Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 14.07.2010 14.07.2010

Veronica Stigger e suas estranhas e pequenas histórias

Por Bruno Dorigatti
Foto de Walter Craveiro

Eles têm graves falhas de caráter, não respeitam filas nem idosos e vão pagar caro por isso. Nos breves contos da gaúcha Verônica Stigger, o que salta aos olhos, mais que o absurdo e certa surrealidade, é a forma natural como eles se resolvem, mesmo que envolvam violência, cortes abruptos, fim precoces e um tanto melancólicos. Em outra conversa com a escritora, quando do lançamento de seu segundo livro de contos, Gran Cabaret Demenzial(Cosac Naify, 2007), a escritora comentou a respeito: “Acho que é o estranhamento que eu mais persigo nos meus textos. Mas estranhamento num sentido particular: algo se torna estranho, em primeiro lugar, porque se acha deslocado do contexto em que deveria estar e, em segundo, porque este deslocamento, este estranhamento, é tratado com naturalidade pelo narrador e pelos personagens”. 

Nos contos daquele cabaré demente, um casal de namorados sai de carro pela cidade em alta velocidade enquanto seus membros são mutilados no caminho por postes, motos e árvores em “Domitila”; outro casal se muda constantemente para espaços menores até terminar no reto de um amigo em “Cubículo”; o papa é engolido por uma privada em “Sheila e Miguelão”. 

Agora em seu terceiro livro, Os anões (Cosac Naify), o estranhamento persiste, mas dá vazão a mais experimentações entre os gêneros, com “textos que tomam a forma de uma palestra, de uma legenda, de um anúncio publicitário, de uma peça teatral, se fingem de poemas, de classificados, de roteiros cinematográficos, de depoimentos etc.” afirma Veronica na conversa abaixo sobre a sua escrita. A frase que abre este texto remete ao conto que nomeia o livro e trata de um casal de anões que se dá mal, muito mal. Anão também é o livro, com 16 cm de altura, 60 páginas em papel cartonado e todo preto, mais um dos personagens. Além deles, temos um momento nada trivial em um teleférico, um casal que se muda para um apartamento maior, outro que, enfastiado, se joga da sacada, mãe e filha brincando de construir uma cabana no parque. E microcontos, que mais se parecem com anúncios de classificados, pensatas, protohistórias que fazem com que o leitor as continue, tal a sua brevidade. “Uma lufada inesperada de ar que golpeia o rosto do leitor e o deixa sem saber o que, afinal, acaba de acontecer”, arrisca a escritora, que também lança seu primeiro livro infantil, Dora e sol (Ed. 34). 

Verônica também estuda teoria da arte, nomes como Duchamp, Mondrian, Malevitch, Maria Martins, Flávio de Carvalho. Os dois últimos inclusive aparecem em Os anões, nomeando anúncios de um apartamento no Flamengo (Maria) e uma faca (Flávio). “Sempre me interessei por escritores e artistas que correm um tanto à margem da narrativa tradicional da história da literatura e/ou da arte”, diz Veronica. À margem também corre ela, com suas historietas que subvertem a lógica, a paz e a tranquilidade do enfado de cada dia. Confira a entrevista com a escritora gaúcha radicada em São Paulo.  

 

O que muda e o que permanece em relação a Os anões e os seus livros anteriores, Gran Cabaret Demenzial e O trágico e outras comédias (7Letras, 2004)?

Veronica Stigger. Creio que o que há em comum entre os livros é a experimentação com os gêneros. Gosto de experimentar gêneros diferentes, de desrespeitar propositalmente os limites dos gêneros. Não acredito na estabilidade da forma literária, fixada em gêneros bem definidos, como o conto, o poema, a novela, o romance. Em O trágico e outras comédias, já há uma tentativa de jogar com as formas literárias em contos curtos como “Fim” e “No corredor”. O próprio título do livro indica uma brincadeira com os gêneros trágico e cômico. Em Gran Cabaret Demenzial, a variação dos gêneros se torna mais explícita. Ali, reuni textos que tomam a forma de uma palestra, de uma legenda, de um anúncio publicitário, de uma peça teatral etc. Em Os anões, busquei levar ainda mais adiante esta tendência à experimentação – e agora não mais restrita à experimentação com os gêneros literários. Somei ao trabalho com gêneros diversos (aqui os textos se fingem de poemas, de classificados, de roteiros cinematográficos, de depoimentos etc.) a escolha por formas curtas, em alguns casos tão curtas e tão rápidas que me parecem funcionar como uma lufada inesperada de ar que golpeia o rosto do leitor e o deixa sem saber o que, afinal, acaba de acontecer. 

