Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 30.07.2010 30.07.2010

Uma noite em 67, reflexões sobre o tempo


   Por Ramon Mello
   Fotos de Wilson Santos/CPDoc JB

O documentário Uma noite em 67, de Renato Terra eRicardo Calil, faz um recorte afetivo sobre a Era dos Festivais. O filme édesdobramento da monografia de conclusão do curso de Comunicação de RenatoTerra, em 2003. Ao se encontrar com o jornalista Calil, que foi seu chefe noiBest, Terra encontrou a parceria necessária para compartilhar a ideia deretratar um período emblemático na história da música popular brasileira: anoite de encerramento do Festival da Record de 1967.

“”O projeto inicial era fazerum documentário sobre a Era dos Festivais. Foi nessa sala onde apresentamos aideia para o João Moreira Salles, já com o propósito de fazer o filme a partirdo Festival de 67. Acho que foi isso que conquistou ele, que falou uma frasefamosa entre os documentaristas: ‘Se você quer fazer um documentário sobreCorreios faça um documentário sobre uma carta’. A intenção era fazer um filme apartir do Festival de 67, mas que falasse da Era dos Festivais. Partimos paraas entrevistas com isso na cabeça. Nunca quisemos esgotar o assunto da Era dosFestivais. Desde a ideia de fazer o filme até o lançamento são sete anos…””,afirma Terra, codiretor do filme que recebeu o apoio da Videofilmes,disponibilizando a equipe que participou dos documentários de Eduardo Coutinho.

“1967 é considerado entrecríticos, de forma unânime, o festival musicalmente mais rico. As quatroprimeira colocadas são grandes clássicos da música que sobreviveram muito bemao tempo. É um ponto de inflexão na música brasileira, o momento em que Gil e Caetano trazemelementos  de fora para a música popularbrasileira, representada pela guitarra elétrica. Existe um embate fundamentalda música brasileira, essa tensão entre tradição e modernidade”, defende Calil.

Entre os 12 finalistas dofestival, Chico Buarque e o MPB4 vinham com “Roda viva”; Caetano Veloso, com“Alegria, alegria”’; Gilberto Gil e os Mutantes, com “Domingo no parque”; EduLobo, com “Ponteio”; Roberto Carlos, com o samba “Maria, carnaval e cinzas”; eSérgio Ricardo, com “Beto bom de bola”. As quatro músicas que dominaram acompetição foram “Ponteio”, “Domingo no parque”, “Roda viva” e “Alegria, alegria”.  Os músicos, hoje ícones da MPB, participam dofilme com histórias emocionadas sobre o encontro, entre aplausos, vaias e guitarras estridentes, como o raro depoimentode Roberto Carlos.

“”Foi Zuza Homem de Mello,consultor do filme, que conseguiu o acesso ao Roberto Carlos. Zuza é um grandehistoriador da Era dos Festivais, é crítico musical respeitadíssimo e umapessoa muito querida, muita gente tem um carinho enorme por ele””, dizRenato Terra.

Além de depoimentos das estrelas do festival, os diretores conseguiram imagensinéditas dos bastidores do Teatro Paramount, em São Paulo, onde osjornalistas Randal Juliano e Cidinha Campos, hoje deputada, roubam a cena comentrevistas hilárias. Com a montagem de Jordana Berg, privilegiando o diálogode depoimentos atuais e imagens de arquivo, a dupla ouviu pessoas queparticiparam diretamente do festival, entre eles o jornalista (e jurado) SérgioCabral e o diretor da Record Paulinho Machado de Carvalho.

“”Se tivéssemos que ir peloesquema tradicional, comprar minutos de arquivo, seria um filme muito caro.Nunca fizemos as contas, mas talvez 40% do filme sejam de imagens de arquivo. Éum tesouro da música brasileira, tentamos aproveitar ao máximo. Sempre que agente desanimava com o filme a gente olhava de novo as imagens de arquivo, seemocionava””, diz Ricardo Calil.

Machado de Carvalho dá umdepoimento polêmico, que faz entender melhor a atitude do músico Sérgio Ricardoao quebrar o violão e atirar na platéia, que vaiava ensandecida suainterpretação de “Beto bom de bola”:

“”Para o êxito domegaespetáculo era preciso escolher o mocinho, o bandido, a heroína…””

Mais do que um resgate sobre oselementos que transformaram aquela final de festival no clímax da produçãomusical dos anos 1960 no Brasil, o documentário Uma noite em 67 é uma sensível reflexão sobre o tempo. É assistir ese emocionar.


   Em sentido horário, começando no canto esquerdo: Roberto Carlos, Chico Buarque e o MPB 4, Gilberto Gil, Sérgio Ricardo e Edu Lobo

> Assista à entrevista exclusiva de Renato Terra e Ricardo Calil ao SaraivaConteúdo

> Confira algumas das apresentações do Festival de 1967






 

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