Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 30.11.-0001 30.11.-0001

Virgínia Rodrigues: “”a voz de alguém quando vem do coração””

Por Bruno Duarte e Marcio Debellian
Foto de Tomás Rangel

Da infância pobre em Salvador ao posto de diva da música brasileira que alcançou mais reconhecimento no exterior do que em seu próprio país, a cantora baiana Virgínia Rodrigues percorreu um longo caminho. O trabalho, desde os doze anos, em atividades diversas como manicure, cozinheira e empregada doméstica, lhe financiava as vontades de menina emancipada que sempre fora. A jovem de família pobre e religiosa, desenvolvia seu talento e aprimorava o gosto musical através do rádio que tinha em casa e participando de corais nas diferentes igrejas que sua mãe frequentou – primeiro a católica e depois a protestante. Só quando adulta Virgínia conseguiu iniciar sua vida profissional na música, cantando em corais como o do Mosteiro de São Bento e o Coro de Câmara da Bahia. Foi neste período que o diretor de teatro Márcio Meirelles, criador do Bando de Teatro Olodum, convidou a cantora para participar do grupo sediado no Teatro Vila Velha, também em Salvador.

Naquele espaço, onde surgira nos anos 60 o movimento Tropicalista, Caetano Veloso  foi apresentado à Virgínia e às suas técnicas de canto lírico e referências populares que trazia da infância tomada pela diversidade radiofônica da época e pelo ritmo das procissões que frequentava com a avó. O encontro (e o encanto) aconteceu em um ensaio da peça Bye bye Pelô, na qual Virgínia cantava uma música tradicional na procissão do Senhor Morto, realizada durante a Semana Santa, parte do imaginário afetivo do jovem Caetano na cidade de Santo Amaro da Purificação. Não demorou para o projeto de um disco com a cantora sair do papel, com direção artística do próprio Caetano.

> Assista à entrevista exclusiva de Virgínia Rodrigues ao SaraivaConteúdo

Desde então a cantora gravou três discos pela Natasha Records, Sol Negro (1997), Nós (2000) – uma seleção do repertório dos blocos afro da Bahia -, e Mares Profundos (2003), com releituras dos afro sambas de Vinicius de Moraes e Baden Powell. Em 2008, a cantora lança Recomeço  (Biscoito Fino), um disco de voz e piano com o músico Cristóvão Bastos. O encontro do erudito com o popular é mote dos quatro trabalhos de Vírginia Rodrigues, intrumentos de sopro, cordas e percussão, aliados ao canto de verve lírica e ao excelente repertório – uma mistura de resgate de canções tradicionais do nordeste, canto popular e MPB, além, é claro, de muita reverência a toda sua ancestralidade Banto. Essas qualidades agradaram um público mais tímido no Brasil e audiências mais entusiastas nos EUA e na Europa. Um dos admiradores ilustres da cantora é Bill Clinton, ex-presidente dos Estados Unidos, que a conheceu em uma visita oficial ao Brasil em 1997, e teve uma apresentação da cantora em sua homenagem, em 2001, quando Clinton retornou ao país para uma palestra em São Paulo.

No final de 2010, Virgínia Rodrigues se apresentou em palcos cariocas, na programação do Solar de Botafogo – espaço que nasceu dedicado ao teatro e que recentemente inaugurou suas sessões musicais com excelente programação. O show, com o violonista Alex Mesquita e participações do violoncelista Iura Ranevsky  e de Bnegão, trazia um apanhado da carreira da cantora, que pretende transportar o formato do show para um disco. Outro projeto de Virgínia é o lançamento de um álbum só com músicas em Quicongo e Quimbundo, duas línguas africanas, como fez o músico baiano Taingá Santana – único cantor brasileiro a gravar um disco em línguas africanas. “Vou ser a segunda artista brasileira a gravar em Quicongo e Quimbundo,  porque o primeiro foi ele”, afirma a cantora baiana. Essas e outras histórias você confere a seguir, na entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo.

Formação musical

Virgínia Rodrigues. Minha primeira profissão foi manicure. Eu comecei a fazer unha com onze anos, mas pra ganhar dinheiro eu comecei com doze. E depois trabalhei de empregada doméstica, fui cozinheira, lavei roupa pra ganhar dinheiro, tudo o que você imaginar. Eu sempre gostei de fazer meu próprio dinheiro e, pra lhe ser sincera, nunca gostei muito de estudar, então eu comecei a trabalhar muito cedo porque minha família também não tinha lá esses recursos, não tinha grana. Então, já que eu gostava de ter minhas coisas, de ganhar dinheiro, eu fui trabalhar para me ajudar e tentar ajudar minha família também.

