Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 18.12.2012 18.12.2012

Uma escritora e um desenhista para acionar “”A Máquina de Goldberg””

Por Rafael Roncato
 
Dizem que vingança é um prato que se come frio. No caso da escritora Vanessa Barbara e do ilustrador e quadrinista Fido Nesti, a vingança veio através de uma graphic novel em parceria, composta por 112 fases, com a ajuda de três tartarugas, de uma cadeira tecnológica e de uma máquina de impressão japonesa chamada Komori Corp.
De toda essas fases e parafernálias saiu A Máquina de Goldberg, a primeira HQ do projeto/parceria entre a produtora RT Features e o selo Quadrinhos da Cia., da Companhia das Letras. Assim como num filme, Fido e Vanessa não se conheciam quando foram apresentados e acabaram se apaixonando, não um pelo outro, mas pelo trabalho um do outro. "Quando me sugeriram o Fido, eu me apaixonei por um desenho de velhinho que ele fez para uma revista. Então topei a parceria e já pensei em incluir um velhinho na história", conta a escritora.
A história de vingança da trama conta com três elementos essenciais: a combinação da narrativa praticamente visual de Vanessa – evidente em O livro amarelo do Terminal e O Verão do Chibo, escrito em parceria com Emilio Fraia –, o delicado e expressivo traço de Fido e as engenhocas mirabolantes de Rube Goldberg, conhecidas por "máquinas de Goldberg", feitas para executar tarefas simples – até banais, como dar uma descarga – de forma complexa, utilizando reação em cadeia.
E foi numa máquina própria, que envolvia a troca de centenas de e-mails e discussões do rumo da trama, que surgiu a história de Getúlio, apenas um garoto amante da música punk que, por ser considerado antissocial, foi enviado a um acampamento de férias chamado Montanha Feliz, que de feliz só tem o nome. Entre as perversidades e sacanagens de seus colegas de acampamento – todo tipo de maldade que uma criança no ensino médio pode enfrentar –, Getúlio conhece o zelador Leopoldo, um velhinho amargurado e obcecado por máquinas de Goldberg.
As parcerias, tanto dentro da HQ, com a busca por vingança, quanto fora dela, na produção de Fido e Vanessa, deram muito certo devido ao seu caráter colaborativo: "No final, acabamos pensando o roteiro juntos, sobretudo no terceiro ato, quando as coisas tinham que se juntar não só textualmente, mas visualmente. E eu também 'desenhei' umas máquinas pra ele poder ter uma ideia do que eu estava pensando, tipo a máquina para alimentar peixinhos dourados e para mexer Chocopino, mas esses rascunhos serão devidamente incinerados", diz Vanessa, encerrando sua carreira como futura desenhista.
Acompanhe a entrevista completa da escritora Vanessa Barbara e do ilustrador e quadrinista Fido Nesti sobre A Máquina de Goldberg, vingança, as fugas de Bach e música punk.
Como foi esse começo de processo até chegar à ideia de A Máquina...? Vocês já tinham alguma ideia do que poderia ser a história?
Vanessa Barbara. Não. O objetivo foi escrever sobre a minha época de “gordinho asmático” na escola, numa trama que envolvesse um velhinho solitário, engenhocas intrincadas à la Rube Goldberg e uma máquina de vingança feita a partir de pessoas.
Fido Nesti. A Vanessa me enviou um resumo do que seria a trama principal, já com a ideia de usar as máquinas de Goldberg e a união entre o garoto punk e o velho do acampamento.
Quanto tempo durou cada etapa da HQ, desde a primeira ideia até sair da gráfica?
Vanessa Barbara. Começamos em fins de março de 2009, e fomos terminar em julho deste ano. Foram, portanto, mais de três anos. Ambos tivemos problemas pessoais nesse período e continuamos trabalhando normalmente com outros projetos, então é claro que não foram três anos corridos.
 
