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Wando, Agnaldo Timóteo e público são as estrelas de ‘Vou Rifar…’

Por Sarah Correa
 
Solitário, sentado à beira de um balcão, acompanhado de uma boa dose de uma bebida qualquer, as lágrimas não caem. Mas no fundo de seu coração, ele chora a perda da amada. Ela, também solitária, extravasa o amor que não vingou em um bar, nos cafundós deste Brasil.
Em comum, eles tem a dor do amor que se foi e, como trilha sonora, a música ‘Vou Rifar Meu Coração’, do cantor brega Lindomar Castilho. Um trecho da canção diz: “Vou rifar meu coração, vou fazer leilão por amor, carinho e paz”. De melodia simples e letra honesta, a canção faz parte do hall dos grandes sucessos deste ritmo musical, que tomou conta do pais a partir dos anos 70.
Esta faixa musical também dá nome ao documentário dirigido pela carioca Ana Rieper. Com estreia comercial prevista para o próximo dia 3, o longa faz um retrato documental sobre o imaginário romântico e afetivo do brasileiro a partir das músicas de cantores populares e brega e marca o debut da diretora no formato longa-metragem.
O trabalho também é o resultado de algo maior, a experiência pessoal de Ana, ao viver por quatro anos no menor estado brasileiro, Sergipe, local onde a música brega é cativa.
“Fui pra lá trabalhar com audiovisual em uma ONG que atua nas margens do rio São Francisco. Fui movida por um desejo de conhecer o interior do Brasil, um Brasil que o Brasil não conhece. Comecei a conhecer melhor essa música, que faz parte do ambiente sonoro daquela região (não só SE e AL) e a presenciar várias histórias que me chamaram a atenção na maneira aberta como as pessoas falavam de sua vida amorosa, com uma certa picardia e sacanagem em um ambiente conservador e patriarcal”, conta a diretora.
 
Esse universo deu à Ana o entendimento de como estas músicas são importantes para as pessoas que as ouvem. Amado Batista, em certo momento do documentário, diz: “Não tem uma música minha que tenha feito sucesso que não tenha verdade nela”. É esta sinceridade presente nestas letras que capturam o público e criam com ele um laço de afetividade e confessional.
 
Popularmente, o brega ganhou a fama de ser trilha musical que conversa com o   “corno apaixonado”. Contudo, Ana mostra neste documentário que este ritmo expressa sentimentos de um universo mais complexo, que é o das decepções amorosas, das relações sexuais, das traições. Para entrar neste mundo e extrair destes personagens reais histórias tão sensíveis, a própria diretora também teve que se abrir para esta sonoridade.
 
“Para entrar na intimidade tem que expor intimidade. Como diz o Eduardo Coutinho, a situação de entrevista em um documentário é uma negociação de subjetividades entre entrevistador e entrevistado. E para chegar naquele resultado eu fui me desarmando. Eu também deixei com muitos deles um pedacinho da minha história”, explica.
 
Ana explorou a intimidade do nordestino, especialmente a região entre os Estados de Sergipe e Bahia. Apesar de, na tela, as entrevistas serem tomadas por uma massa de pessoas oriundas da classe economicamente mais baixa, em certo momento, o documentário mostra um show do Amado Batista, gravado no Vivo Rio, uma das mais populares casas de shows carioca.
 
Segundo a diretora, no dia, o local estava lotado e, na bilheteria, o ingresso não era barato. Ou seja, para quebrar certos tabus, a classe media também ouve muito o brega. “Eu não apresento no Vou Rifar meu Coração uma tese sociológica sobre o lugar da música brega no mundo. Eu falo da minha relação com essa música e com esses lugares. Certamente um número muito grande de pessoas das classes mais altas escuta e gosta de música brega. Mas não foi nessas casas que fui parar”, acrescenta Ana.
 
Assista ao trailer de Vou Rifar Meu Coração:
 
Ao longo do documentário, as vozes dos entrevistados são intercaladas com os depoimentos de grandes expoentes do brega, como o falecido cantor Wando, o já citado Amado Batista, Odair José, Agnaldo Timóteo, Waldik Soriano, Nelson Ned, Peninha, Walter de Afogados, entre outros.
 
José, também conhecido como o ‘terror da censura’, deu trabalho aos funcionários da censura federal. O hit instantâneo “Para de Tomar a Pílula” deu certa dor de cabeça ao artista brega. Apesar de escrever canções que não carregavam teor político, as letras do cantor eram consideradas uma ameaça aos bons costumes e à família, valores vendidos pelo governo militar.
 
Apesar deste ser o primeiro longa da carioca, não é o primeiro trabalho que ela faz com este cunho humano. Formada em geografia humana e apaixonada por antropologia, Ana já documentou a vida dos ribeirinhos do rio São Francisco em dois trabalhos anteriores: Veluda e Na Veia do Rio. Contudo, foi com Vou Rifar Meu Coração que a diretora ganhou maior prestígio. O filme foi selecionado para a última Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e tem sido bem comentado fora do Pais.
 
A contribuição de Ana para o universo cinematográfico e cultural brasileiro transborda os limites do longa na tela, pois como a própria diretora afirma, “este filme foi feito com a expectativa de se estar fazendo algo interessante”. E completa: “A forma como vem circulando bem e sendo bem recebido tem sido muito gratificante, principalmente por ser o meu primeiro longa-metragem com lançamento comercial”.
 
E, claro, o sucesso do ritmo brega, como mostra Ana, está totalmente ligado a sua sabedoria em falar com cada coração que sofre de amor, como explica Odair José no filme: “A mesma coisa que o pedreiro sente, o médico também sente. É só perder a mulher que ele gosta, que vai chorar do mesmo jeito que o pedreiro chora. A diferença é que o pedreiro vai chorar em uma casa de merda e o médico vai chorar num apartamento virado pro mar. Mas a dor é a mesma”.
 
 
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