Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 25.10.2010 25.10.2010

Vanguart, um novo jeito de se fazer música

Por Bruno Dorigatti e Bruno Duarte
Foto de Tomás Rangel

Filhos de uma boa safra musical da cena independente do Mato Grosso, a banda Vanguart firmou seu nome entre os expoentes do novo rock nacional. Com influências que vão do folk rock britânico aos ritmos latinos e regionalismos brasileiros, a banda é exemplo de sucesso do casamento entre uma estratégia de fomento do cenário cultural local e do uso inteligente das ferramentas da internet para divulgação do trabalho coletivo em escala global. A banda que hoje é referência no circuito independente começou como um projeto solo do músico Hélio Flanders, que produziu dois EPs com canções gravadas em sua casa – as gravações já indicavam as bases do estilo musical do que viria a se transformar no grupo com sua formação atual.

“O Vanguart era um projeto de voz e violão onde eu gravei dois CDs caseiros bem lo-fi, depois de uma viagem que fiz pra Bolívia eu voltei e recrutei  meus melhores amigos e que tocavam melhor – porque alguns eram amigos, mas não tocavam muito bem (risos) – aí eles compraram a ideia e viramos essa família, já tem cinco anos que a gente está viajando junto”, diz Hélio sobre os melhores amigos e companheiros de estrada David Dafre (guitarra e voz), Reginaldo Lincoln (baixo e voz), Luiz Lazarotto (teclados) e Douglas Godoy (bateria).

> Assista à entrevista exclusiva com a banda Vanguart ao SaraivaConteúdo

O Vanguart se desenvolveu em meio a um trabalho de base criado em Cuiabá para o fortalecimento da cena musical alternativa, o Espaço Cubo. O projeto, criado em 2001, se voltou para o fomento do mercado cultural local e buscou ter uma base autossustentável que garantisse a continuidade da inciativa por um longo tempo – funcionou. O movimento conta com uma extensa lista de colaboradores e é encabeçado por Pablo Capilé e Lenissa Lenza, juntos eles administram uma rede de frentes de trabalho voltadas à profissionalização de músicos, produtores e do próprio mercado musical do estado. Um dos grandes expoentes do projeto é o Festival Calango, que começou reunindo apenas bandas do Mato Grosso e ao longo de sete anos de existência, com seis edições, faz a ponte entre os artistas do estado e as diversas cadeias de produção independentes brasileiras. Hoje o festival abriga vários estilos que não só o rock, como o carimbó, maracatu, MPB, jazz e rap, além de ter se estabelecido como mais um polo de constante produção cultural, abrindo o leque de atuação para outras manifestações artísticas como artes plásticas, cênicas, moda e a nova produção audiovisual matogrossense. 

Além de oferecer a estrutura para gravação, apresentações, divulgação e, principalmente, por se constituir  um espaço de interação entre a galera que gostaria de formar uma banda e tinha talento e potencial para isso, tudo em um esquema de cooperação, o Espaço Cubo marcava Cuiabá no mapa do circuito de shows de bandas como Forgotten Boys, Autoramas e Dance of days. “O Vanguart acabou aproveitando que o pessoal do Espaço Cubo estava trazendo umas bandas que eram referência, pra começar a tocar para um público maior e abrir show dessas bandas que iam pra lá”, conta Douglas Godoy. “Essas bandas eram as que estavam acontecendo há cinco anos no cenário independente que já dilatou. Hoje você vê por regiões, naquela época era um cenariozão nacional,  Cuiabá foi inserida nesse cenário. A cidade está fervendo. A gente vai pra lá e nem conhece as bandas direito, porque sempre tem bandas novas, acho que nós e o Macaco Bong mostramos que dá pra sair de Cuiabá e não tem nada de errado nisso, podemos mostrar em São Paulo e no Rio que existe música boa no Centro-oeste, no Mato Grosso mesmo, e diferente. Eu acho que pelo menos essas duas bandas mostram que são bem diferentes do que se está fazendo e se é diferente já está valendo”, completa Hélio.