Fido Nesti
Vanessa Barbara
E de onde veio a ideia para fazer algo relacionado com as máquinas de Rube Goldberg? Foi uma inspiração que veio antes de toda a trama de vingança?
Fido Nesti. É culpa da Vanessa. Eu já conhecia algumas máquinas, e sempre tive curiosidade em pesquisá-las mais profundamente. Fiquei surpreso e animado quando li o roteiro e vi que essa seria a grande chance para isso.
Vanessa Barbara. Quando pensei na trama, já veio tudo junto: em primeiro lugar, o gordinho asmático sendo oprimido pelos colegas de escola (o primeiro ato é bem autobiográfico); depois, o zelador solitário e viciado em Rube Goldberg que vira seu aliado; e, em terceiro lugar, a máquina de vingança. Os elementos iniciais já estavam todos ali. Só as fugas de Bach entraram depois.
Quadrinhos são legais porque dá pra avançar a história de forma visual, sem a necessidade de ceder a longas descrições e textos. Além disso, as máquinas funcionam maravilhosamente bem no desenho, e por isso fez tanto sentido incluí-las na trama. Na hora de pensar numa história, parti do pressuposto de que seria algo visual. Tentei imaginar o que seria legal de desenhar e de ver na página. Isso foi bem diferente. Também li alguns livros e manuais de roteiro cinematográfico para ter noção da estrutura de uma trama; essa parte foi a mais difícil pra mim – definir pontos de virada, situações que pudessem fazer a história avançar para um final meio que inevitável, etc. É claro que o Fido ia adaptando essas ideias malucas ao que poderia ser realizado concretamente na página, mas nunca houve nada que não pudesse ser feito.
Quais foram as principais inspirações e referências – narrativas e estéticas –  que vocês usaram para criar A Máquina…?
Vanessa Barbara. Inventions, de Rube Goldberg, foi a principal. Também as fugas de Bach, a música punk e a pacata cidade de Rifaina. Uma referência engraçada é o filme Família Addams 2, que se passa num acampamento de verão onde se usam musicais da Disney para torturar as crianças mais deslocadas.
Fido Nesti. Me inspirei nos esboços das máquinas reunidos no livro Rube Goldberg Inventions, expedições ao interior paulista (mais precisamente à cidade de Rifaina, que é onde se passa a história) e fotografias de bosques, pinheiros, passarinhos e acampamentos, tudo ao som das fugas de Bach e música punk.
O que vocês acham que cada um de vocês trouxe para o livro que não teriam feito sozinhos?
Fido Nesti. Como a ideia central saiu da cabeça da Vanessa, seria impossível criar essa história sozinho. A narrativa e os diálogos seguem uma maneira peculiar, que aprendi – com o tempo, lendo outros textos de sua autoria – que fazem parte do seu universo particular. O livro é uma união desse universo com o meu modo de interpretá-lo visualmente.
Graças à sua semelhança com HQ e meu cérebro abarrotado de memórias cinematográficas, sei que minhas histórias carregam sempre alguma influência da sétima arte, mas de uma maneira inconsciente, mais particularmente na estrutura dos quadrinhos e seus planos. Nossa ideia foi ambientar a história no interior de São Paulo, mas sem se preocupar em mostrar detalhes regionais. Entendo a relação apontada com filmes norte-americanos, mas acho que a trama e sua ambientação poderiam se encaixar bem em várias partes do mundo.
Vanessa Barbara. Se não fosse o Fido, A Máquina de Goldberg seria a primeira HQ da história sem desenhos. O velhinho também nunca teria surgido sem ele, assim como a paisagem de fundo (Rifaina) e boa parte da personalidade do gordinho (aquela gotinha de suor que ele sempre tem escorrendo pelo rosto nos momentos mais difíceis, o cabelinho oleoso enrolado na testa, os pijamas antigos, o gorrinho). A máquina de vingança é 50% dele, com aquela cena pavorosa dos zumbis de piche, o choque na torre de força, etc. 
 
Páginas da graphic novel
 
 
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