Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 16.10.2017 16.10.2017

Vinicius de Moraes: a música do poeta

Por Diego Muniz
“É bom saber que a gente não foi esquecido, que o povo continua cantando as nossas coisas, pois no fundo é pra ele que a gente compõe.” Quando Vinicius de Moraes escreveu a carta a Tom Jobim, em 1964, talvez não imaginasse que seus versos seriam cantados até os dias de hoje.
O Poetinha, como era conhecido, completaria 100 anos neste mês ? para ser mais exato, no dia 19 de outubro. Para marcar a data, livros, shows e relançamentos de discos estão programados. Um dos primeiros a chegar ao mercado é o livro Histórias de Canções – Vinicius de Moraes (LeYa), de Wagner Homem e Bruno de La Rosa.

A publicação apresenta curiosidades da criação de suas composições, desvenda o universo musical do poeta e apresenta um dos principais letristas do país. “Ele mudou a temática da composição da MPB. Suas letras simples, porém sofisticadas, introduziram a alegria na canção popular. A bossa nova, por exemplo, trocou os assuntos mais baixo-astrais por rimas como ‘beijinhos e peixinhos’”, conta o escritor Wagner Homem.

Além do livro, um box 20 CDs também foi lançado. “A Benção, Vinicius – A Arca do Poeta” (Universal) destaca as diversas facetas de Vinicius na música. “É bom lembrar que ele não era apenas letrista. Vários de seus sucessos são composições apenas dele, como ‘Serenata do Adeus’, ‘Valsa de Eurídice’ e ‘Medo de Amar’. E pouca gente sabe que na parceria com Chico Buarque ‘Valsinha’, a letra é de Chico e a música de Vinicius”, conta o jornalista e crítico musical Tárik de Souza, responsável pelo texto que acompanha o box.

