Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 20.05.2009 20.05.2009

Versos contra a razão

Por Bruno Dorigatti 
Fotos de Stefan Hess

“Noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira.”

> Assista à dois trechos de Só dez por cento é mentira, onde o poeta fala sobre seus leitores e sobre o seu Pantanal

Pouco conhecido até os anos 1980, Manoel de Barros é um dos maiores vendedores de livro de poesia no país, senão o maior. “Revelado” por Millôr Fernandes aos 72 anos, o poeta fez pouco caso desse desacontecimento, mais um em sua vida repleta de insignificâncias, como ele mesmo gosta de dizer. Não que não goste do carinho dos leitores, que lhe escrevem contando a importância que sua poesia teve e tem em suas vidas. Mas é que Manoel segue o mesmo desde então, quando começou a ser publicado por uma grande editora do Sudeste, requisitado para eventos literários, consagrado instantaneamente. Prefere ficar em Campo Grande, com sua mulher Stela, seus amigos como Palmiro e o finado Bernardo, persona recorrente em sua obra.

“Há várias maneiras sérias de não dizer nada./ Mas só a poesia é verdadeira.” Assim Manoel encara o mundo, encara a poesia, que não existe para ser compreendida, mas para ser incorporada, através da sensibilidade. Um negócio da palavra, com o qual é possível transver o mundo. Sua poesia trata das insignificâncias deste mundo, das coisas desimportantes, da vegetalização do ser, dos bichos. Lá na sua infância, nas suas memórias inventadas, Manoel busca a matéria de sua poesia, “com um rasgão na bunda da razão”. Como gosta de afirmar, “quem descreve não é dono do assunto. Quem inventa é”. E é assim que Manoel segue, inventando um mundo de coisas inóspitas em seu idioleto manoelês. 
 
Com mais de 20 livros escritos, alguns deles premiados, outros traduzidos, na altura de seus 92 anos, Manoel não se abala. Diariamente segue a rotina em seu pequeno escritório, investigando novos comportamentos às coisas, às frases, e registrando com a caligrafia miúda suas tenências e obstinações, em pequenos cadernos que ele mesmo monta, o que o poeta define como uma obsessão, uma doença, um olhar enviesado que nasceu com ele.
 
Foi lá em Campo Grande que o diretor Pedro Cezar – responsável pelo premiado Fábio fabuloso, que conta a trajetória do surfista Fábio Gouveia – conseguiu convencer Manoel de que sua desbiografia valia a pena ser contada através de um filme. Em Só dez por cento é mentira, Pedro Cezar alcança o sublime de Manoel. Tendo como fio condutor uma entrevista gravada logo no começo da pesquisa, o diretor amarra depoimentos de grandes admiradores do poeta, como Fausto Wolff, Joel Pizzini, Eliza Lucinda, Viviane Mosé, intercala outros, fictícios e inventados (mas não revela quais são, jogando o jogo do poeta), aborda os personagens/amigos de Manoel, como Palmiro e Bernardo, e volta a Corumbá, cidade onde o poeta cresceu e viveu grande parte de sua vida, antes das andanças pelo Rio de Janeiro, Nova York, até se estabelecer em definitivo em Campo Grande.
 
A seguir, Pedro Cezar, em conversa comigo e com o diretor do SaraivaConteúdo, Marcio Debellian, fala sobre o processo, lento e maturado da feitura do filme, de suas dúvidas e angústias, e de como encara a arte de documentar.

COMO CHEGOU ATÉ ELE, POR QUE MANOEL DE BARROS?

Pedro Cezar. Devo ao Júlio Adler o fato do Manoel de Barros fazer parte da minha vida. O Júlio me deu de presente O livro sobre nada (Record, 1996), quando fiz 30 anos. Eu não conhecia Manoel de Barros, e nem ele. Ele leu alguma resenha sobre o livro, deu uma olhada e achou que tinha a ver comigo, e nem sabia o que estava fazendo, no que aquilo iria dar. E ali naquele momento, fiquei muito, muito impactado, tomado por aquilo, muito afim da vida, a fim de fazer as coisas. Como eu gostaria de ter dito, escrito isso. Mas, muito mais do que isso, como é bom que ele existe. Com essas várias invenções de sintaxe, de palavra, essas loucuras que ele faz. E de uma maneira que eu não associava ao que eu tinha aprendido que era poético, poesia. Não fazia rima, métrica, não tinha ali um soneto construído. De repente, ele largava uma frase numa página e pronto. E isso, para mim, foi muito bonito, lírico, impactante. Mas, se não estivesse escrito ali na capa que isso é um poeta, eu não iria saber categorizar esse negócio. Aí fiquei condenado a ficar procurando o que ele já havia feito. Comprei O livro das ignorãças (Record, 1993) e quando abri o livro, o primeiro verso era:
 
“Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
 
a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca […]”
 
O impacto que isso me causou foi grande. Virei um leitor assíduo de Manoel de Barros, lendo, procurando os livros dele, citando frases, trechos de poemas. Em 2005, quase dez anos depois, a Kátia Adler, irmã desse meu amigo que me deu o livro, conversando comigo na praia, sugeriu-me fazermos um filme sobre o Manoel de Barros. Ela tinha publicado, dois antes, uma tradução d’ O livro das ignorãças em edição bilíngüe [La Parole sans Limites. Une Didactique de lInvention. Tradução e apresentação Celso Libânio. Ilustração Cicero Dias. Paris: Éditions Jangada], e eu tinha feito a orelha do livro, ela sabia desse meu envolvimento com o Manoel do Barros.

Em setembro daquele ano, eu tinha um festival para participar, na verdade um evento que abriu pela primeira vez uma mostra paralela de cinema, lá em Corumbá. Falei pra Kátia que estava indo para lá, no mesmo estado onde o Manoel mora, Mato Grosso do Sul. Corumbá ainda é longe de Campo Grande, onde ele mora, então rachamos a passagem de avião e começamos uma pesquisa. E essa pesquisa, essa entrevista feita lá naquele momento é – curiosa e ironicamente – a espinha dorsal do material final do filme. Porque eu não fui lá para fazer um filme, mas a pesquisa, fui com uma câmera pequena, onde fiz umas imagens de Corumbá. E, depois de toda aquela saga que está narrada no filme, quando o Manoel falou “então traz a tua traquitana aí”, era essa câmera que eu tinha na mão. E ali, ele não falou para o filme. Eu disse a ele, “Manoel, isso aí eu quero usar para saber como é que você fala, como pesquisa, não sei se isso vai servir para o resultado final”. E ele me advertiu várias vezes, “porque você quer a minha cara? Usa a minha obra, eu sou um cara sem graça”. Aquela história toda, que todo mundo conhece, que ele faz muito isso. Ele não tinha a percepção de como a presença dele, além de ser agradável e brilhante, pode ser artística também. Ele acabou sendo um excelente ator.

Isso aí foi um pontapé do cacete, porque quando essa entrevista rolou, a gente não tinha nada ainda, inscrição na lei, orçamento, nada. Isso foi em setembro de 2005. Começamos o processo burocrático de colocar o projeto na lei de incentivo, no edital da Petrobras. Em julho, saiu o resultado do edital da Petrobras, e o Só dez por cento é mentira é o primeiro projeto a sair em todas as listas. Então começamos, enfim, a fazer mesmo o filme. E só no ano passado consegui dar um ponto final, a tempo de exibi-lo no Festival do Rio. Estipulei esse prazo, porque senão o filme iria virar uma obra de igreja, até agora eu estaria futricando nele.

MAS VOCÊ CHEGOU A ACHAR QUE O FILME PODERIA ESTAR PERDIDO? 
 
Pedro Cezar.
Isso não, porque eu tinha uma entrevista muito boa com o Manoel de Barros, ele falando sobre assuntos que, nas entrevistas por escrito, ele discorre brilhantemente, mas, como ele próprio diz, a palavra oral não dá rascunho. Ele não gosta de falar, odeia ter a voz registrada por máquina. Mas, curiosamente, achei que tinha um conteúdo muito bom, e sabia que isso aí era uma espécie de reserva moral e de conteúdo do trabalho. Ao mesmo tempo, a poesia dele é muito imagética, sensorial, você fica imaginando quando lê a poesia dele, não pensa em tramas, nada disso. Dá para fazer um filme sobre o Manoel de Barros superdiscursivo, com ele falando, comigo falando, outros depoentes falando. Procurei um equilíbrio entre discurso e cena, e isso foi muito demorado.

