Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 18.01.2012 18.01.2012

Vapor e fantasia: José Roberto Vieira fala sobre a literatura steam

Por Míriam Castro
Vieira diz que seu livro é o primeiro no estilo steam fantasy no Brasil
 
Casta social de guerreiros, os bnei shoah são militares com grandes habilidades, o que os diferencia dos ggoym – as outras pessoas.
 
Sehn Hadjakkis, um bnei shoah, prometeu à sua amada, Maya Hawthorn, que voltaria para casar-se com ela após dois anos servindo o exército.
 
Porém, um acontecimento inesperado faz com que o garoto tenha que decidir entre voltar para seu amor de infância ou lutar contra um poderoso inimigo.
 
Os bnei shoah não existem na Terra, mas em Nordara, mundo construído por José Roberto Vieira para ambientar o enredo de O Baronato de Shoah: A Canção do Silêncio, lançado em 2011 pela Editora Draco.
 
O segundo volume, A Máquina do Mundo, já está em produção e também seguirá a estética de A Canção do Silêncio: engrenagens, vapor e roupas com inspirações vitorianas.
 
De acordo com o autor, é o primeiro romance de steam fantasy feito por um brasileiro. Ao SaraivaConteúdo, o criador da série contou mais sobre literatura fantástica, steampunk e a vida de escritor no país.
 
Quando tempo você demorou para escrever o primeiro livro de O Baronato de Shoah?
 
José Roberto Vieira. Até eu decidir fazer um livro, passou bastante tempo. Durante a faculdade, fazia poemas para minha namorada de vez em quando. Um dia, ela pediu que eu escrevesse novos versos, mas só consegui escrever em prosa. Na época, estava lendo a série A Torre Negra, de Stephen King. O trabalho resultou em dois contos de fantasia com elementos vitorianos. Percebemos que tudo se encaixava e resolvi investir meu tempo para desenvolver a história. Terminei os manuscritos em apenas três meses.
 
Para você, o que define a literatura fantástica?
 
José Roberto Vieira. Principalmente, a presença de elementos que não podem ser explicados pela mente humana. De uma maneira bem generalizada, isso está presente em todos os contos fantásticos, mas de maneira diferente para cada autor. Quem define isso bem é o autor francês Tzvetan Todorov, que tem um livro focado apenas nisso [Introdução à Literatura Fantástica].
 
O Baronato de Shoah pode ser chamado de literatura fantástica, steampunk ou ambos?
 
José Roberto Vieira. Eu chamo o que eu faço de steam fantasy, porque o ambiente do livro, de maneira fantástica, é uma reinvenção do período vitoriano, com supertecnologia a vapor. Estão presentes seres mitológicos, principalmente da cultura europeia. Ao mesmo tempo, todos os veículos, como barcos voadores, tanques e carros são puramente steam, assim como algumas armas. Em O Baronato de Shoah, uma das armas utilizadas é mistura de espada e serra elétrica a vapor.
 
O steampunk só existe na literatura?
 
José Roberto Vieira. Não. O conceito surgiu na literatura, mas pode ser aplicado a diversas mídias. Por ser muito mais visual, o steampunk pode aparecer em cinema, arquitetura, quadrinhos e até na moda. Quem trabalha com steam usa elementos comuns para o leitor, mas com a estética naquele estilo. Você pode ter trens, barcos, mas ao mesmo tempo tudo funciona com grandes caldeiras.
 
Na cultura pop, o que já pode ser considerado steampunk?
 
José Roberto Vieira. Desenhos japoneses, como Fullmetal Alchemist e Sakura Wars, têm boa parte de suas características no steampunk. Filmes como A Liga Extraordinária [baseado nos quadrinhos de Alan Moore] e As Loucas Aventuras de James West também são influenciados pelo estilo. Atualmente, está rolando uma discussão entre os fãs de steampunk sobre um clipe do cantor Justin Bieber que apresenta elementos do tipo. Isso quer dizer que o steampunk está consolidando sua popularização.
 
Essa popularização não pode esgotar o gênero?
 
José Roberto Vieira. Eu acredito que não tem como, porque o steampunk se reinventa demais. Os elementos vitorianos podem ser somados a diversas outras características. 
 
Quais foram as principais influências na hora de compor o Baronato?
 
José Roberto Vieira. Sou muito influenciado por outras obras com elementos steampunk ou não. Uma delas é a série A Casta dos Metabarões [de Alejandro Jodorowsky e Juan Gimenez]. Outro trabalho importante é a coleção das crônicas Dragonlance [de Tracy Hickman e Margaret Weis]. Nos games, a série Final Fantasy exerceu muita influência, principalmente as edições VI e IX. Stephen King foi um dos principais incentivos para a criação deste novo universo.
 
 
Como é o público leitor brasileiro para um autor de literatura fantástica?
 
José Roberto Vieira. Os leitores que conhecem as histórias e gostam dos trabalhos são fiéis. Mas o Brasil tem falta de público leitor em todos os gêneros, tornando difícil viver apenas como escritor. Ainda mais com a literatura fantástica, que ainda tem um mercado fraco no Brasil. Dá para contar nos dedos de uma mão os autores que vendem em grandes quantidades. Porém, a situação tem melhorado nos últimos anos.
 
O que mudou?
 
José Roberto Vieira. Além de editoras como a Draco, focadas em autores brasileiros do gênero, as grandes empresas também passaram a publicar literatura fantástica. A Verus Editora, do Grupo Record, é um exemplo disso. Atualmente, vemos livros de fantasia atingirem o topo das vendas, como a série Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin. Esses volumes podem ser vistos no metrô, sendo lidos por pessoas que não aparentam ser conhecedoras de literatura fantástica. Isso é muito bom, já que indica uma popularização.
 
 
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