Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 17.05.2010 17.05.2010

Uma longa conversa com Woody Allen

Por Bruno Dorigatti
Foto de Tomás Rangel


> Assista à entrevista exclusiva de Eric Lax ao SaraivaConteúdo


“Minha sensação objetiva é que não atingi nada de significativo artisticamente. Não digo isso com tristeza, apenas descrevo o que sinto como verdade. Sinto que não dei nenhuma real contribuição ao cinema. Em comparação com contemporâneos como o Scorcese, o Coppola ou o Spielberg, realmente não influenciei ninguém de forma significativa. […] Nunca tive um grande público, nunca fiz muito dinheiro, nunca tratei de temas controvertidos nem prestei atenção em nenhuma moda. Os meus filmes não estimularam a opinião do país em temas sociais, políticos ou intelectuais. São filmes modestos, feitos co orçamento modestos, que produzem lucros extremamente modestos e não abalam de forma alguma o mundo do show business. […] E eu não sou uma pessoa modesta demais. Quando sou bom, sei apreciar a mim mesmo.” 

Woody Allen pode não ser modesto demais, mas é o suficiente para avaliar seu próprio trabalho. Afinal, alguém que consegue realizar um filme por ano, religiosamente desde o início da carreira, com raríssimas exceções em 1970, 1974 e 1981 – compensadas quando dirigiu mais de um longa em 1972, 1987 e 1989 –, algum mérito há de ter. 

Se não deixou seguidores fiéis, influenciou as comédias românticas, desde Noivo neurótico, noiva nervosa (1977). Sem falar de seus mockumentaries, filmes fictícios que utilizam a linguagem documental, como seu primeiro longa como diretor, Um assaltante bem trapalhão (1969) e o clássico Zelig (1983), sátira de um homem que se adapta fisicamente as mais improváveis situações, de modo a parecer sempre integrado ao contexto. E ainda a junção de fantasia e realidade em A rosa púrpura do Cairo (1985), a homenagem aos filmes de suspense, como em Crimes e pecados (1989), Um misterioso assassinato em Manhattan (1993) e O escorpião de Jade (2001). E tem a sátira às celebridades, no filme homônimo de 1998. Ou ao recente Match Point – Ponto final (2005), que investiga a alma humana, e até onde ela pode ir sem culpa. E por aí vai. 

Allen, judeu e “piadista do Brooklin-Broadway que teve muita sorte”, como se auto-rotula, trata da sua Nova York natal, e mais especificamente da ilha de Manhattan, para reflitir sobre o mundo. E ainda que minimize sua importância, tem, sim, o seu lugar assegurado na história do cinema. 

Um livro lançado em 2008, e que ganhou recentemente sua terceira edição, ajuda a contextualizar esse vasto trabalho, que entre roteiro, direção e atuação ultrapassou 40 longas-metragens. O jornalista norte-americano Eric Lax começou em 1971 uma longa conversa com o diretor, por ora, sem prazo para acabar. Naquela época, Allen começava a ganhar destaque como comediante, havia escrito duas peças para a Broadway, publicava textos na New Yorker, elançado seus primeiros longas, Um assaltante bem trapalhão Bananas, este, uma visão cômica das revoluções latino-americanas da época. A primeira entrevista, que renderia uma matéria para aThe New York Times Magazine acabou não vigando, mas o papo entre os dois segue rendendo.

 

Conversas com Woody Allen (Cosac Naify) é um mergulho profundo na cabeça e nas idéias de Allen, e seu maior trunfo é não ser uma lembrança ou memória do cineasta em retrospectiva, mas pegar, no calor da hora, o que ocupava sua mente e como refletia sobre o cinema e a sua carreira enquanto ela estava se sucedendo. Além disso, a divisão de Lax facilita bastante a leitura do livro. Ele optou por dividi-lo em capítulos como “A idéia”, “Escrever”, “Casting, atores, atuação”, “Direção”, “Trilha sonora”, onde agrupa as conversas sobre cada tema, ao invés de colocar sucessivas entrevistas em ordem cronológica. Por fim, conversas a partir de 2000 abordam uma revisão da sua carreira, em mais de 50 páginas, onde Allen faz reflexões como a que abre este texto. Lax é autor de outros dois livros sobre o cineasta, uma biografia lançada por aqui em 1991, pela Companhia das Letras, e outro que investiga as características de sua comédia, On being funny: Woody Allen and comedy, de 1975. 

Confira a seguir alguns dos trechos que Eric Lax concebeu ao SaraivaConteúdo no final de abril,quando esteve no Brasil recentemente para participar do Seminário de JornalismoCultural, organizado pela revista Cult,e aproveitou para conversar com fãs de Allen na Saraiva Megastore, no ShoppingRio Sul, no Rio de Janeiro

 

A primeira vez 

Eric Lax. Escrevono livro sobre a primeira vez que o encontrei [em 1971], para saber se faria ounão uma matéria para a The New York TimesMagazine. Eu estava muito nervoso, com todas as perguntas anotadas e umgravador. Ele era muito tímido e eu, muito nervoso, não foi uma boa combinação.Suas respostas curtas eram “não”, o que não seria tão mal se as longas nãofossem “sim”. Então não foi tão bom assim. Mas algo aconteceu, nós tivemosoutra oportunidade de conversar e, desde então, não paramos mais. Esperava quefosse durar por algumas entrevistas, mas já tem 39 anos. 

