Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 19.04.2013 19.04.2013

Vídeos indígenas: o que eles têm a ensinar sobre si e sobre nós mesmos

Por Marcelo Rafael
 
Em 19 de abril é celebrado o Dia do Índio. Mais do que uma data em que as crianças voltam da escola com os rostos pintadinhos e usando cocares de papel, é também um momento para pensar sobre as questões indígenas no país.
Volta e meia, a mídia retoma o assunto, como nas discussões sobre os impactos da construção de Belo Monte, em 2011, e a comoção causada pela carta-lamento dos índios guarani-kaiowá sobre o suicídio em suas aldeias, em 2012.
E a arte também dá visibilidade não só a problemas, mas também a soluções e à cultura e diversidade desses povos que contribuem para a formação de nossa sociedade.
 
Xingu, de Cao Hamburger, estreou no mês do índio, em 2012, e é lançado agora em DVD. Também neste mês, estreia em circuito comercial Coração do Brasil, documentário de Daniel Santiago que refaz, 50 anos depois, a expedição dos irmãos Villas-Bôas, retratada na ficção por Xingu.
Três integrantes da aventura original com os Villas-Bôas estão em Coração do Brasil: Sérgio Vahia de Abreu, o cacique Raoni e o documentarista inglês Adrian Cowell, falecido em 2011.
Esses são apenas alguns dos vídeos que retratam o índio no Brasil. Há produções que vão dos documentários Xingu – A Terra Ameaçada e Xingu – A Terra Mágica – ambos de Washington Novaes – e Kuarup, Corumbiara, de Vincent Carelli, até o infantil Tainá.
 
O projeto Vídeo nas Aldeias, que engloba produções realizadas pelos próprios índios, vai além, aprofundando o tema e procurando estabelecer pontes entre as realidades indígenas e a sociedade fora das aldeias.
Desse projeto surgiu As Hiper Mulheres, que, após ter passado por dezenas de festivais e ganhado prêmios pelo país, estreia em 26 de abril.
 
As Hiper Mulheres
O documentário mostra um festival no Xingu em que as mulheres tomam a dianteira, inclusive sexual, na sociedade kuikuro, participando de lutas e submetendo os homens às suas vontades.
 
“É um ritual, um momento, mas isso mostra, também, uma inversão do que pensamos sobre os índios, do que pensamos sobre nós, mulheres”, comenta Joana Cabral de Oliveira, antropóloga e doutora pela USP que trabalha com os povos guarani e wajãpi.
Além de retratar a cultura kuikuro, o documentário também quebra a imagem de mulher subjugada. “Acho isso fantástico, porque essa é uma ideia também entre os antropólogos: de que as sociedades indígenas são machistas, onde o homem domina. De fato, elas existem, mas o Hiper Mulheres rompe com isso”, diz.
 
ÍNDIO DO IMAGINÁRIO X ÍNDIO REAL X NÃO ÍNDIOS
 
Joana avalia que o filme ultrapassa o apelo estético de mulheres e homens seminus, com pinturas corporais, na beleza das paisagens do Xingu, para apresentar a complexidade do pensamento e da cultura desse povo.
 
“Ele transcendeu um pouquinho aquela esfera dos ‘amigos dos índios’: antropólogos, ONGs e pessoas que trabalham com eles”, completa André Lopes, antropólogo que trabalha com vídeos entre os manoki, povo indígena do Mato Grosso.
Esse sucesso se deve ao modo de produção, que levou o vídeo para além do projeto Vídeo nas Aldeias: uma tríplice colaboração entre um editor, um antropólogo e a equipe indígena. Isso traz uma dimensão que uma pessoa não indígena, ao chegar a uma aldeia, não teria acesso, segundo Lopes.
“Você tem um cineasta na jogada, o que faz muita diferença. Ele tem um diálogo maior com o mundo dos não índios e faz um ponte que, muitas vezes, filmes feitos por antropólogos em parceria com os índios acabam não conseguindo”, afirma Joana.
 
“O Carlos Fausto, codiretor, tem uma relação de muitos anos com os kuikuros. E o Takumã Kuikuro tem uma destreza técnica impressionante com a câmera”, analisa Lopes.
Traçando um paralelo com Xingu, Lopes considera que, apesar de não retratar o universo indígena como em As Hiper Mulheres, ele é uma produção de grande importância, por contar uma História do Brasil recente.
 
As Hiper Mulheres
“As duas visões são importantes e têm seu papel. Porém, você percebe, em Xingu, que há personagens kuikuros. Você não fica sabendo nada daquele universo de relações entre eles, não é o foco do filme”, diz.
Joana chama a atenção para o fato de Xingu ser um trabalho sobre os Villas-Bôas, e não sobre os índios. Para ela, a criação do Parque foi um marco importante, apesar de ter misturado diferentes povos, sem relação cultural entre si e de vários cantos, em um mesmo lugar. Mas ela alerta: “Se os Villas-Bôas não tivessem tido aquela visão além do tempo deles, esses povos poderiam ter sido dizimados”.
 
Lopes ainda acrescenta que as questões sociais do filme (madeireiros, garimpeiros, fazendeiros e obras de infraestrutura como a Transamazônica) são temas presentes ainda hoje.
Para os dois pesquisadores, produções assim dão visibilidade ao índio, mas também quebram o senso comum de que “ou ele é daquele jeito que queremos que ele seja (nu, de cocar e pintado) ou ele não é nada e perde seus direitos”.
Essas referências vêm do século XVI e se consolidaram ao longo dos séculos por relatos dos viajantes e pela literatura nacional romântica do século XIX, “em um processo histórico de nação onde a presença do índio foi, na maioria das vezes, atenuada”, segundo Joana. “É sempre uma ideia de passado, e não de presente ou de futuro”, completa Lopes.
Refletir sobre o momento atual também é papel de todos esses vídeos que surgiram nas últimas décadas, tanto para os índios como para os não índios. “A partir do momento em que conhecemos outro mundo, outras formas de organização social e de vida, começamos a questionar coisas que, muitas vezes, estão naturalizadas em nossas vidas”, finaliza Joana.
 
 
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