Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 23.07.2012 23.07.2012

Uma ligação emocional com as nuvens

Por Sarah Corrêa
 
Da sessão perdida no cinema aos longínquos minutos que alguém ficou esperando na saída do metrô e até mesmo a bronca que o chefe deu pelo atraso ao chegar ao trabalho. Esses episódios podem revelar situações que estão totalmente fora de nosso controle.
 
“A sociedade ultratecnológica é refém da vulnerabilidade que ela própria fabricou. Munidos de smartphones, tablets e aplicativos, nos sentimos espertos e poderosos. Mas a verdade é que continuamos tão incapazes quanto nossos antepassados de parar o curso de um raio, de fazer cessar tormentas ou calar o vento”, escreve Ana Lucia Azevedo, no livro Novos Tempos – lançado pela editora Zahar.
 
Editora do caderno de Ciências do jornal O Globo e escrevendo sobre o assunto há mais de duas décadas, a autora carioca já assinou mais de mil matérias sobre o assunto e foi agraciada com o prêmio José Reis de Divulgação Científica.
 
Nesse período, Ana Lucia cobriu importantes eventos, como a Eco 92, em 1992, quando o mundo parou pela primeira vez para falar sobre as mudanças climáticas.
Apesar de todo o tempo de pesquisas e produção na área, Ana Lucia conta que sua ligação com o assunto é “emocional”. “Eu adoro olhar para os céus, ver as nuvens. Sempre gostei das nuvens escuras também. Elas trazem mudança. Fazem bagunça. Eu sou muito agitada, acho que por isso adoro tanto as nuvens”.
 
Costurando essa admiração pelos céus e sua perspicácia jornalística, em Novos Tempos, a autora oferece uma reflexão de como esse ciclo natural influencia a vida na cidade. Dentre outras “lições”, Ana explica didaticamente a diferença entre tempo e clima, contrariando um certo consenso popular, que muitas vezes leva a crer que os meteorologistas não são confiáveis.
 
A questão, segundo a jornalista, é que é muito arriscado prever o tempo momentâneo, já que as condições climáticas estão em constante mudança.
 
Por isso que a “mulher do tempo” pode até dizer que irá chover hoje à tarde em sua cidade, mas corrermos um grande risco de nos depararmos com um belo sol. Por outro lado, o clima é uma média calculada a partir da medição de um longo período de tempo, que é capaz de dizer se daqui a dez anos enfrentaremos uma grande onda de calor ou não, por exemplo.
Ao longo do livro, Ana Lucia traz ferramentas para entender melhor as piores experiências no planeta Terra, como o furacão Katrina, que devastou o Sul dos Estados Unidos em 2005.
Apesar de traumáticos, esses episódios trazem novos aprendizados e realçam a importância de estarmos munidos de informações sobre a natureza. “Desde que o mundo é mundo, o clima sempre mudou. O que se discute hoje é o ritmo com que isso acontece e as causas disso”, escreve a jornalista em Novos Tempos.
 
Ana Lúcia Azevedo.
Crédito foto MarciaFoletto
 
Uma rota de mudanças climáticas pelo planeta vem justificando a ideia de que esses eventos não estão isolados. No ano de 2010, a gelada capital russa Moscou viu os termômetros chegarem aos 40 graus. Em maio do mesmo ano, a desértica cidade de Riad (capital da Arábia Saudita) sofreu um grande alagamento, causado por chuvas. Ainda no final de 2010, a Austrália enfrentou uma das piores enchentes registradas na história do país.
 
Esses e tantos outros eventos têm seus primeiros traços no céu, que apenas reflete lá em cima os impactos da atividade humana, seja na emissão de gases – com a queima dos combustíveis fósseis, como o petróleo –, ou até mesmo com as mudanças naturais, parte inerente ao curso dinâmico da natureza.
 
No trecho que chama atenção para a realidade brasileira, Ana Lucia contrapõe o velho pensamento popular de que “moramos em um país tropical abençoado por Deus”. Podemos concordar que o Brasil é, sim, bonito por natureza. Mas, como reafirma a jornalista, “estamos, de fato, entre os países mais atingidos por desastres naturais”.
 
Desventurados episódios asseguram essa afirmação. Basta olhar para nosso passado recente e lembrar das chuvas que devastaram a região serrana do Rio de Janeiro, no início de 2011.
 
A vida neste “mar aéreo”, termo emprestado por Ana Lucia com origem no repertório do naturalista galês Alfred Russel Wallace, segue sua estrada em constante mudança. Se, em um passado próximo, o nocivo gás CFC foi o maior vilão para a camada de ozônio, hoje as pesquisas mostram uma redução em seu uso. O Brasil reduziu em 90% o uso desse gás, que estava presente nos mecanismos de geladeiras e aerossóis em geral – desde desodorantes até inseticidas.
 
Porém, muitas outras medidas para preservar o meio ambiente e gerar uma vida longa ao planeta Terra devem ser tomadas. A conferência Rio +20, que aconteceu recentemente na capital carioca e reuniu cientistas, especialistas e chefes de estado do mundo inteiro, colocou em pauta as ações que os países devem executar para reduzir as emissões de gases, criar possibilidades de uma economia criativa e encontrar um ponto de equilíbrio entre os interesses do capital e o impacto ambiental.
 
Ana Lucia, que participou da Rio +20, se mostra otimista com o futuro e acredita que mudanças virão com a conscientização. “Eu acho que o legado da Rio+20 será trazer a discussão ambiental para perto dos brasileiros. Penso que contribuirá para a reflexão, para o educação”.

 
 
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