Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 25.03.2011 25.03.2011

VIPs, as várias personas de um picareta

Por Bruno Dorigatti
Fotos de Tomás Rangel (Wagner Moura) e divulgação

Marcelo Nascimento da Rocha leva hoje a alcunha de maior picareta do Brasil. Talvez a fama seja maior que o mérito, mas ele ficou conhecido ao se passar por filho do dono da Gol, a empresa de aviação, no Carnaval de Recife, em 2001, quando chegou a ser entrevistado por Amaury Jr. O famoso 171 (número do artigo no Código Civil para o crime de estelionato) também já se passou por olheiro da seleção brasileira de futebol, guitarrista da banda gaúcha Engenheiros do Havaii e campeão de jiu-jitsu. Preso algumas vezes, escapou outra tantas e também leva no currículo o feito de ter negociado o fim de uma rebelião em Bangu 3. 

Sua história virou livro, VIPs – Histórias reais de um mentiroso (Jaboticaba), de Mariana Caltabiano, que também realizou um documentário sobre o assunto, com estreia prevista para abril. O que chega agora aos cinemas é a ficção inspirada na história de Marcelo, mas que opta por outro caminho. Ao invés de engatar os golpes um atrás do outro e transformar o filme em algo caricato e anedótico, o diretor Toniko Melo optou em sua estreia na direção de longas-metragens por focar na psicologia interna de alguém que pode ser quem deseja ser e leva isso às últimas consequências. 

VIPs­ – o grande vencedor do Festival do Rio em 2010, com os prêmios de Melhor Filme, Melhor Ator para Wagner Moura, Melhor Ator Coadjuvante para Jorge D’Elia e Melhor Atriz Coadjuvante para Gisele Froes – destaca algumas das personas criadas pelo picareta e apresenta um garoto um tanto quanto perturbado, que para alcançar o desejo de ser piloto de avião – assim com o pai, falecido quando ele ainda era criança – não mede esforços nem coloca freios morais. Ele foge de casa e vai em busca do sonho. Acaba por se tornar piloto de avião a serviço do contrabando e do narcotráfico entre as fronteiras do Brasil, Paraguai e Bolívia. E então se vê enredado em um caminho sem volta, tal qual um Zelig, do filme de Woody Allen, alguém que se mimetiza conforme o ambiente e a situação que enfrenta. Curiosa é a crítica, até no título do filme, de como ele consegue se inserir no mundo de vips e celebridades e, de certa forma, desmascarar um pouco aquele universo, mostrar como aquilo também é montado em cima de falsidades. Acompanhe a seguir trechos das entrevistas exclusivas com Toniko Melo e Wagner Moura ao SaraivaConteúdo.
 

O personagem

Wagner Moura. Antes de não me interessar pelo personagem real, eu me interessei pelo personagem da ficção. Quando li o roteiro do Bráulio Mantovani, me esqueci completamente que era baseado em uma história que tinha acontecido. Eu me envolvi com o roteiro, e a história que vi ali não era a de um estelionatário. O que me apaixonou não era a história de alguém que enganava os outros, era alguém que, em última instância, talvez enganasse a si próprio. Alguém que estava se procurando, se buscando, tentando se encontrar. Essa busca de todos, que todos os seres humanos empreendem na vida – ou que deveriam ao menos empreender – esse cara o faz de forma muito violenta. 

Ele tem uma percepção da realidade diferente da maioria das pessoas, aparentemente, pelo menos. Então é como se houvesse uma lente de aumento em cima dessa busca. Isso me interessou, você levar o livre arbítrio às últimas consequências, ser quem você quiser. A partir de agora, zerou a sua vida e você pode ser outra pessoa. Eu adoro essa sensação. Topei fazer. Aí veio a história de que é baseado em um cara que enganou as pessoas, que roubava os outros. É óbvio que tenho um juízo moral a respeito do estelionato, um crime horrível, mas não foi por isso que não quis seguir este caminho. Minha vontade de seguir o outro era estética, artística. Vislumbrei uma possibilidade de que me parecia mais interessante, mas permeada de poesia. Não me interessei pelo Marcelo, o rapaz da história que aconteceu, depois que me apaixonei pelo o outro cara. 

Toniko Melo. Ele é um outsider, um cara que tem um freio moral mais estragado que o nosso. Ele para nos lugares onde a gente não iria. Tem essa coragem, esse desafio, a falta de limites, o que faz dele um personagem interessante. Assim como ele pega o telefone e se passa pelo dono da empresa de ônibus para conseguir passagens de graça, ele também está, neste mesmo momento, indo em busca de algo que ele não sabe o que é. E tem a ver com uma frase do Jung que vi pichada em Londres: “Tudo o que fazemos de forma não consciente, surge depois como destino”. Ele está fazendo uma coisa não consciente, que vai levá-lo a um destino, e leva.
 