Os pequenos contos de Os anões vêm embalados em um projeto gráfico caprichado, que busca dialogar com a secura, a brevidade e o estranhamento das histórias, pré-histórias, anúncios, roteiros. Como chegou a ele?

Stigger. A idéia do projeto gráfico era reiterar o caráter anão do livro. Foi de meu marido, Eduardo Sterzi, a sugestão de usar papel cartonado, o que daria uma forma mais atarracada ao livro. Repassei essa sugestão à editora, que a aceitou de pronto. A realização do projeto gráfico ficou por conta da Maria Carolina Sampaio. No fim, o livro se tornou ele próprio mais um dos anões a que o título faz referência; não deixa de ser, portanto, mais um dos personagens. 

A estreia na prosa infantil, com Dora e o sol, como se deu?

Stigger. Recebi um convite do Fabricio Corsaletti, escritor e editor da 34, para escrever um livro infantil. O livro faria parte de uma coleção de livros para crianças e adolescentes feitos por jovens escritores. Mesmo sem nunca ter escrito para crianças, topei o desafio. 

O que é preciso levar em conta ao escrever para os pequenos? O que muda em relação às histórias para não-crianças?

Stigger. O que muda principalmente é a linguagem. Uma vez que me propus escrever para crianças pequenas, a linguagem teria que ser necessariamente simples, clara e direta: nada de rodeios e de muitas orações subordinadas. Afora isso, como sabia que o livro seria ilustrado, me abstive de informar no texto o que estaria dado pela imagem. Por exemplo, não era preciso escrever que Dora era uma cadela vira-lata, porque a ilustração deixaria isso muito bem claro. 

Você estuda teoria da arte, nomes como Duchamp, Mondrian, Malevitch. Como estes estudos transbordam em sua literatura? Qual a importância que têm em sua ficção? 

Stigger. Em Os anões, creio que se pode perceber a infiltração das minhas pesquisas na área da teoria e crítica da arte na constituição mesma do livro. Uma das seções se chama “Histórias da arte” e nela encontram-se, além de referências a poetas de que gosto muito, menções a dois dos artistas que estudei em meu pós-doutorado, Maria Martins e Flávio de Carvalho. Creio ainda que, para o leitor atento, é visível o recurso a procedimentos caros à prática da arte contemporânea, como, por exemplo, a apropriação, o deslocamento do contexto original, o transbordamento dos limites (até mesmo, no caso, dos limites da literatura), entre outros. 

Você também se debruçou sobre a obra de Maria Martins e Flávio Carvalho, artistas tão singulares como desconhecidos no Brasil. Como chegou a eles e como eles chegam aos seus contos?

Stigger. Sempre me interessei por escritores e artistas que correm um tanto à margem da narrativa tradicional da história da literatura e/ou da arte. É o caso de Maria Martins e Flávio de Carvalho. Para mim, os dois são figuras deslocadas do Modernismo brasileiro, principalmente Maria Martins. Maria fez toda sua formação artística fora do Brasil e foi nos Estados Unidos e na Europa que ela realizou suas primeiras exposições.

Isso significa que ela teve muito mais contato e, portanto, muito mais diálogo – com artistas estrangeiros. Seus pares (e também admiradores) foram André Breton, Marcel Duchamp, Amedée Ozenfant, Benjamin Péret entre outros. Flávio de Carvalho, por sua vez, que cursou escola e faculdade fora do país, possui uma obra que não se deixa enquadrar dentro deste ou daquele grupo ou movimento, especialmente se pensarmos em suas experiências, que eram já performances antes mesmo de existir essa designação. Foi isso e mais a força de seus trabalhos (nunca vou esquecer a primeira vez que vi ao vivo a Série trágica, de Flávio de Carvalho, logo que cheguei a São Paulo) que me chamou a atenção nesses dois artistas e que me levou a estudá-los. E tanto um quanto o outro acabaram homenageados em Os anões, com textos que levam seus nomes, dentro da parte que denominei “Histórias da arte”.

Você escreveu sobre os livros de Maria, na recém-lançada reunião de seu trabalho editada pela Cosac Naify, onde comenta a sensação de deslocamento, seja nas esculturas, seja nas obras. Poderia comentar um pouco sobre este deslocamento? O que lhe chama a atenção na obra dela?

