Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 10.11.2011 10.11.2011

Vencedor do Prêmio Jabuti de 2010, Edney Silvestre fala de seu segundo romance, ‘A Felicidade é Fácil’

Por André Bernardo
Na foto, o escritor Edney Silvestre
A estreia do jornalista Edney Silvestre como romancista, há dois anos, não poderia ter sido mais promissora. Com Se Eu Fechar os Olhos Agora, lançado em 2009, ele arrebatou dois dos mais importantes prêmios literários do país: o São Paulo de Literatura, na categoria Autor Estreante, e o Jabuti de Melhor Romance. Mesmo assim, assegura, não teve medo da famosa “maldição do segundo romance”. “Não me senti amedrontado coisíssima nenhuma. Muito pelo contrário. Já comecei a escrever o terceiro e o quarto livros”, adianta.
Em seu novo romance, A Felicidade é Fácil, Edney resgata um dos períodos mais conturbados da história recente do Brasil: o confisco do dinheiro da poupança de milhões de brasileiros durante o governo Fernando Collor de Mello, em 1990. Segundo ele, o plano econômico anunciado pela então ministra Zélia Cardoso de Mello deu início a uma das maiores diásporas de todos os tempos. “Com o dinheiro confiscado, o que as pessoas podiam fazer? Uns tentaram arranjar emprego no exterior. Outros, após perderem tudo o que tinham, cometeram suicídio”, relata.
Mal acabou de lançar o segundo romance e Edney já está debruçado sobre o terceiro. Nele, promete retomar alguns dos personagens de A Felicidade é Fácil. Antes disso, porém, cogita lançar um livro de contos. “Provavelmente daqui a dois anos”, especula. Paralelamente à carreira literária, Edney Silvestre continua a se dedicar ao jornalismo. Ex-correspondente internacional entre 1991 e 2002, já perseguiu furacões em Honduras, cobriu conflitos no Iraque e tornou-se o primeiro jornalista brasileiro a chegar ao World Trade Center, em Nova Iorque, no dia 11 de Setembro de 2001.
Hoje em dia, produz reportagens para os telejornais da TV Globo e apresenta o programa “Espaço Aberto Literatura”, da Globonews. Desde que o programa estreou, em 2003, já entrevistou alguns dos maiores nomes da literatura brasileira e internacional. Só de Nobel, foram quatro: o português José Saramago, o turco Ohran Pamuk, o peruano Mário Vargas Llosa e a sul-africana Nadine Gordimer. Dos brasileiros, diz que não desiste do mineiro Rubem Fonseca e do mato-grossense Manoel de Barros.
O que o motivou a escrever um romance sobre um dos momentos mais conturbados da história recente do Brasil?
Edney.Não me lembro de outras obras de ficção ambientadas neste período. Há ficção sobre os anos 60, sobre o governo Vargas, mas não há absolutamente nada sobre esse período, que destruiu a vida de milhões de brasileiros. A minha, por exemplo, foi profundamente sacudida. Foi um dos períodos de maior diáspora na história deste país. As pessoas não tinham trabalho. As pessoas não tinham dinheiro. O que elas podiam fazer? Viajaram para outros países. Quem podia foi embora. Muitos ilegalmente. E muitos deles não conseguiram voltar.
 
De que maneira o confisco do dinheiro da poupança atingiu você?
Edney.Para mim, foi infernal. Nesta época, eu trabalhava como “free-lancer” para a Editora Abril. Já vinha recebendo convites para trabalhar nos EUA. Resolvi aceitar um deles. Logo, eu me tornei correspondente.
Você partiu de personagens ou situações reais para escrever A Felicidade É Fácil?
Edney.Sim. Parti do sequestro equivocado de uma criança em São Paulo, no início dos anos 90. Uma história que, aliás, nunca foi solucionada. No meu livro, tudo transcorre, tal e qual na história real, em menos de 24 horas. Em menos de 24 horas, eles mataram o menino e jogaram o corpo dele numa represa. Essa é a história real desse menino, que era filho, não de caseiros, mas de empregados de uma mansão.
 
Você está lançando o segundo romance, já tem um Jabuti na coleção e apresenta um programa de literatura na TV. Afinal, o que vem a ser literatura para você? E qual a importância dela na sua vida?
Edney.Recentemente, estávamos, Ana Maria Machado e eu, em um coquetel sobre literatura na residência do embaixador brasileiro em Belgrado. Durante o discurso de agradecimento da Ana Maria, eu me emocionei muito porque me lembrei da minha avó. Pensei: "Gente, eu só estou aqui na casa do embaixador, que é uma das mais bonitas de Belgrado, por causa de uma mulher, lavradora e analfabeta”. Ela saiu do interior de Minas Gerais e foi para Valença, no município do Rio, em busca de uma vida melhor para os filhos. Então, quando acontece de eu entrevistar um José Saramago, por exemplo, sempre me emociono. Por que se não fosse aquela mulher sair de lá do interior de Minas Gerais para tentar a sorte no Rio de Janeiro, eu nunca estaria ali. Então, literatura, para mim, é a dona Maria, é a emoção de saber ler e escrever e saber que isso, hoje em dia, é o meu ganha-pão. A emoção é sempre muito grande.
 