No final de 2006, a banda grava o repertório do disco de estreia e, em 2007, parte em direção a São Paulo. Intitulado Vanguart, o disco “”trilíngue”” sai encartado na revista Outracoisa e traz as canções “Semáforo”,  “Cachaça”, “Antes que eu me esqueça”, a hipânica “Los chicos de ayer” – um ode a América do Sul – e sete das quatorze músicas em inglês, como “Hey yo silver” e “The last time I saw you”. Rodando o circuito de festivais brasileiros e se apresentando nos espaços alternativos paulistas e cariocas, a banda se popularizou mesmo na internet. “Hoje você monta uma banda, numa cidade do interior, fora das grandes capitais, você tem pelo menos uma referência que seja na internet, que seja no bar ali da sua cidade, de como começar. Acho que esses trabalhos foram começados, você já consegue imaginar a sua banda em determinado lugar. Que seja um festival independente ou a Globo, depende das suas ambições. Hoje você consegue ver um lugar pra isso. Se você vai conseguir entrar, se vai ser bom, se vai continuar lá pra sempre eu não sei, mas pelo menos você já tem esse lugar pra ir. Hoje a gente tem bandas maravilhosas que você nunca vai ver ao vivo, que estão lá no interior de Roraima, mas que o Myspace está lá e é maravilhoso”. No meio digital e no circuito alternativo, o Vanguart fez nome e fama, teve clipes exibidos na MTV e concorreu aos badalados prêmios VMB e Multishow, ao lado de artistas inseridos no grande circuito comercial, uma prova de que quando a qualidade encontra caminhos que viabilizem a sua distribuição, certamente será reconhecida pelo público e pela grande mídia.

Para além do Folk, o Vanguart guarda influências da música latina, uma das sonoridades preferidas do vocalista da banda – que já passou um tempo na Bolívia – é a música Argentina. Além do gosto pelo som hermano, os ritmos nacionais são marcantes na mistura que dá o tom do grupo. No segundo disco do Vanguart, o projeto ao vivo Multishow Registro, de 2008, traz uma versão rock para a música “O mar”, de Dorival Caymmi. Hélio fala um pouco das influências presentes no trabalho da banda matogrossense. “Hoje, eu acho que aquela música mais legal é a música que é boa. Sem a pretensão de falar que ‘ah, eu gosto de música boa’, não, é uma música que é rica, que tem influência de todos os lugares e isso você acaba vendo nos grandes artistas. Dorival Caymmi, se ele fosse se apegar a um estilo ele não seria o Dorival Caymmi. Então a gente acaba ouvindo muita coisa. Eu gosto muito de música argentina, dos artistas uruguaios, e o que vai vir a gente não sabe, muitas vezes essas influências não estão diretas ali, são pequenas nuances, nas letras, num silêncio no meio da música, então eu acho que a gente está se formando como artista de maneira muito diversa e, logicamente, isso só pode dar uma coisa mais diversa ainda”.

Quando perguntados sobre o que estão ouvindo as respontas apontam para diversos estilos, de E.M.I.C.I.D.A e Racionais ao trabalho do compositor baiano Oscar da Penha, o Batatinha, a unanimidade é: bandas independentes como PúblicaPorcas Borboletas e Charme Chulo. De amigos ou não. Entre toda a diversidade de estilo fica fácil para jovens artistas com o talento que a banda já provou ter, compor, arranjar e gravar. O problema surge na hora de escolher que canções entram ou não num próximo trabalho, que os rapazes não tem pressa para lançar. Enquanto isso, os fãs se deleitam com novidades nos show, ou não. A responsabilidade é grande. Não tocar uma das preferidas do público fiel, que cantava todas junto com a banda no show que fizeram no dia 10 de setembro no Oi Futuro Ipanema, é um risco que eles correm no percurso.

“É bem diferente de fazer os arranjos só com a gente e depois fazer no palco. Sempre sai alguma coisa diferente. Rola um imprevisto e acaba mudando a música e a gente acaba formatando a música pra isso. No primeiro CD foi mais fácil porque a gente estava ensaiando num estúdio em casa e fazendo barulho pra vizinhança toda ouvir e rodando bastante, tocando mesmo as músicas, sem a preocupação de lançar, a gente testou bastante as músicas. Sempre funcionou com a gente, amadurecer as músicas novas no palco. E na hora que a gente vai gravar ela já parece um pouco velha. Ela já ta bem gasta. O problema é não querer gravar mais”, comentam todos os integrantes que antes estiveram até um pouco calados durante a entrevista. Além de tudo o que o Vanguart tem a dizer no palco e em suas canções, a trajetória da banda é mais um exemplo dos novos rumos possíveis para a produção músical brasileira.

> Assista à entrevista exclusiva com a banda Vanguart para o SaraivaConteúdo

Recomendamos para você