Stigger. Creio que esta sensação de deslocamento que identifico tanto nas esculturas quanto nos escritos de Maria Martins tem relação com o que comentei acima: ela viveu muito tempo fora do Brasil e foi no exterior que fez sua formação e suas primeiras exposições. Quando estava no exterior, não deixou de olhar para sua terra natal: muitos de seus trabalhos fazem referência à cultura brasileira. De lá, ela olhava para cá. Quando retornou ao Brasil, suas esculturas não foram bem recebidas de um modo geral. Era o ano de 1950, e a forma artística considerada avançada por críticos respeitados como Mário Pedrosa era a abstração geométrica. Iniciava-se uma tendência, a qual logo se consolidaria, que bania a representação figurativa. Maria chegava ao Brasil, portanto, na contracorrente das pesquisas que vinham sendo desenvolvidas aqui. Não é de estranhar que, na crítica à última exposição individual que ela realizou no país, Mário Pedrosa tenha demonstrado toda sua incapacidade de compreender uma proposta tão diversa e tão original quanto a dela (para Pedrosa, Maria Martins sofria de um “defeito capital”: “excesso de personalidade”!…). Ou seja, se no exterior ela poderia se sentir deslocada por não estar em sua terra, em seu próprio país ela acabou se tornando igualmente um corpo estranho. 

E o que distingue neste olhar “de fora para dentro do país” que suas esculturas e sua escrita sugerem?

Stigger. Na verdade, esse olhar de fora para dentro do país está mais associado às suas esculturas. Como já disse, grande parte de suas obras foi realizada fora do Brasil, e era de lá que ela olhava para cá. Aliás, o título de uma de suas esculturas deixa clara a sua posição em relação à terra natal: Não te esqueças que venho dos trópicos. Quando Maria Martins retorna ao Brasil, passa a produzir menos esculturas e se dedica a escrever seus três livros. Agora, o tema não é mais o Brasil. Dois de seus livros são sobre culturas estrangeiras: O planeta Chinae Brama, Gandhi, Nehru; e o terceiro sobre o filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Ou seja, é como se o olhar se invertesse: de dentro do Brasil, ela passasse a olhar para fora. No entanto, mesmo quando está falando da vida e dos costumes chineses e indianos, ela parece ter sempre em mente um paralelo com a vida e os costumes brasileiros.

 

> Leia o conto "Os anões", que nomeia o novo livro

"Os anões"

Ele tinha a altura de um pigmeu, e ela batia na cintura dele. Os dois eram tão pequenos que mal alcançavam o alto da bancada dos doces. Ela dava saltinhos para tentar ver o que a confeitaria tinha de bom. Ele, mais circunspecto, espichava o pescoço, apontava o nariz para cima e aspirava fundo ? como se pudesse, pelo olfato, identificar as guloseimas que o olhar não divisava. Os dois até que faziam um conjunto bonitinho. Não eram deformados, nem tinham aquele aspecto doentio característico de alguns anões. Pareciam tão-somente ter sido projetados em escala reduzida. Poderíamos sentir compaixão ou mesmo simpatia por eles, se não fossem tão evidentes suas graves falhas de caráter.

Não era a primeira vez que os víamos, e ? pior ? não era a primeira vez que os víamos tentando furar a fila. O casal se aproveitava da baixa estatura para, sem-vergonhamente, passar na frente das outras pessoas que esperavam por atendimento. Foi assim, outro dia, na farmácia. Os dois entraram no estabelecimento e foram direto para a boca do balcão, ignorando todos os que aguardavam pacientemente. Só não brigamos com eles porque não foi preciso. O balconista, desatento como sempre, não os percebeu e ? bem feito! ? nos atendeu primeiro.

Contudo, naquele outro dia, na confeitaria, a balconista não só os viu como, solícita como de costume, ofereceu um banquinho para que eles pudessem subir e enxergar os doces por cima da bancada. E não é que os petulantes aceitaram a gentileza dela e ainda tiveram o desplante de ficar indagando de que era feito cada um dos infindáveis docinhos? Nós, que até então aguentávamos quietos o comportamento acintoso daqueles dois, começamos a reclamar. Vai demorar muito?, gritei do final da fila. Nós não temos o dia todo para ficar esperando, meu marido acrescentou. E eles nem pestanejavam. Continuavam em cima do banquinho a perguntar sobre os doces e a pedir provinhas. Não deu um minuto e a senhora que estava na nossa frente berrou também: é pra hoje? Seu Aristides, que levava a neta pequena pela mão e se achava logo depois dos anões, ajuntou: escolham logo, seus imbecis! A mulher de cerca de 30 anos, que estava atrás de nós, arrematou: é, andem logo, seus moloides! Mas o casal, nem-te-ligo. Ele se lambuzava de provinhas de doces, e ela ainda limpava a meleca açucarada que se depositara nos cantos de sua boca minúscula com um guardanapo xadrez todo dobradinho.

