Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 16.01.2013 16.01.2013

Uma mulher limpa, uma mulher gorda: o humor na poesia de Angélica Freitas

Por Maria Fernanda Moraes
 
Quando perguntei a Angélica Freitas se o humor e a leveza que aparecem nos livros dela são também parte de sua personalidade, ela logo respondeu: “Eles afloram mais na minha escrita. Sou uma chata”. Dias depois, quando nos falamos novamente, ela quis refazer a entrevista. “Aquela primeira estava uma flor de rabugice”, me alertou, referindo-se a um átimo de TPM.
 
Nada poderia ilustrar melhor o humor ácido de seus poemas e a brincadeira que faz ao tratar do “feminino”, que é encarado com tanta seriedade pela maioria. “O drama é que, numa entrevista por escrito, se perde alguma careta que atenue uma afirmação do tipo ‘eu sou uma chata’.
 
No papel, uma chata é uma coisa que pode ficar antipática”, explicou Angélica. “Esses tempos, conversando com um amigo, ele me disse que achava as entrevistas de escritores muito chatas, todo mundo se levando muito a sério, falando como se estivessem produzindo grandes maravilhas.
 
Realmente, acho que há um excesso de informações sobre escritores por aí, e fico com um pouco de vergonha de falar de processo criativo, porque pode parecer que estou me achando, ou que estou muito segura do que faço”, ponderou.
 
A poetisa gaúcha acaba de lançar duas publicações: o livro de poemas Um Útero é do Tamanho de Um Punho, pela Editora Cosac Naify, e Guadalupe, um road movie em parceria com o quadrinista Odyr, pela Editora Companhia das Letras. As mulheres estão em primeiro plano nas duas obras, mas a escritora garante que não foi programado. “Talvez tenha acontecido porque escrevo a partir de inquietações”, disse ao SaraivaConteúdo.
 
Apesar de falar sobre a mulher, Angélica conta que Um Útero é do Tamanho de um Punho não é sobre o feminismo ou as lutas do feminismo. “Tive a sorte de conviver com um grupo de feministas quando morei na Argentina, há cinco anos. A partir de conversas com essas amigas, comecei a pensar mais no assunto. Depois, acompanhei uma amiga que foi fazer um aborto e quis escrever sobre essa experiência, que foi forte. Comecei a pesquisar textos sobre o corpo da mulher e cheguei a uma frase que ficou na minha cabeça: ‘Um útero é do tamanho de um punho fechado’. Dias depois, escrevi um poema de cinco páginas, que acabou dando o título ao livro.
 
Achei que dava para escrever um livro sobre mulheres, apesar de – e isso acho injusto – o tema soar chato e esgotado. Queria ver aonde conseguiria chegar com isso. Fiz um projeto para o programa Petrobras Cultural. Foi aprovado. Depois, escrevi o restante do livro, em um ano e meio, mais ou menos”.
 
Na entrevista abaixo, mesclada com momentos de ‘flor de rabugice’ e ‘espasmos de seriedade’, conheça um pouco mais da poetisa:
 
Como e quando surgiu seu interesse por poesia? Você se lembra do primeiro poema que escreveu? 
 
Angélica. Comecei a escrever poemas aos 9 anos, depois de ter ganhado de uma tia uma enciclopédia, O Mundo da Criança. Um dos tomos era de poesia. Gostei tanto que comecei a escrever meus próprios versos. Se não me engano, meu primeiro poema foi sobre um jacaré. Mas não posso garantir. 
 
Entre o seu primeiro e segundo livros se passaram cinco anos. Qual é a principal diferença que você enxerga entre os dois?
Angélica. Olha, eu diria que, se o meu primeiro livro fosse um cacho de uvas, este seria uma pera Williams. A principal diferença é que o segundo livro foi um projeto, eu me propus a escrever poemas sobre mulheres. O primeiro livro foi um apanhado de poemas que escrevi entre 1998 e 2005. É difícil, para mim, constatar se a minha escrita mudou ao longo desses cinco anos. Talvez a grande mudança que percebo seja, na verdade, a descoberta de uma possibilidade de concentração de energia, de atenção, para realizar séries de poemas, em vez de poemas dispersos. 
 
Em Um Útero é do Tamanho de um Punho, você trata de um tema delicado, que muitas vezes não tem boa aceitação da sociedade. As feministas são muitas vezes estigmatizadas como pessoas mal-amadas, por exemplo. Você considera que o humor presente no livro altera essa recepção?
Angélica. Não. Acredito que não haja nada a fazer em relação a pessoas que consideram as feministas mal-amadas. Prefiro jogar mahjong a escrever para essas pessoas. Prefiro dormir.
 
Capa de Um Útero é do Tamanho de Um Punho
 
Num dos poemas do livro, você usa a “língua do I” (i piri qui, por exemplo). É intencional?
Angélica. Acho que esse poema tem vários tons, e um deles é meio infantilizado. Daí o uso da língua do I, que é uma coisa da minha infância.
 
Um dos capítulos é intitulado “3 poemas com o auxílio do Google”. Como surgiu essa ideia?
Angélica. Surgiu quando estava pesquisando textos sobre a mulher na Internet. Quis ver que tipo de resultados teria ao colocar frases simples como "a mulher vai", "a mulher pensa", "a mulher quer". E saiu de tudo… Frases de revistas femininas, mas também piadas, comentários machistas. Selecionei aquelas que me pareceram mais interessantes e dei uma ordem ao material. Já tinha usado o procedimento antes, mas esse resultado foi o mais surpreendente.
 