O ficcional, o documental 

Wagner Moura. Bráulio Mantovani escreveu os dois roteiros de Tropa de Elite e também de VIPs. O roteiro do Tropa, toda vez que caminhava para um terreno um pouco ficcional, caminhava para um lugar errado. A natureza do Tropa de Elite é ser um filme absolutamente linkado e aterrado numa circunstância social, real, com o dia-a-dia, o agora. Toda vez que caminhava para uma coisa bem documental, o filme crescia. Com VIPs é o contrário, totalmente. Toda a vez que começávamos a ir para o que o cara havia feito, parecia que estávamos traindo a natureza do filme, pelo menos o que talvez fosse o que eu quisesse fazer. Toda a vez que enveredava por um terreno de mimetizar a história do farsante, o filme perdia alguma verdade. Toda a vez que ia para a realidade, perdia a verdade. Acho que depende da natureza do projeto. Essa história de dizer que o espectador quer ver filme baseado em histórias reais acho uma besteira enorme, porque se fosse assim O mágico de Oz não seria uma grande sucesso. 

Ele é um personagem que anda a margem da lei, mas isso não é o foco do filme. Fazendo um paralelo com Tropa de Elite, uma discussão ética cabe ali. Cabe muito ao que faz o capitão Nascimento e eu só respondi a essas perguntas, pouco falava de cinema, mas falava de ética, de segurança pública. Em VIPsnão cabe muito esse questionamento, não é um filme sobre um cara que engana os outros. Ele anda a margem da lei, mas é mais um marginal emocional do que um marginal social. Tem um vazio emocional ali grande, que faz com que ele tome atitudes que a maioria das pessoas não tomaria.

Loucura ou crime?

Toniko Melo. Quando falamos em psicologia, as pessoas falam loucura. Todas as pessoas, eu mesmo falo. A pessoa que fala de si mesma nesse tom, ou que trata disso é tido por todos nós como meio fora da casinha. Ele tem isso, sim, ao transcender os limites da moral e da ética. Sem defender, mas explicando, de fato, a atitude que ele tem talvez seja a mais coerente e a mais verdadeira para aquele indivíduo, aquele personagem que o Wagner interpreta. Era uma pergunta que fazia muito para mim mesmo. Vou dar um exemplo prático. No filme, ele faz o voo camicase e quando vê os caras abrindo as caixas e tirando armas ele pensa em desistir do sonho dele, que era pilotar. Ele tem um limite, uma ética maior, melhor ou mais sofisticada. É curioso este personagem, porque ele pode abandonar uma coisa em nome de uma ética que ele tem. Ele passa alguns dos limites, mas a gente não faz isso também? A gente não mente no dia-a-dia, de forma não consciente, sem saber para quê? Se tentasse falar a verdade, quem sabe não seria melhor?

Não sei se você já teve a oportunidade de entrevistar um bilionário, alguém que não consegue parar de acumular muito dinheiro. Onde é que ele vai chegar com aquilo? Existe aquele sensacional documentário The corporation [dirigido por Mark Achbar e Jennifer Abbott, de 2003], onde eles entrevistam os CEOs das maiores multinacionais do mundo, e a tese dos diretores é que aqueles caras são psicopatas. O filme traz uma questão – não que esteja preocupado, mas existe isso. Peraí, o Marcelo que é louco, que tem um limite ético que transcende o nosso limite, ou nós que não estamos querendo ver estes limites para nós mesmos? Será que todos nós estamos falando a verdade, para as pessoas, para nós mesmos? Quem está mentindo no filme, o Marcelo ou as outras pessoas? O filme trata mais de questões filosóficas, psicológicas do que qualquer outra coisa. Na verdade, ele está querendo mostrar para a mãe que ele existe, é alguém, um empresário bem sucedido. E nisso ele causa essas situações todas. O filme tem o tempo todo o reflexo de coisas para nós, eles está muito mais aqui, onde estamos, do lado de fora do que do lado de dentro.
 

As várias personas de Marcelo 

Wagner Moura. Acho que ele aprofunda, sim, que vai tão fundo nestas personas que não as interpreta. Ele está sendo aquelas pessoas. Ele tem a possibilidade de ser alguém e é um cara brilhante, inteligente, então se torna aquelas pessoas. Para mim, foi um aprendizado. Parece uma coisa babaca, mas fico achando que esse personagem me ensinou algumas coisas sobre o meu trabalho. Ele é melhor ator do que eu. No cinema, é importante você ser, não fazer. E ele era estes personagens todos, na verdade, um só. E eu tive muito esse cuidado, de não querer fazer os personagens bem diferentes um do outro, para dizerem “esse cara é bom ator pra caramba”. Eu quis juntá-los, mais do que tentar diferenciá-los, procurei o que era a liga que juntava esses caras que não fazia deles personagens diferentes. E sim personas oriundas de uma mesma matriz, por mais diferentes que elas sejam. 

Quando ele é acossado no filme, não tem esse tipo de preocupação: “Ó, agora vão me pegar, vão me descobrir”. Não é que os outros vão desmascará-los. Há uma eminência dele próprio se desmascarar. Dele se trair. Ele não é um farsante que tem medo de ser descoberto por outro. Ele vai vendo que o que construiu para si talvez não faça tanto sentido e se questiona. É de uma profundidade que o comum da interpretação não te leva nesse lugar, até porque seria uma loucura, os atores seriam todos esquizofrênicos.

 

 

 

Recomendamos para você