Quais foram os escritores que ajudaram na sua formação?
Edney. Bem, Thomas Mann é um deles. Li Thomas Mann quando tinha 13 anos. Naquela época, eu não sabia que havia divisão entre alta literatura e baixa literatura. Nessa época, lia Tarzan, Thomas Mann, Jack London… Eu frequentava muito a biblioteca municipal de Valença. Foi lá que eu li, pela primeira vez, O Grande Gatsby. Peguei, li e pensei: “Caramba!”. Na escola, lia Machado de Assis, José de Alencar, autores que eu adoro até hoje. Na época, minha professora de Português sugeriu que eu lesse o melhor livro já escrito em Língua Portuguesa: Vidas Secas. Claro que eu já tinha ouvido falar em Graciliano Ramos, mas não tinha ideia do livro que ele escreveu, um livro, em minha opinião, revolucionário e moderno até hoje. Sinto que, na minha obra, há uma busca pela brasilidade, a exemplo do que acontecia na de Graciliano Ramos. É o que me parece. Mas não sei se os especialistas em Graciliano Ramos vão querer me esbofetear por estar dizendo isso… (risos)
 
No “Espaço Aberto Literatura”, da Globonews, você já entrevistou alguns dos maiores nomes da literatura nacional e internacional. Quem falta ainda entrevistar no programa?
Edney. Ah, muita gente… Principalmente porque ele é um programa internacional. O primeiro nome que eu citaria é o de Rubem Fonseca. Meu Deus, como eu gostaria de ter o Rubem Fonseca falando sobre a obra dele no meu programa… Gostaria muito de mostrar para o público o que pensa, como escreve, e assim por diante. Adoraria entrevistá-lo. Já tentamos algumas vezes. O Manoel de Barros também. O Manoel de Barros parece ser menos avesso que o Rubem Fonseca, mas também é complicado. Ele apenas diz: “Sim, talvez”. Mas nunca agenda. Já o Rubem nem se manifesta.
 
José Saramago teria sido a sua entrevista favorita?
 
Edney. Ah, tenho um carinho muito grande por ele. Primeiro porque o Saramago é o nosso Nobel, o Nobel da Língua Portuguesa. Ele foi extremamente carinhoso comigo e a vida dele me comove. Toda vez que eu leio o discurso dele sobre o Nobel, fico com os olhos cheios d’água: “O homem mais sábio que eu conheci não sabia ler e escrever…”. Isso é lindo! E ele tinha uma simplicidade comovente. Quando soube que ganhou o Nobel, a primeira coisa que pensou foi: “Sim, ganhei o Nobel. E daí? O universo continua girando e eu continuo a ser apenas um ponto neste universo”. Não que ele não tenha gostado do prêmio. Gostou, mas o prêmio não mudou o universo. Achei bacana a visão dele.
 
E, para você, o que representou ganhar o Jabuti?
Edney. O primeiro prêmio que eu ganhei não foi o Jabuti, mas, sim, uma crítica do Manuel da Costa Pinto, que fez toda a diferença. A gente tem que lembrar que, até então, eu era apenas um jornalista de televisão que cometeu um romance. Então, as primeiras críticas vieram de jornalistas que não leram sequer o romance. Aí, chegou o Manuel e publicou uma crítica estupenda sobre o livro. A partir dali, mudou totalmente a postura da crítica em relação ao meu trabalho. É como se os críticos pensassem: “Puxa, se o Manuel escreveu aquilo, então, vamos pelo menos ler o que ele tem a dizer”. Esse foi o primeiro prêmio que recebi. Depois, vieram o São Paulo de Literatura e o Jabuti, que foram totalmente inesperados. Quando anunciaram o meu nome, sentado eu estava, sentado eu fiquei. “Xi, ganhei, que bacana!”, pensei comigo mesmo. Custei a acreditar que o vencedor era eu! (risos) Bem, para um autor como eu, em início de carreira, o prêmio faz total diferença. É como se fosse um aval de qualidade.
 
Mas ganhar o Jabuti logo em seu romance de estreia é uma benção ou maldição? Quero dizer: amedronta ou estimula a escrever mais e melhor?
 
Edney. Quando ganhei esses prêmios, eu já tinha começado a escrever o segundo e terceiro livros. Há pouco, percebi que os personagens continuam circulando por aí. No novo romance, A Felicidade É Fácil, volta apenas um deles, que é o Antônio, o irmão do Paulo, que já era um psicótico quando adolescente e que ficou muito pior com a idade adulta. Já o terceiro livro começa, pelo menos por enquanto, com o exílio do Paulo na Suécia. Então, o fato de eu ter ganhado um prêmio só foi bom, não me amedrontou em coisíssima alguma. Os personagens estão aí. O que eu tenho que fazer é apenas colocá-los no papel. Preciso só de tempo.
 
A felicidade pode não ser fácil, mas, pelo menos, é possível?
Edney. Olha, dá um trabalho… (risos) Até pouco tempo, aqui no Brasil, eu achei que era impossível. Eu pensava: “Como você pode ser feliz diante de tanta miséria e iniquidade?” Mas acho que dá para ser feliz, sim, se você compartimentalizar a sua vida. Quando recebi o anúncio de que eu era um dos finalistas do Prêmio São Paulo, por exemplo, meu irmão já estava no hospital. Foi um dia antes de ele morrer. Até liguei para ele, mas não consegui falar. Ele estava muito fraco. Tive a felicidade do prêmio. Mas, por outro lado, tive a infelicidade de perdê-lo. O que eu posso fazer? Dedicar o livro à memória dele. É intermitente. Assim é a felicidade. Intermitente.
 
 
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