Você chegou a ter algum problema com o entendimento dos poemas do livro? Chegou a receber algum contato de algum (a) leitor (a) que por acaso não entendeu o tom dos poemas?
Angélica. Ainda não. Bom, já disseram que sou iconoclasta. Mas se eu sou iconoclasta, estamos mal de iconoclastas. Mas enfim, acho natural que muita gente não goste ou não entenda.
 
Qual é o seu poema preferido do livro e por quê?
Angélica. Não tenho um poema preferido. Provavelmente porque sou uma chata atômica. Ou talvez porque não queira me apegar a nenhum deles.
 
Em Guadalupe, seu outro lançamento em parceria com Odyr, aparecem muitas referências (elementos fantásticos, místicos, da cultura pop). São coisas presentes no seu mundo?
Angélica. Sim. Meu mundo é muito doido! Gosto muito dos quadrinhos dos irmãos Hernández, por isso pedi ao Odyr que desenhasse um pôster do Love&Rockets no quarto da Guadalupe. E outro da Patti Smith.
 
Você acha que a linguagem dos quadrinhos se aproxima da poesia?
Angélica. Bem, eu sinto um formigamento na mesma região do cérebro quando escrevo poemas e roteiros para quadrinhos. Ultimamente, meu bom senso tem me mandado parar de escrever “poesia” e me dedicar à permacultura e aos quadrinhos. E tem uma coisa muito certeira nos quadrinhos e na poesia de autores e autoras de que gosto.
 
A sua formação é em jornalismo e você chegou a trabalhar na área. Como foi a transição para a poesia?
Angélica. Sim, eu fiz jornalismo na UFRGS, lá em Porto Alegre. Nunca achei que fosse arranjar um emprego. Mas acabei indo trabalhar no Estadão. Bom, grande coisa. A transição foi tranquila, porque minha família me apoiou. Eu decidi me dedicar aos meus projetos, abracei a pobreza material, dei um abração nela. Não me arrependo.
 
Capa do livro Guadalupe
 
Você morou em vários países, como Argentina, Holanda, Bolívia, e passou por experiências em alguns lugares que inspiraram algumas obras (como a passagem pelo México, que inspirou Guadalupe). Em que medida isso influenciou sua escrita?
Angélica. Estar em outros lugares te faz perceber muitas coisas sobre o teu próprio lugar no mundo. Ou não. Enfim, sempre aprendo coisas novas quando viajo, e passo por situações que nunca ocorreriam na minha cidade. Por exemplo, a ideia de escrever Guadalupe surgiu numa viagem curta ao México. Um amigo me convidou para o enterro da avó, em Oaxaca. “Vai ser um enterro com música”, ele me disse, “alugamos uma van para ir até lá”. Não pude ir porque já tinha um compromisso. Mas fiquei com essa história na cabeça.
 
Depois de morar em outros países e outras capitais, como São Paulo, você retornou à sua cidade natal. Isso aconteceu por algum motivo especial?
Angélica. Geralmente volto a Pelotas quando não sei para onde ir. Numa dessas voltas, em 2010, acabei ficando por aqui. Mais por causa da minha família.
 
Como você avalia a recepção do público em relação à poesia hoje em dia?
Angélica. Sempre observo com curiosidade as pessoas que estão olhando a prateleira de poesia das livrarias. Será que elas escrevem poemas, também? Acredito que sim, em mais da metade dos casos.
 
Diversos críticos apontam que sua poesia se assemelha à da poeta portuguesa Adília Lopes. Você concorda? Quais são suas influências literárias?
Angélica. Acho a Adília um gênio, portanto, nunca sonharia em me comparar a ela. Muitas leituras foram importantes para mim, principalmente Bandeira, Ana Cristina César, Fernando Pessoa e seus heterônimos, quando eu era adolescente. Depois o Whitman, o Ginsberg, a Dorothy Parker também… Sempre li de tudo. Minha última leitura foi O Talentoso Ripley, da Patricia Highsmith. Adorei! Agora estou lendo umas peças da Yasmina Reza.
 
Você também se aventura nas traduções de poesia. Como funciona esse processo?
Angélica. Bom, nem dá pra chamar de processo. Eu olho pro poema, penso: “Hum, este aqui eu consigo” e me meto a traduzir.
 
Como é seu processo criativo? Você é dessas pessoas que têm um bloquinho sempre à mão?
Angélica. Cafezinho, caderninho… às vezes um cigarrinho. Sempre tenho caderno e caneta comigo. E um livro. Escrevo à mão, geralmente de manhã, tomando café.
 
Você manteve um blog por muito tempo. Como foi a experiência?
Angélica. Foi muito bom. Naquele tempo é que era bom, viu? 2005… As pessoas digitavam o endereço do blog no navegador… esperavam o blog carregar… liam os poemas… comentavam os poemas. Bons tempos que não voltam nunca mais! No blog, perdi um pouco da vergonha de mostrar os poemas, porque até então tinha muita.
 
Se você fosse indicar alguns autores de poesia para jovens que estão conhecendo os versos agora, quais seriam?
Angélica. Se pudesse, recomendaria o blog da Revista Modo de Usar & Co, que ajudo a editar (http://revistamododeusar.blogspot.com.br/). Tem bastante coisa lá. E também: ouçam Itamar Assumpção.
 
 
 
Recomendamos para você