdade, trabalhei com apostas nos jogos de futebol americano e, não sei por quê, não fui preso. [risos] E fiz um bocado de dinheiro. E, para mim, naqueles dias, era um risco, mas era meu risco e nunca tive que pagar a alguém para atuar, era algo bem pequeno para alguém se incomodar com aquilo. Mas essa era a cultura onde eu cresci e isso sempre me interessou muito. E a outra questão é que Albany sempre foi um ponto focal para a distribuição de cerveja ilegal que vinha do Canadá, onde era legal. Era um fluxo constante e os gângsteres faziam isso. E Jack Legs Diamond foi um gângster muito famoso na América. Eu ia escrever sobre política, mas cresci como um jovem homem de jornal e trabalhei com jornalistas que o conheciam, haviam coberto seu julgamento, entrevistado ele. Há histórias maravilhosas. Então decidi escrever sobre Legs Diamond e os políticos. Comecei a escrever um romance, mas assim que comecei a pesquisar sobre Legs Diamond descobri que ele era como o que viriam a se tornar as estrelas de rock. Ele era tratado como uma grande celebridade, como Bob Dylan. Ele foi baleado em cinco oportunidades antes de finalmente ser morto, e estava nos jornais o tempo inteiro em 1931, todos os dias havia histórias sobre este homem. Era um fenômeno incrível. E outros gângsteres, como Mad Dog e Lucky Luciano, que se tornaria o primeiro chefão da Máfia nos Estados Unidos, estavam sempre por Albany, aquela cultura estava toda ali, esperando que alguém escrevesse sobre ela. E assim que comecei a escrever a respeito, aquilo estava acabando, os gângsteres sendo presos ou mortos. Eu tinha que escrever sobre Legs Diamond, ele era muito mais interessante que os líderes políticos. E me tomou anos e anos essa novela política, que acabei escrevendo – se chama Roscoe [2002] –, mas meu primeiro romance, que penetra de maneira imaginária na história da cidade foi Legs [lançado nos EUA em 1983 e ainda inédito por aqui]. E isto porque foi o jeito que cresci. Você andava pelas ruas e podia apostar nos cavalos, perfeitamente legal, mesmo sabendo que não era. Toda a prostituição também era perfeitamente legal, embora nós soubéssemos que não. Esta foi a maneira que fui educado. 

O senhor também é jornalista. Como o jornalismo ajudou a sua escrita?

Kennedy. Como jornalista, você está exposto a isso. Eu cobria política o tempo inteiro e, apesar de os gângsteres terem desaparecido, estarem todos mortos, eu trabalhava com repórteres mais velhos que o conheceram, cobriram seu julgamento, o entrevistaram. Eles foram influências para mim. Eu queria ser jornalista desde a época das aulas de gramática na escola, por causa dos filmes. Eram filmes B, como The front page, com Pat O'Brien, eles eram maravilhosos e me influenciaram muito. Cresci acostumado a ler cinco jornais todos os dias em minha casa, três locais e dois de Nova York. E os lia todos, lia os colunistas, que era o que eu queria fazer. Eu estava exposto a isso, não havia livros na minha casa, com exceção de meus livros infantis. Mas tinha um cartão da biblioteca aos 10 anos e comecei a pegar livros emprestados ainda muito novo e me tornei um leitor, o único leitor da família, com exceção de dois tios que liam e eram fascinados por histórias de detetives. E eu lia todas estas histórias também, me tornei um fanático nelas.
Isso me abriu as portas para o jornalismo, e o jornalismo, por sua vez, me abriu as portas para a literatura. Comecei a ver que havia escritores muito bons no jornalismo, Hemingway, H. L. Mencken, Steven Crane, entre muitos outros. E eles me influenciaram a pensar mais seriamente sobre a literatura do que sobre o jornalismo. E na faculdade comecei a fazer esta mudança, do jornalismo paras os contos. E me tomou muitos e muitos anos até que tive coragem de largar o jornalismo, o que fiz, por várias vezes.

E foi difícil?

Kennedy. Bem, foi difícil, sim. Em última instância, o caminho para se tornar um escritor de ficção oprimiu o prazer principal no trabalho de jornalista. Não havia muito o que você podia dizer como jornalista, naquela época; hoje não, é diferente, você pode dizer o que quiser nos jornais, mas naquela época não podia. Eu me vi repetindo, escrevendo a mesma história todo ano. Eu realmente precisava fazer algo diferente e mais profundo. Não conseguia traduzir o que estava acontecendo na minha mente para o trabalho que fazia no jornal. 

A melhor definição de estilo para o senhor seria "dizer as coisas da melhor maneira" ("say the things in best way"). Que escritores chegaram lá?

Kennedy. Hemingway é a figura clássica na minha vida. E Faulkner. Os dois, escritores tão diferentes, mas você nunca iria esquecer uma frase de Faulkner ou de Hemingway. Digo, Faulkner era barroco, Hemingway ia direto ao ponto, com pequenas frases e pequenos parágrafos, descrições mínimas. E Faulkner é esse homem com este vocabulário impossível, com ideias de frases que se desenrolam por páginas e ambos eram incríveis. Adoros os dois, aprendi a imitá-los. Mas não adianta apenas isso, é preciso ser você mesmo. Cedo ou tarde, você chega lá e se descola de seus autores, sejam eles Melville ou Kafka, ou quem quer que tenha entrado em seu cérebro para lhe ditar frases. Você tem que mudar isso e quando começa a cortar, alterar, eliminar o que não lhe parece correto, aí vai surgindo o que você parece ser. E foi exatamente o que aconteceu comigo. E me parece que acabei por criar um estilo, mas não saberia como descrevê-lo. Deixo isso para os críticos. 

Seu trabalho é associado com a Geração Perdida, de Scott Fitzgerald, entre outros. Como o senhor vê isso?

Kennedy. Eles foram meus professores, Fitzgerald, especialmente o de O grande Gatsby (1925), Hemingway, todos os contos, John dos Passos, a trilogia USA (1938). Estes livros foram muito importantes para mim, moldando a minha identidade. E Faulkner, li todo dele. E Thomas Wolfe, um escritor muito barroco, que tentou captar o mundo inteiro através de sua caneta. Ele é louco, escrevendo em pé, com sua máquina de escrever em cima da geladeira, 25 mil palavras em uma noite. Nunca fiz isso, mas também sou um pouco louco à minha maneira. Trabalhei longamente por dias e dias a fio para produzir meus romances. Mas as imagens que eles conseguiram produzir… Estudei seriamente Fitzgerald e Hemingway e Faulkner também, no jornal, fiz os obituários deles. Você reconhece a qualidade do trabalho deles, assim que começa a lê-los. Gatsby é o romance perfeito, assim como muitas dos contos de Hemingway. Não consegui parar de ler O som e a fúria, de Faulkner, quando escrevia meu primeiro romance, é incrível. E há outros, como Nathanael West, morreu cedo, mas escreveu dois livros extraordinários, The day of the locust (1939) e Miss Lonelyhearts (1933), um longo conto de 90 páginas, mas tão original quanto Kafka, outro grande autor de contos. O artista da fome parecia a minha vida, de alguém que ninguém prestava a atenção, como um escritor naqueles dias. Nada importava, desde que pudesse escrever, fazendo o que achava importante fazer. E isso vai lhe servindo como um caminho de sobrevivência, você vive por estes códigos, do que estes escritores fizeram e colocaram no papel. E eu adoro estes trabalhos, volto a eles com frequência.

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