Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 29.09.2014 29.09.2014

‘Valis’, de Philip K. Dick, é relançado com quadrinhos de Robert Crumb

Por Carolina Cunha
Alguns livros se tornam clássicos porque fogem da curva e são diferentes de tudo o que um autor já fez. Para os fãs do escritor norte-americano Philip K. Dick, essa obra seria Valis. Escrito em 1978, o título tem a fama de ser o romance mais estranho do mestre da ficção científica e ganha uma nova edição no Brasil, com direito a ilustrações do quadrinista Robert Crumb.
Reverenciado nos EUA, mas ainda pouco conhecido por aqui, K. Dick (1928-1982) foi autor de 36 romances de ficção científica, e várias de suas obras tornaram-se famosas ao serem roteirizadas para o cinema, como Blade Runner, Minority Report, O Pagamento e O Homem Duplo.
Para Silvio Alexandre, especialista em literatura fantástica, organizador do Fantasticon e membro da comissão do HQ Mix, Valis dá um passo além das obras anteriores do escritor. “Sem nenhum constrangimento, esse romance apaga a própria distinção entre ficção literária e autobiografia. Ele chocou os leitores mais conservadores ao mesmo tempo em que arrancou suspiros do pessoal pós-moderno. Pegou de surpresa tanto os fãs de ficção científica quanto o establishment literário”.
Classificado como “romance policial teológico”, Valis conta a história de Horselover Fat, um sujeito paranoico e depressivo que tem uma estranha revelação divina e sente que está vivendo simultaneamente em duas épocas. O livro mostra pontos de vista múltiplos com três narradores – o próprio K. Dick, o protagonista e um narrador anônimo.
Mas o deslocamento não para por aí. O personagem é também o alter ego de K. Dick, com relatos biográficos que proporcionam um mergulho em sua mente inquieta. Tudo temperado com digressões filosóficas, humor e referências da cultura pop dos anos 1970 na Califórnia (EUA).
“Em Valis, alienígenas de três olhos, a projeção da consciência de volta ao Império Romano e mensagens de uma entidade cósmica saíram diretamente das vivências de Dick e são apresentados sem disfarce dentro da essência da literatura fantástica: uma experiência ou acontecimento que rompe com a ordem cotidiana e cria uma impossibilidade de decidir sobre o que é ou não real”, diz Alexandre.
A editora Aleph republica o livro em uma edição exclusiva no mundo, com um extra para os fãs: o cultuado quadrinho A Experiência Religiosa de Philip K. Dick, criado em 1986 por Robert Crumb. Nele, o quadrinista norte-americano narra com muita psicodelia a experiência mística vivida por K. Dick e que deu origem a Valis. O episódio é conhecido pelos nerds como o “Apocalipse de Valis” ou “a sequência 2-3-74”.
Em março de 1974, o autor passou por uma situação que mudou sua vida. Na época, ele havia extraído o siso e pediu um remédio na farmácia. Uma moça veio entregar o pedido em sua casa e, ao abrir a porta, ele viu um pingente em forma de peixe no colar da mulher. Era o símbolo das comunidades cristãs primitivas.
Quando o sol bateu na joia, Dick teve uma alucinação. Foi surpreendido por um raio de luz cor de rosa e por uma sequência de formas geométricas abstratas que se moviam rapidamente. Logo ele se viu como um cristão do século I perseguido pelo Império Romano.
Acreditava que algo estava transferindo informações para ele em velocidades surpreendentes, como um flash de memórias recuperadas, um “déjà vu”. Em segundos, entendeu que o universo estava conectado em diferentes realidades paralelas. “Aquilo me tomou completamente, suspendendo as limitações da matriz espaço-tempo”, relata Dick.
O cultuado quadrinho A Experiência Religiosa de Philip K. Dick, criado em 1986 por Robert Crumb
Os acontecimentos insólitos continuaram nos dias seguintes. K. Dick adquiriu a habilidade de ler e escrever em grego e latim, idiomas que até então não dominava. Ele também escutou uma voz dizendo que o seu filho mais novo, Christopher, sofreria de uma hérnia inguinal, o que foi confirmado depois por um médico.
Baseado nas visões que teve, o escritor criou o conceito de V.A.L.I.S. (Vast Active Living Intelligence System – “Amplo Sistema Vivo de Inteligência”), que deu nome ao livro de 1978. “Valis é uma tentativa ambiciosa de reunir em uma única obra suas visões sobre o Universo e a natureza das religiões. Pode-se mesmo dizer que não é ficção científica no sentido literal do termo, mas sim um tratado teológico. A procura por Deus é pontuada por experiências sobrenaturais que PKD alegou ter vivido no decorrer de sua vida”, comenta Alexandre.
Muitos interpretam o evento como se fosse indício de uma doença mental de Dick. Ao longo dos anos, ele buscou explicações para o fenômeno até ficar obcecado pelo assunto, sem jamais chegar a uma conclusão definitiva.
Estava convencido de que tivera uma epifania mística, de que havia encontrado Deus ou algo parecido com uma inteligência artificial alienígena superior.
Suas teorias também se tornaram um combustível para seus fãs, que criaram as mais diversas interpretações: abdução por ETs, surto psicótico, a origem do conceito Matrix (do filme dos irmãos Wachowski) ou uma metáfora para a Internet, onde tudo estaria conectado.
K. Dick escreveu sobre o conceito como uma espécie de mente universal. “VALIS é uma construção. Um artefato. Está ancorado aqui na Terra, literalmente ancorado. Mas como o espaço e o tempo não existem para ele, VALIS pode estar em qualquer parte e em qualquer tempo que quiser. (…) É uma voz neutra. Nem masculina nem feminina. Sim, parece de uma inteligência artificial”.
O escritor sempre questionou o que seria a realidade. Nesse romance, nada é o que parece ser mais uma vez. “Na complexa e dialética visão de Dick, o simulacro não é apenas o que nos isola do real, envolvendo-nos com uma pseudorrealidade fictícia, mas também a única via de acesso à verdade, através de um percurso intrincado, labiríntico e não raro dolorido”, explica Sílvio Alexandre.
A experiência marcaria para sempre K. Dick e, depois dela, sua obra se distanciaria dos tradicionais temas de ficção científica para uma busca mais metafísica pelo sentido da vida. Em um diálogo (imaginário?) com Deus, ele lamenta: “É meu castigo que eu tente descobrir se era você em março de 1974”.
O livro mais estranho do escritor de ficção científica ganha nova edião no Brasil com um extra: a HQ que fala como ele encontrou uma inteligência superior
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