REVOLUÇÃO EM FORMA DE POESIA E PARCERIA
O poeta participou dos principais momentos da MPB. Foi responsável por composições da bossa nova, mas não hesitou em largar o movimento no auge para criar os afro-sambas, assim como também dedicou parte de sua obra às canções infantis.
“Mesmo com o domínio da técnica e de uma cultura que se pode chamar erudita, que poderia ter esmiuçado, Vinicius desenvolveu um despojamento e uma liberdade raros num artista com sua formação (e foi massacrado pelos críticos por isso). A passagem da bossa nova para os afro-sambas, discos infantis, até a ‘Tonga da Mironga do Kabuletê’, diz o suficiente sobre sua personalidade e perpetuação na cultura brasileira”, conta Bruno de La Rosa.
Um dos grandes momentos da obra de Vinicius de Moraes – e da música brasileira – foram as parcerias. “O que diferencia o Vinicius músico de seus outros dons é o fato de ele ter participado da revolução da bossa nova e nunca ter estacionado nas primeiras conquistas, abrigando um número cada vez maior e mais influente de parceiros, que marcaram a MPB”, relembra Tárik.
Sempre cercado por jovens instrumentistas, o letrista fez história ao se unir com: Tom Jobim (1956), Carlos Lyra (1960), Baden Powell (1961), Edu Lobo (1962), Francis Hime (1963), Chico Buarque (1696) e Toquinho (1970). “Foi a musicalidade de Vinicius que o permitiu encontrar e estar aberto a esses parceiros. Não foi coincidência”, define Bruno.
Um dos parceiros, Francis Hime, lembra como era compor com o poeta e revela que Vinicius tinha ciúmes de seus companheiros. “A primeira parceria nossa foi ‘Sem Mais Adeus’ e se concretizou quando, um dia, o poetinha apareceu num bar que ambos frequentávamos, com uma letrinha escrita num guardanapinho de papel. Compor com ele era uma delícia: ia para a casa dele e ficava tocando a música até que terminasse a letra. Mas Vinicius era bem ciumento, e a minha parceria com Chico Buarque foi adiada por conta disso durante alguns anos”.
Segundo Tárik, o legado de Vinicius é o de um ativista que soube valorizar e dar dimensão internacional à cultura do país, enfatizando seu caráter miscigenado no título atribuído por ele mesmo de “branco mais preto do Brasil”.
POR TRÁS DAS CANÇÕES
Wagner Homem, que acaba de lançar o livro Histórias de Canções – Vinicius de Moraes (LeYa),
em parceria com Bruno de La Rosa, conta algumas curiosidades de músicas clássicas do
“poetinha”
“Garota de Ipanema”
Tom Jobim e Vinicius de Moraes
A canção foi composta para uma peça chamada Blimp. A música (intitulada “Menina que passa”) seria tema do encontro de Blimp, um marciano, com uma mulher carioca, a Umbiguinho. O musical deveria passar no Carnaval, mas nunca aconteceu e a composição ficou anos na gaveta, esperando a hora de aparecer. Depois, surgiu a história de que a inspiração teria sido a Helô Pinheiro. Há controvérsias, mas Vinicius e Tom acabaram por concordar com a segunda versão da história.
“Chega de Saudade”
Tom Jobim e Vinicius de Moraes
Vinicius sofreu para escrever a letra, porque a melodia era diferente de tudo o que ele já tinha feito. Quando acabou, ficou meio hesitante, chamou a mulher para ouvir e ela falou: “Que bobagem esse negócio de rimar peixinho com beijinho”. Na época, ninguém queria gravar. A canção só entrou em um compacto porque o Tom Jobim insistiu muito. Quando o LP chegou a São Paulo, o diretor de uma loja de discos falou: “Olha só a m… que o Rio de Janeiro nos manda”.
“Se Todos Fossem Iguais a Você”
Tom Jobim e Vinicius de Moraes
 Tom Jobim sempre foi um brincalhão com seus parceiros musicais. ‘Se todos fossem/ Iguais a você/ Que maravilha viver’. “Que bobagem é essa? Imagine se todo mundo fosse igual à mulher que a gente ama? O mundo seria um saco”, falou uma vez para Vinicius, que respondeu “É pra você ver, Tonzinho. A poesia não precisa de razão nenhuma”.
“Samba em Prelúdio”
Baden Powell e Vinicius de Moraes
Um dia, o Baden Powell fez um sambinha e deu para o Vinicius colocar letra. Passou um tempo e nada da letra. O Baden Powell começou a cobrar e o Vinicius respondeu: “Você sabe o que é, Badinho, essa música é plágio”. Baden, assustado, perguntou:
“Plágio de quem?”. E ele disse: “Isso é Chopin”. Começaram a discutir e acordaram a mulher do Vinicius para confirmar. Ela disse que não era plágio e Vinicius completou:
”Então Chopin esqueceu de fazer essa música, porque é a cara dele”, e fez a letra.
“Tarde em Itapuã”
Toquinho e Vinicius de Moraes
A parceria é fruto de um furto. Vinicius fez o poema e desejava que Dorival Caymmi musicasse. Toquinho leu o poema quando os dois ainda estavam começando a parceria, pegou a letra, trouxe para São Paulo e pôs música. Quando voltou para a Bahia, foi mostrar para o Vinicius, que estava nervoso porque a letra tinha sumido. Depois de ouvir umas 40 vezes, Vinicius falou: “Acho
que então vai ser sua, não vou dar para o Caymmi, não”. Foi um megassucesso.
“Gente Humilde”
Chico Buarque de Holanda e Vinicius de Moraes
Vinicius morria de ciúmes de seus parceiros musicais, embora ele mesmo incentivasse o encontro deles. Ele havia apresentado Chico Buarque ao Tom Jobim, que juntos escreveram algumas músicas, mas o Chico ainda não tinha nenhuma parceria com ele. Em 1969, o Chico se autoexilou na Itália. Vinicius foi para lá, porque ia ser padrinho da filha do Chico, e aproveitou para pedir que
ele musicasse “Gente Humilde”. O Chico olhou e falou que não tinha nada para fazer, porque estava perfeita. Ele insistiu. Chico escreveu a parte “Pela varanda flores tristes e baldias – Como a alegria – Que não tem onde encostar”. Vinicius mexeu na letra toda para encaixar essa parte, ligou para o
Tom Jobim e falou: “Agora Chiquinho também é meu parceirinho”.
DEZ CANÇÕES PARA ENTENDER VINICIUS DE MORAES
Por Bruno de La Rosa
“Berimbau” (com Baden Powell)
Mostra a habilidade de escrever como um mestre de capoeira, como se fossem ensinamentos colocados em sínteses particulares a ele: “O homem que diz sou, não é / quem diz muito que vai, não vai / quem de dentro de si não sai vai morrer sem amar ninguém”.
“Saudade de Amar” (com Francis Hime)
Apresenta o tema recorrente do “tempo sem amor” e da solidão.
“Chega de Saudade” (com Tom Jobim)
Diferencia-se pela estética de letra diferente para a época, com o poeta finalmente esperançoso em relação ao amor.
“Loura ou Morena” (com Haroldo Tapajós)
A letra foi feita antes da publicação do seu primeiro livro de poesias, já com o tema da mulher, diminutivos etc ? características que só voltariam à sua poesia muitos anos depois.
“Testamento” (com Toquinho)
Expressa o despojamento e o rejuvenescimento de Vinicius, vivendo na Bahia, iniciando a parceria com Toquinho.
“É Preciso Dizer Adeus” (com Tom Jobim)
Fala sobre a maneira peculiar do Vinicius de tratar da separação.
“Samba da Bênção” (com Baden Powell)
Trata-se da visão do poeta e diplomata reverenciando os grandes sambistas brasileiros, mostrando que o que poderia ser considerado óbvio ou lugar comum – “É melhor ser alegre que ser triste” -, soa absolutamente natural, pela maneira como Vinicius colocou a palavra na melodia de Baden.
“A Casa” (só dele)
Mostra a capacidade camaleônica de Vinicius de mudar completamente a maneira da escrita, sem perder a propriedade.
“Medo de Amar” (só dele)
Letra e música de Vinicius, que não deixa nada a dever a seus parceiros, grandes melodistas.
“Canto de Oxalufã” (com Toquinho)
Mais uma vez vale-se do canto de Candomblé para ilustrar sua perspectiva sobre a vida, dando um recado a seus críticos.
Autor de versos célebres como o “Soneto de Fidelidade” e canções antológicas como “Garota de Ipanema”, Vinicius de Moraes foi uma das figuras mais complexas e populares da cultura brasileira; ele completaria 100 anos neste mês.
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