Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 20.11.2014 20.11.2014

Vida de roadie

Por Andréia Martins
Eles geralmente usam preto. São os caras que sobem ao palco antes, (durante) e depois dos shows, conectando cabos, checando os instrumentos, passando o som, fazendo os últimos ajustes para que quando a banda ou artista suba ao palco, tudo funcione. São os roadies.
Muitos músicos que desempenharam essa função acabaram indo para o estrelato, como Lemmy (Motörhead), que foi roadie de Jimi Hendrix, Noel Gallagher (Oasis), que trabalhou como roadie do Inspiral Carpets, e David Gilmour, que começou no Pink Floyd como roadie até ser convidado para ser o guitarrista da banda.
No entanto, ao longo dos anos ficou provado que a ajuda dos roadies vai além da música. Gene Simmons, do Kiss, é prova disso. Em 1973, durante um show de ano novo, em Nova York (EUA), ele resolveu testar sua habilidade de assoprar fogo e, acidentalmente, incendiou o seu cabelo. A tragédia foi evitada com ajuda de um roadie que conseguiu, em segundos, apagar o fogo com uma toalha molhada.
Não à toa Alek, roadie da cantora Luiza Possi, diz que além de ser o “cara de confiança do músico”, o roadie também é, sem dúvida, “o anjo da guarda deles”.
Em oito anos de profissão, ele já trabalhou com O Teatro Mágico, Banda Black Rio, Pedro Mariano, Wanessa Camargo, Izzy Gordon, OBMJ, Sandália de Prata, Os Opalas, entre outros artistas.
Ele começou na função sem querer. “Morei em frente a uma casa chamada KVA que trazia muitos trios de forró no final dos anos 1990 e começo dos anos 2000, e lá conheci diversas pessoas do meio. Foi quando, a convite de um amigo, comecei a ajudá-lo nas roldagens, até que produtores começaram a me chamar para diversos trabalhos diferentes”, conta Alek.
Rogério Cagere dos Santos, roadie da dupla João Bosco & Vinicius, também começou por indicação de amigos. Para ele, o critério das bandas na hora de contratar um roadie é simples: “tem quer ser um bom profissional”. Testes são raros, principalmente, em bandas grandes, e na maioria, é a indicação que acontece com frequência.
Há dez anos trabalhando com Pitty, Caio Piovesan começou como roadie por influência dos amigos da mãe. “Eu tinha banda e sabia tocar, então surgiu a oportunidade de trabalhar com a galera do Planet Hemp e a Na Moral Produções Artísticas. Na época EU tinha 17 anos, tive a sorte  de começar com uma galera super-profissional que me ensinou muita coisa na época”, conta.
Rogério acompanha show de João Bosco e Vinícius
Para eles, o melhor de ser roadie – que segue a agenda das bandas, os horários loucos, as longas e seguidas viagens, chegar antes do show para arrumar o palco e sair depois que tudo for desmontado — é poder viajar e conhecer as bandas mais de perto.
“O bom também é poder perceber se aquela pessoa é como você imaginou quando a via no palco. Às vezes acontece de não ser nada daquilo fora do palco”, diz Alek.
Veja o vídeo com cenas do roadie (ninja) que salvou a cabeleira de Gene Simmons:
O FAZ TUDO PARA A BANDA
“Com certeza um bom roadie precisa estar sempre disposto a fazer o que tiver pra ser feito”, diz Rogério.
Piovesan diz que rola muito isso do roadie amigo. “É um profissão que exige. Se o cara não evoluir e aprender não vai se dar bem. Amigo na estrada tem prazo de validade. Tem que ser profissional e manter um padrão de trabalho”, comenta ele, que também já assessorou Otto, Seu Jorge, Nação Zumbi, Marcelo D2, Matanza, e outros.
No entanto, há limites. Há histórias lendárias de roadies que viraram motoristas, acertavam encontros para os músicos, atendiam fãs, descolavam comes e bebes e assumiam outras funções além da música.
“Rola demais isso, não sei de onde tiraram que roadie é o faz tudo. Isso é o que mais desgasta o relacionamento com artistas e bandas. Temos funções que já são de grande responsabilidade, mas em diversas bandas o roadie é confundido com carregador, parente ou amigo que pode sempre quebrar um galho pra você, motorista, até churrasqueiro já ouvi falar… Mas se o bom profissional souber se posicionar, não faz essas coisas, pois isso não vai segurar o trabalho”, diz Alek.
IMPROVISOS E FRIAS
Como todo trabalho ao vivo, por mais que tudo esteja ensaiado para dar certo, algo pode sair do planejado. “Em um determinado show, ao retirar um objeto do palco, quase derrubei o artista”, lembra Rogério, agradecendo que o pior não aconteceu.
Rogério abraça Vinícius, da dupla João Bosco e Vinícius, após show
Alek, com mais tempo de experiência, diz que já enfrentou carão de músico e teve que subir ao palco para substituir o integrante de um grupo. “Faz uns cinco anos, trabalhei com uma banda onde o percussionista era o mais fanfarrão da paróquia. Eles tocavam em uma casa noturna todo sábado, que acabava às 5h da manhã. Um dia, tinha um show beneficente na sequência, ao meio dia, e o bonito não acordou para ir. Eu assumi a percussão a pedido do bandleader, em cima de um trio elétrico na Avenida Paulista”, lembra ele.
O outro episódio foi mais delicado. Ao sair de viagem com um artista, segundo ele, conhecido como “Locão” no meio artístico, eles escolheram levar seis das cerca de 20 guitarras que o artista tem penduradas em seu estúdio. Alek estava substituindo um amigo.
“Chegando no local, montei todo set dele, e ele passou o som por duas horas numa boa. O show começa, tudo indo bem, até que uma pessoa do público pediu uma música. Quando ele decidiu atender o pedido, olhou para trás e viu que a guitarra certa para aquela música não estava lá. Ele deu o maior escândalo no palco, dizendo no microfone que era um desastre, que eu tinha esquecido a guitarra dele em São Paulo e, agora, como ele faria aquela música. Ficou uns cinco minutos andando no palco pra lá e pra cá me xingando”.
A saída para lidar com a saia justa foi manter a calma. “Hoje não me arrependo da minha postura de deixá-lo enlouquecer sozinho, o bom roqueiro antigo, mais doido. Costumo dizer que quem é roadie terá um lugar especial na próxima vida, por que não é fácil”.
“Sempre tem uma fria. Faz parte do trabalho. A gente trabalha baseado em um monte de incertezas, desde o clima, até o voo que pode atrasar ou um músico que passou mal. O importante a fazer o show rolar”, diz Piovesan.
REGRAS DE OURO PARA SER UM BOM ROADIE
A ideia de que para ser um bom roadie o profissional deve ser um bom músico parece ter ficado para trás. “Nem sempre é assim. Mas o conhecimento sobre música e os instrumentos é necessário”, comenta Rogério.
“Eu mesmo sou péssimo musico, toco um pouco de contra baixo só para brincar com os amigos. Acho que um bom roadie tem que ser uma boa pessoa, responsável, ter postura e saber o que tem que fazer. Se for bom músico ajuda bastante, principalmente, bandas grandes, onde os artistas não costumam passar som”, diz Alek.
O que Rogério e Alek dizem ser imprescindível para quem quer entrar nessa vida de é ter postura, responsabilidade, educação, amar música, saber servir, estar disposto a aprender. Piovesan, ainda completa: chegue na hora, é trampo, não é festa e seja metódico. Como diz Alek: “O resto você aprende no palco, não tem segredo”.
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