Minha formação musical é de coral e de rádio. Eu cresci cantando em igreja, minha família era muito católica. Eu cantava nas igrejas, nas procissões com a minha avó, na Bahia tem muitas, e ouvia rádio – o único veículo de comunicação que tinha na minha casa. Não tinha disco, não tinha nada, só rádio. Eu cresci ouvindo rádio. Graças a Deus eu sou da época que se tocava de tudo no rádio. Você podia escolher o que queria escutar, eu não sou da época do jabá, então eu fui feliz. Depois que minha mãe deixou de ser católica, eu passei a frequentar uma igreja protestante. Eu cantava nos corais da Igreja Batista. Eu cantei em um programa de calouros chamado Big Ben, do Waldir Serrão, da TV Itapoã, e ganhei. Teve uma hora que eu não podia mais cantar no programa porque sempre ganhava então eu voltei para os corais, no coral Mosteiro de São Bento, um coral mais popular, popular porque não era protestante, e todos os arranjos eram muito bem feitos para o canto erudito. Cantei também no Coro de Camará da Bahia, Oficina Coral da Bahia, daí eu já ganhava um dinheiro. 

Bando de Teatro Olodum e Caetano Veloso

Virgínia. Foi nessa mesma época que eu fui convidada pelo Márcio Meirelles para fazer parte do Bando de Teatro Olodum. Eu fiz dois anos de teatro no Bando, junto com o Lázaro Ramos novinho, era o bebê do grupo, eu acho que ele tinha quatorze anos. No meu primeiro espetáculo no Bando – a peça Bye bye Pelô – o Caetano Veloso, que conhecia e admirava o trabalho deles há muito tempo, foi assistir à peça, e ali eu estava, era a minha estreia. A peça era um drama. Ele ficou emocionado. Eu vi que ele estava emocionado, mas achei que era por causa do grupo. Eu sei que ele é muito emotivo, mas depois soube que “Verônica”, a música que eu cantava no espetáculo, é uma canção que tem muito a ver com a infância dele em Santo Amaro da Purificação. “Verônica” é cantada na Bahia na procissão do Senhor morto, naquela parte em que se passa a Semana Santa, Jesus Cristo todo ensanguentado. Depois eu gravei essa música no meu primeiro disco.

Sol Negro

Virgínia. O  Márcio Meirelles tinha o desejo de ter um registro meu em disco e relatou isso ao Caetano. Meu primeiro encontro com ele foi no final de 1994, início de 1995. Em 1996, eu gravei essa participação no Âmbar, da Maria Bethânia, em São Paulo. No mesmo ano eu vim para o Rio de Janeiro e gravei meu primeiro disco – Sol Negro (1997) –  pela Natasha Records, com produção do Celso Fonseca e direção artística do Caetano. Gravamos em um lugar lindo que, pra mim, é o lugar mais lindo do Rio de Janeiro, Santa Teresa. Foi feito de uma forma muito bacana, não foi feito num estúdio. A Natasha era em Santa Teresa, e tinha uma parede de vidro onde eu via a favela e as árvores. Era mês de inverno, estava tudo verde. Eu cantava olhando para aquele verde e para aquela favela, aí dá uma inspiração bacana. No segundo disco eu me estrepei, porque foi num estúdio. Não tinha a visão da favela nem das árvores, foi muito difícil.

Segundo disco

Virgínia. Nós (2000) é uma antologia de blocos afros do carnaval da Bahia. Eu tive muito medo de ser tachada de cantora de carnaval. Quando Caetano deu essa ideia, fiquei um tanto temerosa, mas depois entendi a proposta porque, na verdade, estou cantando canções que se cantam em blocos afro, mas o ritmo em que estou cantando é totalmente diferente. Nós é um disco quase erudito, tem muita corda, muito sopro, tem muita percussão, mas uma coisa bem mais erudita, com a minha linguagem de cantar. Ficaram bem diferente do que elas são, algumas são bem samba reggae, samba reggae de você sai tremendo pela rua. Muita gente nem reconheceu, veio reconhecer depois, de tão diferente que ficou. “Mimar você” é uma linguagem totalmente diferente do que ela é na realidade, um samba reggae, um batidão mesmo, de percussão e bem dançante, apesar da letra ser muito romântica.

