Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 16.02.2011 16.02.2011

Vincent Moon, o cineasta trovador

Por Marcio Debellian
Foto de Tomás Rangel
 

Os trovadores medievais eram artistas, poetas músicos do século XII, originários do sul da França, que passavam de cidade em cidade com seu canto e improviso, geralmente acompanhados de instrumentos musicais, levando notícias, comentando o cotidiano, satirizando o estabelecido. 

Em plena era digital, pode se dizer que o francês Vincent Moon seja a evolução desta figura no mundo contemporâneo. Desde que deixou Paris há quase três anos, Vincent já passou pela Argentina, Chile, Camboja, Egito, Japão, Nova Zelândia, Islândia e está, desde novembro, no Brasil, onde começou a filmar sua nova série “Petites Planetes”. Com uma câmera, um laptop, alguns microfones e gravador de áudio na mochila – e a internet para divulgar o material captado –, ele tem seguido pelo mundo, realizando vídeos com músicos bastante originais. 

> Assista à entrevista exclusiva de Vincent Moon ao SaraivaConteúdo

Conhecido pelo seu trabalho como cineasta, documentarista e diretor de videoclipes de bandas, Vincent é responsável por boa parte do acervo da série em vídeo “Concerts à Emporter”, do site francês La Blogotheque. Esta série consagrou-se pela forma particular de filmar a música, e se concentrou em registrar bandas em início de carreira. A repercussão dos vídeos acabou por chamar a atenção do meio musical, o que abriu as portas para que Moon filmasse com bandas mais conhecidas, como REM, Echo & the Bunnymen, Beirut e Arcade Fire. 

“Antes de chegar a um país, eu mando emails para alguns contatos e peço sugestões de bandas. Depois vou cruzando as listas, investigando, ouço as músicas. Mas quando chego no lugar, tento ir ao maior número possível de shows, e tento ouvir muita coisa, especialmente ver as pessoas ao vivo. Então pesquiso por duas ou três semanas, não filmo nada, ando pela cidade, saio. Depois desenvolvo as idéias para cada filmagem”, conta Vincent, em entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo. 

No Brasil, ele já filmou com Thiago Pethit, Tom Zé, Carlinhos Brown, Banda Letuce, Ney Matogrosso, Jards Macalé e Thalma de Freitas acompanhada de seu pai, Laércio. Com Pethit, o vídeo registra um piano no Minhocão, famoso viaduto paulista. Ney Matogrosso foi filmado cantando na piscina. Tom Zé foi registrado no alto de seu prédio, ao amanhecer, cantando à capela e fazendo movimentos de Tai Chi para acordar a cidade. A dança da câmera de Vincent com o artista baiano segue por quase 30 minutos, num balé irresistível. 

Thalma, que hospedou Vincent em sua casa em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, e organizou algumas projeções de seus filmes em sua varanda logo em seguida ao pôr-do-sol, ganhou um vídeo especial: “Soube que o pai da Thalma, Laércio, também viria à cidade e que é um ótimo compositor e arranjador. Eu queria dar um filme de presente para eles. Ela me ofereceu um lugar para ficar por um mês, então esta é a maneira que vivo, eu dou um filme! Fiquei pensando numa ideia original para juntar os dois. Primeiro saí com Thalma pela cidade pedindo que ela cantasse músicas à capela e depois mostrei este filme pro Laércio e ele compôs música para tudo isso. Fiz um filme de 15 minutos com a Thalma, coloquei meu laptop em cima do piano e pedi a Laércio para assistir e improvisar em cima daquilo. Ficou um filme incrível, de dupla camada. Foi muito bonito ver este senhor olhando a sua filha andando pela cidade e adicionando pequenas notas no piano”. 

Vincent diz que o último videoclipe contratado por um selo ou artista, com o qual ganhou dinheiro, foi o da banda Mogwai, há cerca de um ano e meio. Seus vídeos ficam disponíveis sob a licença do Creative Commons – projeto que flexibiliza os direitos autorais, permitindo que criadores autorizem o uso de seus trabalhos por parte da sociedade – para quem quiser divulgar ou organizar uma projeção. 

“Gosto da idéia de deixar os filmes gratuitos. Sem dinheiro envolvido. É a mesma coisa de um músico que não ganha dinheiro com o álbum, mas com as apresentações pelo mundo. Eu tento ganhar dinheiro com conferências, algumas exibições dos filmes”, explica. 

Vicent chegou a São Paulo em novembro, convidado para darworkshops de duas semanas na Academia Internacional de Cinema e participar do Seminário Culturadigital.br, muito embora reserve bastante desconfiança ao aprendizado acadêmico. 

“Eu sou caótico. ‘Escola de cinema? É isso mesmo? Isso não serve para nada’. Foi o que disse aos alunos assim que cheguei. ‘Vocês não estão num bom lugar para fazer filmes, mas vamos tentar fazer algo interessante.’ Então fizemos algumas experimentações. Você aprende muito mais do lado de fora, foi deste jeito que aprendi. Frequentei a escola de cinema quando tinha 19 anos, e não aprendi nada”, acrescenta. 

Para um cineasta que vive na estrada e chega a fazer 50 filmes por ano, escola formal pode mesmo parecer uma ideia absurda. O caminho de Vincent é certamente voltado para a independência, individualista como realizador, mas comprometido em compartilhar o resultado de sua arte. Sua busca é por esmiuçar a tela de um computador como linguagem democrática e ampla, fazer filmes que driblem o chamado “mercado” e cheguem ao espectador sem intermediários. Trata-se de uma trajetória que nos ajuda a refletir sobre o que pode vir a ser um novo modo de se relacionar com a produção audiovisual dos próximos anos. 

“Com meus novos projetos tento explorar uma linguagem de cinema bem específica, que você não consegue explicar completamente com palavras. Eu tento fazer filmes que ninguém consegue explicar com palavras. A única maneira de responder seria com o mesmo meio”. 

Nada melhor então do que passear distraidamente pelo seu site e assistir sem ordem planejada alguns entre a infinitude de vídeos disponíveis, realizados ao longo da última década. Uma boa cartografia da produção musical do planeta que caminha à margem do mercado e do foco de atenção do mainstream.

> Assista à entrevista exclusiva de Vincent Moon ao SaraivaConteúdo

> Confira o trabalho de Vincent Moon no projeto Take Away Show

 

 

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