É DIFÍCIL COLOCAR ESSE PONTO FINAL, DIZER "AGORA FOI”?

Pedro Cezar. É difícil mesmo, muito difícil. Muita gente participou desse projeto, e até creditei no final, como Núcleo de Soluções e Concepção, as pessoas que falaram coisas, iluminaram esse projeto durante a montagem, que pacientemente nos ajudaram. O George [Moura], roteirista do Linha de passe [de Walter Salles e Daniela Thomas], nos ajudou bastante. Do primeiro ao nono corte – o filme teve onze cortes – eu ouvi cada esculacho. E foi ótimo, para saber o que não fazer. A Kátia, por exemplo, fez uma avaliação muito bacana: “Você tem um filme até aqui que está muito legal. De repente, você estragou o filme a partir desse momento”. E consegui visualizar exatamente o que ela tinha dito. Teve uma coisa que foi unânime, que todos me falaram “tira isso”. Entrevistei leitores de Manoel de Barros, e não tinha uma estética padrão. Falaram-me que parecia que eu estava fazendo jornalismo dentro de uma obra cinematográfica. Isso foi bom, esse núcleo foi fundamental para iluminar alguns caminhos. A palavra autoria, para cinema, não combina, não. No cinema, por mais enxuta que seja a equipe com a qual você trabalha, tem que ter uma comissão de gente que você admira, para ouvir e conversar a respeito. Teve alguém que falou: “Eu gosto mesmo é de ver o Manoel, o resto, para mim, é penduricalho. Quanto mais Manoel tiver, melhor”. Esse processo de montagem, além das filmagens extras, me deixou tão preocupado. Será que vou conseguir fazer isso? Aí de vez em quando precisava parar, fazer outras coisas para ganhar um dinheiro, pagar as contas.

PODERIA FALAR SOBRE O PROCESSO DESSES CORTES? O QUE MUDOU ENTRE A PRIMEIRA E A ÚLTIMA VERSÃO
Pedro Cezar. O filme inicialmente teria os depoentes, uma narrativa cronológica contrapondo os desacontecimentos da vida do Manoel e os grandes acontecimentos da comunicação. Então eu falava da fotografia, no início, e o filme ia todo sendo pontuado por várias outras invenções ao longo do século XX, como o detector de mentiras, por exemplo, isso em contraponto ao desacontecimento da vida do Manoel. Só que, quando esse filme estava montado, ficou exibido, palavroso, discursivo, não ficou legal. Ficou parecendo mais um tratado do que um filme. E aí a idéia era ter quatro pessoas inventadas, dando depoimentos também. Preenchendo coisas que eu gostaria de falar, mas escrevia e colocava na boca das pessoas. Fizemos testes para essas pessoas, uma com um perfil mais biográfico, outra, uma dona-de-casa que usa frases do Manoel. Teria ainda o cara dos objetos, e uma quarta pessoa, um jovem.

No teste, apareceu tanta coisa, tanta gente do meio teatral, e como era difícil encontrar essa pessoa. O que faz o papel dos objetos foi a última pessoa a ser testada. É incrível. Tinha um monte de gente que vinha fazer e batia na trave. Na hora que ligava a câmera, a pessoa ficava empostada, mais travada, a atitude mudava. Gente boa, que você vê aí nos filmes. Aí veio o Paulo Giannini, a câmera estava ligada, começamos a conversar, daqui a pouco eu estava vendo o personagem conversar comigo. E, curiosamente, ele tinha rodado o Brasil inteiro fazendo um monólogo chamado Homem de Barros, com a obra do Manoel. E aí, quando ele começou a falar, eu pensei “chegou o cara”. Ele, para mim, rouba a cena do filme. E aqueles objetos que ele apresenta foram confeccionados por um artista plástico, o Marimba. E o texto dessas obras nasceu um pouco da minha cabeça, bastante da cabeça do Marimba e muito do Paulo Giannini também. Esse processo me interessa muito: querer dizer alguma coisa, encontrar a pessoa que tem afinidade com isso, ensaiar para esse negócio funcionar, e depois filmar isso. Isso daí é muito legal de fazer, só que é cada vez mais difícil e raro. Tempo, grana, esquema, as coisas estão andando de um jeito que é difícil.

