Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 27.03.2013 27.03.2013

Videoclipes e cinema: um diálogo constante

Por Daniela Guedes
 
Que a linguagem dos videoclipes exerce enorme influência na linguagem cinematográfica – e vice-versa – ninguém mais duvida. Há algum tempo, as estéticas, discursos, linguagens, procedimentos de criação, características poéticas e formas do videoclipe têm contribuído muito para o cinema.
Diretores como David Fincher, antes de enveredar pela sétima arte, já trouxeram grandes contribuições para o mundo dos videoclipes. Ele, que esteve por trás das câmeras nos filmes O Curioso Caso de Benjamin Button (2008) e Clube da Luta (1999), já dirigiu videoclipes de grandes nomes da música – o vídeo de “Vogue” (1990), da cantora Madonna, foi um deles.
“As duas linguagens estão bem mais próximas hoje em dia. É importante lembrar que essa narrativa não linear, normalmente identificada com a linguagem dos videoclipes, surgiu na verdade do cinema experimental, ou seja, o cinema e o videoclipe estiveram interligados desde seus primórdios”, esclarece o cineasta Duda Leite, diretor de Serial Clubber Killer (1994) e do documentário Tikimentary – Em Busca do Paraíso Perdido (EUA/Brasil, 2010), sobre o fenômeno da cultura pop.
 
Por estar relacionada à videoarte e também ao cinema experimental, a linguagem do videoclipe foi sendo desenvolvida tanto por aqueles cineastas que já haviam feito cinema e depois foram fazer videoclipes – é o caso de Martin Scorsese, que dirigiu “Bad” (1987), do Michael Jackson – como também por diretores que nunca haviam feito cinema, como Anton Corbjin, responsável por “Electrical Storm” (2002) do U2, e Jonathan Glazer, diretor de "Karmacoma" (1995) do Massive Attack.
Essa condição foi ainda mais elevada pelo aparecimento de diretores que começaram seus trabalhos dirigindo videoclipes e depois migraram para o cinema, como Michel Gondry (Rebobine, Por Favor, de 2008) e Mark Romanek (Retratos de Uma Obsessão, de 2002), apenas para ficarmos nos exemplos mais clássicos.
Por conta dessa intensa ligação entre as duas linguagens – videoclipe e cinema –, a narrativa e a lógica do discurso clássico da sétima arte acabaram por se modificar em algumas produções cinematográficas.
“Enquanto características estéticas, uma das principais influências dos videoclipes no cinema tem a ver com a edição com cortes rápidos, que foi algo que veio dos clipes para o cinema, com resultados variados. Hoje em dia é muito comum vermos filmes que parecem videoclipes e videoclipes que parecem filmes”, analisa Duda.
E aquela máxima de que “nenhum meio supera o outro, mas incorpora os procedimentos do anterior”, muito em voga quando nos deparamos com uma nova tecnologia, encontra referência nesse diálogo do cinema com o videoclipe.
“Na exposição Spectacle, apresentada no MIS, onde eu fiz a curadoria dos clipes nacionais, tínhamos uma sessão chamada ‘Épico’, justamente com os clipes que se assemelham a filmes. São clipes mais narrativos, geralmente com uma grande produção, cuidados com fotografia, etc., [aspectos] que acabam fazendo com que [os videoclipes] se pareçam com pequenos filmes”, continua o cineasta.
Ele destaca dois filmes que tiveram grande influência dos videoclipes. Um deles é Maria Antonieta (2006), de Sofia Coppola, principalmente na cena do baile, onde ela usa uma canção do grupo inglês Siouxsie & The Banshees. Nela, a edição rápida e o uso da música fora do contexto histórico determinam duas fortes influências dos clipes.
O outro é Fome de Viver (1983), de Tony Scott, com David Bowie e Catherine Deneuve vivendo um casal de vampiros “new wave”. A cena inicial, com uma apresentação da banda Bauhaus, é praticamente um videoclipe dentro do filme.
Com relação ao cenário nacional, ainda de acordo com Duda, também temos vários exemplos de diretores que cruzaram a linha tênue que separa os clipes do cinema: Breno Silveira, Kátia Lund e José Henrique Fonseca, só para citar alguns, dirigiram clipes e filmes, ou seja, também fizeram desse intercâmbio entre as duas linguagens algo essencial e novo para os seus trabalhos.
Veja aqui alguns diretores que enriqueceram ainda mais essa mistura:
Spike Jonze: começou produzindo clipes para artistas inventivos na música, como “It's Oh So Quiet” (1995), da islandesa Björk, totalmente inspirado em filmes musicais. Em 1999, Jonze estreou no cinema com seu primeiro longa, Quero Ser John Malkovitch, baseado no roteiro de Charlie Kaufman.
 

 
Alexandre Courtès: de designer gráfico a diretor de videoclipes e filmes. Dirigiu clipes de bandas importantes no cenário do rock, como “Vertigo” (2004) do U2. Em 2011, ele estreou nos cinemas com Les Infidèles (Os Infiéis), com a participação do vencedor do Oscar Jean Dujardin.
Michel Gondry: no seu currículo figuram trabalhos com Radiohead, The Chemical Brothers, Massive Attack, Daft Punk, Björk, The Rolling Stones, entre outros. No cinema, o destaque ficou por conta de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004), que ganhou o Oscar por melhor roteiro original.
Floria Sigismondi: diretora do filme The Runaways – Garotas do Rock (2010), ela antes já havia incursionado pela direção de vídeos do cantor Marilyn Manson – como “The Beautiful People” e “Tourniquet”, ambos de 1996 –, Fionna Apple e The Cure. Agora, em 2013, volta ao set musical com o mais novo videoclipe de David Bowie, “The Stars (Are Out Tonight)”.
 
 
 
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