Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 30.01.2013 30.01.2013

Uma análise dos quadrinhos nacionais em seu dia especial

Por Marcelo Rafael
 
“O mercado de quadrinhos está muito aquém do que poderia estar”, declara José Alberto Lovetro, o JAL, presidente da Associação dos Cartunistas do Brasil (ACB) e assessor de imprensa da Mauricio de Sousa Produções. E concordam com ele Guilherme Kroll, editor e sócio da Balão Editorial, e Wellington Srbek, editor do selo Nemo, do Grupo Autêntica.
Mas há luz no fim do túnel. E, no Dia do Quadrinho Nacional, esses três profissionais analisam as perspectivas para o gibi brasileiro e contam por que estamos em um momento de crescimento.
 
PROBLEMAS DO PASSADO
 
Entre os fatores que causariam essa defasagem, estariam a falta de oportunidades para publicação, falta de profissionalismo por parte dos artistas e também falta de interesse ou, até mesmo, aversão do público ao produto nacional.
Entretanto, os três enxergam uma mudança positiva nos últimos anos, com um avanço na 9ª arte brasileira editada e consumida aqui, sem a necessidade de recorrer a outros países para publicação.
Com exceção da Turma da Mônica, maior caso de sucesso nacional, que abocanha 86% do mercado, a concorrência com o material estrangeiro é grande. E parte desse problema advém do próprio público, segundo Guilherme e Wellington. “Ainda há certa rejeição à produção nacional autoral, por achá-la ou muito hermética ou mal-resolvida, num movimento parecido com o que vemos no cinema”, explica Guilherme.
JAL acrescenta que o material que vem de fora do Brasil é muito barato. “Qualquer personagem que seja comprado já foi pago. E alguns deles vieram até gratuitamente para jornais”, conta.
 
“Eu vivia desenhando o Cebolinha na lousa (quando criança). Anos mais tarde, fui trabalhar com o Mauricio e virei o Cebolinha, só com os cinco fios aqui na cabeça”, brinca, a respeito de sua calvície
 
Além do preço favorável, o material já chega conhecido: com filme, desenho na televisão e uma série de produtos que o tornam mais atrativo. “Como um brasileiro vai conseguir fazer um personagem, construí-lo e fazê-lo competir? Não precisa competir superiormente, pelo menos de igual para igual no seu próprio país”, questiona JAL.
Mas complementa: “A gente não é contra produtos internacionais: todo país tem que ter material que vem de fora. Até serve de referência”.
Essa concorrência vinha atrelada a outra questão levantada por Guilherme e Wellington: falta de profissionalismo dos artistas. Muitos autores não encaravam os quadrinhos como profissão, tendo que exercer outras atividades paralelamente à produção artística. “Isso fez com que muitos produzissem esparsamente e sem condições ideais”, conta Guilherme.
 
“Pensei em trabalhar com quadrinhos a vida toda, mas devido à minha inépcia como desenhista e escritor, acabei enveredando para o lado editorial.”
 
SOLUÇÕES À FRENTE
 
E o que seria necessário para que esses autores alavancassem suas carreiras? Alguém que acreditasse neles, de acordo com JAL. “O Mauricio de Sousa é a resposta dos brasileiros a tudo isso. Porque alguém, algum dia, acreditou nele. Um editor acreditou no Mauricio. Ou num Ziraldo. Ou num Henfil”, conclui.
 
E há muita gente fazendo trabalhos bacanas por aí, com temas locais que passam a despertar o interesse. “Temos a História, a Cultura e os ambientes naturais próprios do Brasil. Isso pode e tem sido mostrado em nossos quadrinhos. É um fator diferencial que não encontramos nos quadrinhos estrangeiros”, comenta Wellington, autor das séries Força Animal e Mitos Recriados.
 
Capa de Mitos Recriados em Quadrinhos – Monstros e Heróis
E o material de qualidade pode acabar trilhando o caminho inverso e ser exportado. “Em Estórias Gerais, eu e o Flavio Colin apresentamos o sertão mineiro de meados da década de 1920, com sua particularidade cultural e natural. Criada há exatos 15 anos, continua sendo reeditada e foi publicada na Espanha”, comenta Wellington.
 
“Criei minha primeira história em quadrinhos, por diversão, em 1986. No ano seguinte, comecei a colecionar HQs e nunca mais deixei de estar envolvido com elas.”
 
A produção para todas as idades tende a se ampliar, com um aumento de lançamentos de outras editoras como Devir, Zarabatana, New Pop, Jambô e selos como Quadrinhos na Cia. e Graphics MSP. JAL até adianta que, além de Astronauta Magnetar, estão sendo produzidas, por diferentes artistas, outras quatro HQs para jovens e adultos, de olho na exportação.
 
Astronauta Magnetar
“É muita gente boa surgindo todo dia no Brasil, o que nos deixa animados a produzir ainda mais”, diz Guilherme. E Wellington completa: “2012 foi um ano extraordinário, e 2013 promete muito para os quadrinhos no Brasil!”.
 
José Alberto Lovetro – Presidente da ACB e assessor de imprensa da Mauricio de Sousa Produções
JAL veio de um ambiente onde outros ases do lápis saíram: a escola Padre Manuel da Nóbrega, no bairro da Casa Verde, em São Paulo. “Nesse colégio tinha, não na mesa sala que eu, o Angeli, o Luscar… Vários desenhistas surgiram ao mesmo tempo naquela escola. Não sei o porquê”, conta.
 
Guilherme Kroll – sócio na Balão Editorial
Quando ele, Flávia Yacubian e Natália Tudrey ainda estavam na faculdade de Editoração da ECA-USP, pensaram em abrir uma editora para publicar só coisas que gostariam de ler. Anos após trabalharem em outras áreas, reuniram-se novamente e resolveram tocar a ideia: publicar o que gostavam em HQs, teatro, literatura ou livros acadêmicos.
 
Wellington Srbek – editor do selo Nemo, Grupo Autêntica
Em 1996, lançou seu primeiro gibi profissional, Solar. Com mestrado e doutorado abordando a dimensão educativa dos quadrinhos, foi chamado pelos diretores do Grupo Autêntica quando eles tiveram a iniciativa de publicar HQs. “Conversei com a editora de livros infantis do Grupo sobre um livro teórico de HQs. Contei a ela sobre meu trabalho e mostrei as primeiras páginas de minha adaptação de Dom Casmurro. Dias depois, fui chamado para uma reunião e saí como o editor da futura Nemo”.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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