Sobre o tempo, se tivesse que entregar o filme em 2007, ele não seria esse filme. Agora, claro, tem que ter um prazo final, senão vira obra de igreja. Mas a possibilidade de estender esse tempo foi fundamental para o filme. Gosto pra caramba dele, estou muito a fim de cuidar desse filho, de lançá-lo. Mas meu interesse agora em fazer alguma coisa audiovisual passa muito por dar um mergulho em processos narrativos, ficar uma coisa mais visual e menos discursiva. 

ACHA QUE FOI MUITO DISCURSIVO NESSE FILME?

Pedro Cezar. Não, mas essa obra não pode ser totalmente visual. Ela precisa da palavra. Quero muito descobrir uma história para contar, ser mobilizado por uma história que seja totalmente inventada. Que não precise ser a obra de Fábio Gouveia, a obra de Manoel de Barros.

E QUAL A SENSAÇÃO DEPOIS QUE O FILME ESTÁ PRONTO? SENTIU AQUELE VAZIO?

Pedro Cezar. Senti e tenho sentido. E esse vazio, diariamente tenho que segurar a minha onda para responder a seguinte pergunta: “O que estou fazendo da minha vida?”. Isso é a maior babaquice do mundo, mas essa pergunta é recorrente. Se eu estiver pegando mais onda, essa pergunta nem aparece. Nem aparece. Porque aí tenho certeza que estou vivendo, que estou fazendo uma coisa interessante com a minha vida, com o meu corpo, com as minhas sensações, não tenho dúvida. Agora, se eu estiver andando pelo Jardim Botânico, pagando tributos, ou pensando qual vai ser o próximo projeto, agora que esse está praticamente concluído, cacete…

Do ponto de vista conceitual, estou de cabeça feita. Fiz dois filmes sobre duas pessoas que tenho muito inveja, que eu gostaria de ser. Gostaria muito de pegar uma onda como o Fábio Gouveia, gostaria muito de ter escrito qualquer coisa que o Manoel de Barros escreveu, sabe? E fazer um filme sobre pessoas que você gostaria de ser, para mim, é uma forma de celebração muito nobre. Eu só sei fazer assim, acho que o melhor de mim aparece celebrando. Não sou um cara da investigação, da polêmica. Não faria um documentário sobre a fome, posso fazer um documentário de como as pessoas da Nova Holanda [favela carioca, situada na Zona Norte, próximo a Ramos e Bonsucesso] não deixam ninguém ter fome. Sei do mutirão que tem lá, onde as pessoas se juntam, saem recolhendo de quem tem na Nova Holanda para dar para quem não tem, e dizer “aqui ninguém passa fome”. Então eu sou o cara que celebra, não sou o que investiga. Para mim, o mundo está cada vez melhor. Sei que posso ser linchado por isso, sou um otimista brutal.

O melhor de mim aparece muito mais na celebração do que na denúncia. Não sou um cara da denúncia. O comportamento queixoso não é uma coisa que eu goste. Gosto de outra coisa. O que me move é alguém ultrapassando o lugar comum. Por isso que acho Manoel de Barros do caralho. Ele está o tempo inteiro querendo sair do lugar comum, invertendo. “Nossa maçã come Eva.” Olha essa frase. “Ontem choveu no futuro.” É pra esse tipo de coisa que quero prestar atenção. E acho muito importante que tenha gente denunciando o índice de analfabetismo, essas coisas todas. Tem gente que sabe fazer isso. Não é o que me interessa.

O MANOEL DE BARROS CHEGOU A VER O FILME?

Pedro Cezar. Levei lá para Campo Grande um projetor, projetamos na parede da casa dele, ligamos a entrada auxiliar do som em um aparelho que ele tinha e não usava há muito tempo. Ele viu duas vezes seguidas, com a mulher dele. Para ele, ver o filme significou também entrar em contato, pela primeira vez, com a imagem do filho que ele perdeu, o João. E depois ele falou uma coisa superbonita. Ele agradeceu e disse que eu tinha que ter consciência de que isso era uma obra de arte.

> Assista à dois trechos de Só dez por cento é mentira, onde o poeta fala sobre seus leitores e sobre o seu Pantanal

 
 
 

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