A senhora à nossa frente comentou comigo que cruzara com o casalzinho outro dia no supermercado. Eles estavam com mais de 20 produtos nas mãos, e nas mãos mesmo, me disse ela, porque eles não usavam carrinho ou cesto. Acho que eles não alcançam nos carrinhos, e os cestos arrastariam no chão, supôs, pensativa, quase condescendente. Mas, exclamou em seguida, queriam passar pelo caixa para até dez itens! A moça do caixa ficou meio sem jeito de dizer para os dois que eles não podiam estar ali e começou a registrar os produtos, continuou a senhora, mas uma mulher grávida que estava na fila se enfureceu e chamou o gerente. E eles ficaram bem assim, sem falar nada, fez ela apontando para os dois com a cabeça. Eles são bem estranhos, né?

E lá estavam eles, mudos novamente. Seu Aristides, impaciente, elevou a voz: andem logo, seus merdas! É, acrescentou a senhora, vamos logo! E eu emendei: vocês deviam respeitar os mais velhos, pelo menos! Foi aí que a pequeninha se virou e me olhou. A boca minúscula ainda estava suja de doce. Ela piscou, passeou a língua pelos lábios e continuou a me olhar por cima do ombro, como se, até então, não tivesse percebido que estávamos todos ali, esperando. Que foi?, perguntei a ela. Tá olhando o quê?, falei ainda. E ela só piscava, impávida. Qual é a tua?, continuei, indo até ela. É, qual é a tua?, repetiu seu Aristides. Nisso, cheguei bem junto da biscazinha e a puxei com força pelo braço. Sua idiota!, disse. Ela estava em cima do banquinho. Com a minha puxada, desequilibrou-se e caiu no chão, de cabeça. Meu marido, que vinha logo atrás de mim, deu um empurrão no homenzinho, que parecia querer socorrer a esposa. Ele também se desequilibrou e caiu do banquinho. Ao se levantar, fez menção de revidar, e meu marido acertou-lhe um joelhaço no meio do rosto. O narizinho começou a sangrar. Seu Aristides veio correndo e deu outro joelhaço no rosto daquele tipinho, enquanto a neta de seu Aristides chutava-lhe a canela. O sujeitinho caiu no chão de novo, ao lado da mulher. A senhora que estava na fila passou a dar bengaladas nas cabeças e nas costas do casalzinho. Eu chutava, com muita vontade, a barriga da mulherzinha caída. Minha perna doía, mas eu continuava a chutar, sempre no mesmo ponto. A mulher de cerca de 30 anos se ajoelhou ao lado do casalzinho, pegou o homenzinho pelo pescoço e começou a bater com a cabeça dele no chão, várias vezes, até abrir uma fenda na parte de trás. Uma gosma espessa verde-amarronzada saía de dentro de sua cabeça e melava o chão. Nesse meio tempo, a senhora que estava na fila se concentrou apenas na mulherzinha: ela levantava a bengala e a baixava com força em seu rosto ensanguentado. Meu marido pulava em cima das pernas do homenzinho, enquanto seu Aristides chutava seu tronco. E a neta de seu Aristides, imitando meu marido, pulava sobre a barriga da mulherzinha.

A balconista, que até então estava quieta ? acho que em respeito a nós, que éramos clientes assíduos da confeitaria ?, interveio. Gente, disse ela, dá para parar com isso que a dona Sílvia vem chegando, estou vendo ela dobrar a esquina. Eu já estava cansada mesmo e parei de chutar o que já se tornara uma massa quase informe, vermelha. Arfando, fui lentamente me dirigindo à saída. Ao me ver sair meio cambaleante, meu marido também parou de pular e veio atrás de mim. A mulher de 30 anos, com a respiração também alterada pelo esforço, se sentou encostada à parede e pôs na testa as duas mãos com as quais batera com a cabeça do sujeitinho contra o chão. Ele estava transformado numa espécie de pasta de carne e sangue, com pequenos fragmentos de ossos desarranjando a uniformidade da mistura. A aparência de sua mulherzinha não era muito diversa. A senhora ainda deu uma última bengalada no que tinha sido um rosto, ajeitou o vestido, se apoiou na bengala e saiu. Seu Aristides, exausto de tanto chutar o homenzinho, parou e fez sua neta também parar. Vamos, querida, deixa isso aí e vamos embora, disse ele para a neta, enquanto a pegava pela mão. Já do outro lado da calçada, olhei para trás para cumprimentar dona Sílvia, que entrava na confeitaria, e vi a balconista, com um grande rodo, empurrando para um canto toda aquela sujeira.

 > Confira o primeiro livro de Veronica Stigger, O trágico e outras comédias (7 Letras, 2004) 

> Leia mais contos da escritora

 

 

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