Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 16.07.2013 16.07.2013

Vladmir Nabokov: o escritor da felicidade

Por Zaqueu Fogaça
 
Vladmir Nabokov foi um dos maiores escritores do século 20. Conquistou fama mundial como romancista e sempre teve sua obra associada às características erótica e moralista. Mas isso tem mudado. Agora, duas recentes publicações da editora Alfaguara, Contos Reunidos e O Encantador – Nabokov e a Felicidade, desvendam dois lados do autor pouco conhecidos dos leitores: os de contista e escritor da felicidade.
Detentor de uma aguçada observação e uma laboriosa criação estilística, Nabokov foi um escritor fascinado pelas diferentes nuances da felicidade. “Ele enxergava a felicidade como algo possível, mas não necessariamente ao alcance de todas as pessoas. A personagem principal de Lolita (1955), por exemplo, teve acesso muito limitado à felicidade”, ressalta o escritor e crítico literário Ricardo Lísias.
O CONTISTA NABOKOV
Mantendo os mesmos moldes da edição norte-americana, organizada pelo filho do escritor, Dmitri Nabokov, Contos Reunidos desvenda um autor com pleno domínio da narrativa curta.
“Os contos foram inicialmente estruturados em ordem cronológica. Decidimos manter o mesmo formato, que traz um prefácio escrito pelo filho do escritor, Dmitri Nabokov. É um prazer ler os contos nessa ordem, pois é possível acompanhar o processo criativo de Nabokov ao longo dos anos e como seus temas foram mudando”, explica Marcelo Ferroni, editor e organizador do título.
Escritos entre os anos de 1920 e 1950, os 68 contos que integram o trabalho, cuja maior parte continuava inédita no Brasil, desvendam elementos muito presentes em toda a obra do escritor.
“Além de conhecer esse lado menos famoso de Nabokov como contista, o textos revelam muito do processo de escrita dele, como as lembranças de infância presentes em parte da obra”, diz Ferroni.
“Nabokov é um escritor que trata bastante da felicidade, mas também é irônico, por vezes nostálgico, principalmente em relação ao que ele e a família perderam ao serem obrigados a deixar a Rússia. Mas seus personagens estão às vezes em busca de uma felicidade maior, estática, e alguns contos são verdadeiros deslumbres de felicidade, como o recém-descoberto ‘A palavra’, incluído no final da edição. É um conto de felicidade onírica, de arrebatamento”, diz Ferroni.
A FELICIDADE SEGUNDO NABOKOV
Presença confirmada na 11ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), a jovem escritora franco-iraniana Lila Azam Zanganeh resgata a felicidade na obra do escritor russo em O Encantador – Nabokov e a Felicidade, livro que acaba de ser lançado no país. “Percebi que era um tema inexplorado em seu trabalho e que alguém precisava restabelecer o grande escritor da felicidade que ele foi”, diz a escritora.
Com uma narrativa conduzida com liberdade, entrelaçando ensaio e biografia, O Encantador apresenta a maneira como a felicidade era compreendida aos olhos de Nabokov. “Tomei a liberdade de misturar os gêneros – o eu torna-se personagem fictício. Cada capítulo do livro apresenta uma ideia de felicidade segundo o autor: a felicidade após a morte, a felicidade na memória, a felicidade no amor, felicidade na natureza, felicidade em palavras”, explica Lila.
Para a autora, um dos principais aspectos que escondiam esse lado do escritor é o caráter sexual tão associado à sua literatura. “As pessoas estão obcecadas com os contos sexuais e questões morais. O próprio escritor diz, no posfácio do livro, que Lolita não tem moral. Moral, na verdade, é apenas uma peça de xadrez em um jogo grande e complexo; o escritor brinca com o leitor”, diz Lila. Agora, os leitores poderão ver que a obra de Nabokov é mais diversificada do que se imaginava.
 
Capa do livro Contos Reunidos, de Vladimir Nabokov
Capa do livro O Encantador – Nabokov e a Felicidade
 
 
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