Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 22.11.2012 22.11.2012

Uma revelação da literatura portuguesa

Por Priscila Roque
 
Sentado em um café no coração de São Paulo, o jovem escritor português Nuno Camarneiro recebeu a equipe do SaraivaConteúdo para uma entrevista. Com trinta e poucos anos, ele lança seu primeiro romance no País, No Meu Peito Não Cabem Pássaros , dentro da coleção “Novíssimos”, da Editora LeYa.
Assim como sua obra, outros quatro títulos foram escolhidos para atravessar o oceano dentro dessa seleção que privilegia os destaques da literatura lusitana. Até o final do Ano de Portugal no Brasil, em junho do próximo ano, mais cinco autores também vão estrear por aqui.
O friozinho que acometeu a capital paulista em meio à primavera brasileira deu um ar bem europeu ao bate-papo. Engenheiro físico por formação, Nuno ainda exerce sua atividade de licenciatura. Porém, foi em uma experiência na Suíça que descobriu seu talento para a escrita, em meados dos anos 2000.
Por sentir falta de interagir com a língua portuguesa em Genebra, sem Internet ou televisão, e com pouco domínio do francês, ele encontrou em um caderno uma maneira de entender e ser entendido. Assim, resgatou o gosto pela literatura que traz desde a infância e passou a escrever contos, poemas e micronarrativas, compartilhadas posteriormente em seu blog, que mantém até hoje, intitulado “Acordar um Dia”.
Porém, até a publicação de seu primeiro livro, o caminho foi árduo. Munido de diversos contos que havia escrito, buscou uma editora portuguesa. O gênero, pouco valorizado no país, não rendeu um contrato, mas sim um desafio: produzir um romance.
Em No Meu Peito Não Cabem Pássaros, Nuno se inspirou em três figuras da literatura que admira muito: uma personagem de Kafka, Fernando Pessoa e Jorge Luís Borges. Após estudar as biografias de cada um, imaginou histórias que pudessem ter sido vividas por eles no ano de 1910, quando um cometa passou pela Terra e assustou pessoas no mundo todo.
Em meio a aulas e pesquisas nas universidades do Porto e de Aveiro, publica pequenos textos em revistas e já se prepara para o lançamento de mais um livro. No currículo, editoras europeias interessadas em traduzir sua obra para o alemão, o francês e o italiano e a certeza de que a literatura não é apenas um hobby.
 
Com uma carreira tão consistente na engenharia física, quando você pensou que realmente seria a hora de publicar um livro relacionado à literatura?
Nuno Camarneiro. Essas coisas vão crescendo… Comecei a gostar muito de escrever contos. Então, passei a preparar uma compilação deles, que apresentei a uma editora. Ela gostou muito, e é até a minha editora atual, Maria do Rosário Pedreira. Porém, me disse que, em Portugal, não existe um mercado de contos. Conto não vende, é difícil de publicar, ainda mais para um primeiro livro. Ninguém me conhecia. Ela me desafiou, então, a escrever um romance. Inicialmente, achei impossível. Um romance seria muito grande e eu não saberia escrever. Mas a ideia ficou, foi ficando, ficando… Então, pensei: “Bem, eu posso tentar fazer um romance a partir de contos”. Arranjei uma estrutura que me permitisse fazer muitos pequenos contos, narrativas de duas páginas, mas que fosse também um romance. Foi um pouco isso que tentei fazer no meu livro.
Como você chegou aos nomes que protagonizam o seu livro – Fernando Pessoa, Jorge Luís Borges e uma personagem de Kafka?
Nuno Camarneiro. Eu li Kafka muito cedo, quando tinha 12 ou 13 anos. Na altura, não percebi nada, mas ficou em mim. Era como um vírus, que você apanha e mais tarde vai se revelar. Foi isso que aconteceu, o vírus da literatura entrou em mim. O mesmo com Borges e Pessoa. Eles são autores que, quando você lê pela primeira vez, fica deslumbrado e não sabe muito bem o que é aquilo. É preciso muito tempo para começar a entender e para saber o que é. Esses foram autores muito importantes no processo de me tornar um escritor. Por isso é que fui chamá-los para o meu primeiro livro.
Há algum recorte de obras desses autores em seu romance?
Nuno Camarneiro. Diretamente, não. Há só um jogo que eu fiz. Conta-se que Fernando Pessoa escreveu todos os poemas de O Guardador de Rebanhos em uma única noite. Peguei todos esses textos, retirei deles duas palavras ou meio verso e fiz um novo poema. Esse foi o único que coloquei no livro como se fosse o Pessoa a escrevê-lo.
O que você ouviu de mais surpreendente sobre esse primeiro trabalho?
Nuno Camarneiro. Eu tinha um pouco de receio que o livro fosse difícil ou demasiado intelectual por vir muito da literatura. Mas a verdade é que tenho ido muito a escolas e ouço jovens com 15 ou 16 anos, que leram o livro, dizerem que ali estão emoções que eles sentem também por não estarem adaptados ao mundo, desse desacerto com os outros e a dificuldade de se comunicar. De fato, esse é um dos temas centrais do livro. Tanto Pessoa como Borges ou Kafka tinham problemas de relacionamento. Então, descobri que os adolescentes interagem muito bem com isso e se veem retratados no livro.
 
No Meu Peito Não Cabem Pássaros faz parte da coleção “Novíssimos”, da Editora LeYa
Qual foi a sua reação com essa recepção tão positiva do mercado português?
Nuno Camarneiro. Eu faço investigação na área da química, dou aulas em um curso de ciências aplicadas ao restauro em uma universidade e continuo a escrever. Normalmente, as noites são para a escrita. Fiquei muito contente com a recepção porque o livro foi lido, as pessoas se interessaram e acharam que era algo novo, algo diferente. Isso é tudo o que um novo autor pode querer. Sentir que sua voz é nova e é única. Portanto, nesse aspecto, foi perfeito e me deu forças para continuar. Agora, no início do próximo ano, já vou lançar o segundo livro.
Já tem algo dessa obra que você possa adiantar?
Nuno Camarneiro. Por enquanto, preferia não falar muito. Ele é diferente, passado nos nossos dias. Esse é um livro que já não está tanto no universo literário, está mais no nosso universo real.
Você nasceu em Figueira da Foz e, atualmente, vive entre o Porto e Aveiro. Há algo dessas raízes que respingam em seu texto?
Nuno Camarneiro. Figueira da Foz é uma cidade de praia. Saí de lá aos 18 anos, fui para Coimbra estudar, depois andei pela Suíça e Itália. Agora, vivo em Aveiro, que é perto de Figueira da Foz, são 50 km. Portanto, por um lado tem a minha família, sou muito ligado a ela, e por outro é a questão do mar. Tenho uma relação com o mar muito íntima, me faz muito bem estar perto dele. Aveiro também fica junto ao mar. É como se a minha casa fosse o mar, sinto muito isso. Os meus livros sempre têm muito mar e vento. Quando também estou em uma cidade sem vento, parece que falta algo…
Nesse pouco tempo que você está no País, já viu algo relacionado à literatura brasileira que te interessou?
Nuno Camarneiro. Estou muito atento à literatura brasileira. Uma coisa que já estava querendo comprar e agora tive a oportunidade foi a Granta, com os novos autores brasileiros. Vou poder descobrir os vossos que ainda não conheço. Isso me interessa muito.
 
 
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