Afrosambas

Virgínia. Esse foi um disco que estudei pra fazer. Para fazer Nós eu também estudei, mas não tanto quanto Mares profundos. Eu ouvi o original dos afrosambas, que Vinicius de Moraes e Baden Powell fizeram lá nos anos 1960, porque as músicas foram compostas na Bahia, em Itapoã, em 1966. Então ouvi o original do original mesmo. E estudei acompanhada com o repetidor, um outro violonista. E quase que não gravo [ “Canto de Ossanha”], porque Elis Regina carimba tudo o que ela canta. O que Elis Regina cantou, acabou, meu amigo. Não tem pra ninguém. Quase que eu não canto. E tem também a versão da Mônica Salmaso, ela fez com o Paulo Belinati, é lindo o disco, mas aí eu nem ouvi, se ouço é que eu não cantava mesmo, aí que eu não fazia mesmo o disco.

Recomeço (Biscoito Fino, 2008) é um disco de voz e piano que fiz com o Cristóvão Bastos, onde eu canto “Todo o sentimento”, do Francisco Alves, canto uma música linda que quando eu era criança ouvia meu avô cantar, que é “Boa noite, amor”. Eu fiquei com essa imagem do meu avô cantando. Tem coisas da infância que a gente não esquece. Como disse, sou uma pessoa de rádio, ouvi rádio a minha vida inteira. Então quando um amigo falou “canta ‘Boa noite, amor’, do Francisco Alves”, imediatamente me lembrei do meu avô.

Religião e raízes africanas

Virgínia. O Candomblé entrou na minha vida já adulta. Eu tinha 28 anos quando fui no Candomblé pela primeira vez. Eu sabia que tinha alguma coisa lá, mas não dava importância. A vida toda a gente cresce ouvindo que Candomblé é do diabo, que Candomblé não presta. Mas eu sei que meus ancestrais e minhas origens estão no Candomblé. Algumas pessoas podem não querer ou não admitir, mas a religião do negro é o Candomblé. Eu fui educada para ser católica, mas eu nunca fui católica na minha vida. Eu nunca gostei de igreja. Eu nunca fui à igreja pela igreja. O que me levou à igreja foi a música. E eu sentia que eu não tinha nada lá. O que me fazia estar lá era o som. Eu sou muito ligada em sons. O canto gregoriano, por exemplo, eu adoro. "Ave Maria" que eu mais gosto é a de Gounoud. Meu compromisso é com a música e não com a religião. No Candomblé, encontrei todas as respostas para as perguntas que eu me fazia. Foi quando tomei conhecimento dos meus Orixás, das minhas origens. De onde realmente vim e para que eu vim. Todo mundo tem o seu lugar nessa terra, todo mundo vem com um objetivo. Eu acho que meu objetivo é divulgar e preservar as coisas que têm a ver com o meu povo, que têm a ver comigo.

Eu sou Banto, minha nação é Angola. Até isso eu descobri, todos os meus ancestrais vieram de Angola. Eu descobri a pulso. Uma vez, indo para os EUA, na minha segunda turnê, tinha um rapaz da alfândega, da Polícia Federal deles – o FBI -, era um americano, mas que a família veio da África, de Angola. Ele me achou parecida com as irmãs dele e me perguntou se eu era da Angola. Aí meu tour manager disse que eu era do Brasil, da Bahia. Ele não tinha noção de onde era a Bahia. Nós explicamos para ele que de todo o Brasil, a Bahia foi o estado onde a presença da África se faz mais presente, principalmente de Angola. Na Bahia se cultua coisas que em Angola não se cultua mais. Canta-se canções que o povo de Angola não conhece.

Eu sou filha de Ogum de Ronda com Nanã e Iemanjá Ogunté. Ou seja Nkosi, Ganga Zumba e Kaiála – como é chamado na minha nação que é Angola. Até tem um compositor jovem da Bahia chamado Tiganá Santana, ele tem 27 anos e é o único cantor brasileiro que grava em línguas africanas. Eu gravei uma música no disco dele chamada “Zambi”, que é muito bonita. Ele canta em Quicongo e Quimbundo. E no meu próximo disco eu vou gravar em Quicongo e Quimbungo, vou ser a segunda artista brasileira a gravar, porque o primeiro foi ele.
 

Recomendamos para você