O resultado 

Lax. Tem sidomaravilhoso para ambos, muito mais para mim, penso eu. Tive a oportunidade deacompanhar o desenvolvimento de um artista olhando por cima de seu ombro. E eleteve a oportunidade de conversar com alguém que conhece bem, fazer um registropreciso. E se ele me contasse uma piada, eu faria questão de seguir a lógica. Porqueesta é a parte mais importante. O que importa é como a piada começa, e não comotermina. Penso que foi isso que nos fez continuar essa parceria. 

Tenho provavelmente 2 mil páginas de transcrição das minhasentrevistas. E na maioria dos livros de entrevistas a pessoa com 60, 70 anosfala sobre o que lembra quando tinha 30. A memória é o que fazemos dela, todos temosnossas histórias que queremos contar. Mas para este livro ele não teve que selembrar o que disse quando tinha 30 anos, porque eu tinha isso registrado. Eassim através de todos esses anos. 

E uma das vantagens do livro é que peguei os aspectos dafilmagem, partindo da idéia, escrevendo o roteiro, escolhendo o elenco,filmando. E recuamos para todas as conversas que tivemos, desde 1971. E cadacapítulo vai desde aí até 2008. O benefício disso é que você realmente ouve oque ele tem a dizer ao longo do tempo e pode traçar a evolução de aspectos decomo ele pensa o cinema. E outro beneficio é que, dependendo do seu interesse,você não precisar ler na ordem. Se um dia está interessado em sua filmografia,pode ler somente este capítulo que não vai perder nada. Ou sobre como ele tevea idéia, por exemplo. Esta é a premissa.
 

Os temas de Allen 

Lax. Penso queele ainda se prende muito aos mesmos temas. Provavelmente, o mais comum é aimprevisibilidade do amor. Você nunca sabe o que vai acontecer. Em Tudo pode dar certo (2009) é muito sobreisso. A história começa com as pessoas em um caminho e, de repente, já estão emoutro. Se você olha para outros filmes, ele fala sobre lealdade, como em Broadway Danny Rose (1984). Há filmes sobre asdiferenças entre o homem e o artista, como DesconstruindoHarry (1997) e Tiros na Broadway(1994), onde você pode ser um artista maravilhoso, mas uma pessoa terrível. Evocê tem que saber separá-los. 

Ele também fala sobre a distinção entre fantasia erealidade. Nós amamos a fantasia, tudo que queremos ter é uma vida de fantasia.Em A rosa púrpura do Cairo (1985), umator sai da tela de cinema e entra na sua vida. E você pode ter uma vida defantasia maravilhosa, exceto pelo fato de o seu dinheiro não valer nada. E no fim,você se vê preso à realidade, o que é realmente ofensivo. A realidade matavocê. No fim, não importa o que você fez e faz, vai terminar morto. 

Se você assistir a Match point, é a história perfeita sobrealguém que comete um assassinato horrível. Ele é um ser humano terrível, maslida bem com isso, continua sua vida e você pode perceber que ele será cínicopara sempre. Já em O sonho de Cassandra, muito “dostoievskiano”, háalguém que também consegue matar, mas sua consciência não o deixa impune. Lembrabastante a história de Caim e Abel. Esses filmes, às vezes encenados como comédia, às vezes demodo dramático, são o coração do que ele faz. Allen realmente mantém essasidéias constantemente atualizadas.
 

Biografia futuras 

Lax. Eu sei que ainda haverá muitosoutros biógrafos de Woody Allen melhores do que eu, mas acho que não haverámelhor livro de conversas. Porque ninguém mais tem 40 anos de conversas de ondepoderiam extrair assunto. E quem for fazer estas biografias, no futuro, terátodas essas entrevistas para consultar. 

Para o biógrafo escrever sobre alguém morto, eledeve voltar e tentar reconstruir algo que já aconteceu. Eu posso relatar o queacontece, comoele fez um filme, o que ele fez numa nova performance, e ele fala sobre o queestá fazendo e porque está fazendo. E ao menos há a versão dele sobre oassunto.
 

O legado de Allen

Lax. Estou convencido de que em cem anos as pessoas ainda assistirão aosfilmes de Allen. Será um reflexo não somente da vida nesta época, mas uma dascoisas mais importantes sobre seus filmes é que muitos deles realmente sãoprodutos do ano em que foram feitos, ou da década. Embora seus filmes possuamuma qualidade atemporal, eles são modernos e ao mesmo tempo poderiam teracontecido em qualquer tempo. Um filme comoNoivo neurótico, noiva nervosa, feito na década de 1970, ainda é muitopertinente hoje, exceto pelas roupas que as pessoas usam. É tão bom hoje quantofoi na época em que foi lançado.
 

Allen no Brasil 

Lax. Um pouco antes de vir para o Brasil, estava em Nova York, e nosencontramos porque eu não o via há algum tempo. Eu disse: “Eu sei que aspessoas me perguntarão se você fará um filme no Brasil, qual a resposta?” E eledisse: “Comovocê sabe, minha irmã esteve no Brasil, teve ótimas reuniões e realmente gostoudo lugar. Eu nos vejo fazendo um filme lá, mas neste momento o financiamentovem de um grupo na Espanha, e tenho alguns compromissos que preciso quitar,para ajudá-los no investimento que fizeram”. Então, por agora acho que vocêsnão o verão por aqui, mas quem sabe o que acontecerá quando esse acordoterminar.

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