Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 01.07.2010 01.07.2010

Um surto de arte (morte e ressurreição de Rodrigo Souza Leão)


Por Arnaldo Bloch
Fotomontagem de Cristina Carriconde
Publicado originalmente n’ O Globo, em 25.06.10

“Só vou morrer se eu ganhar o Nobel”, escreveu Rodrigo deSouza Leão, aos 43 anos, na superfície do último óleo sobre tela que pintou, em2009. Depois de 20 anos sem sair de casa — exceto quando arranjava uma namorada(via telefone ou e-mail), e os pais o levavam às respectivas alcovas —, eleenfim cedera: começara a frequentar as aulas de João Magalhães no Parque Lage.A produção de telas aumentou até atingir 35, algumas de grandes dimensões. Aprodução literária também: um ano transcorrido do sucesso cult e da fortunacrítica de Todos os cachorros são azuis (7Letras)— livro que narra o surto em que se manifestou sua esquizofrenia, aos 23 anos—, estava prestes a concluir um romance novo, de fôlego, Me roubaram uns dias contados (a ser lançado no próximo dia 2,primeiro aniversário de sua morte, pela Record).

— O trabalho do Rodrigo mistura mundo interno e externo demaneira radical. É uma escrita feroz. O cara não brincava em serviço, nãoescrevia por charme ou pedantismo. Escrevia com imensa coragem, para resistir àloucura, e para existir — reflete o crítico José Castello, colunista do GLOBO.

Crítica literária e coordenadora do Fórum de Ciência eCultura da UFRJ, Beatriz Rezende faz coro:

— O motivo de Rodrigo ser publicado não é a esquizofrenia.Ele tem profunda consciência da dor de perder a razão. Nesse oscilar entre ofluxo descontrolado e a tentativa de controle se estabelece uma fricção, umaluta de linguagens que resulta poética.

Uma vez pronto o novo livro, Rodrigo parou de tomar osremédios e passou a escondê-los dentro do computador. Como a zombar dasvariadas pílulas que, na escrita, tratava como personagens, ao lado de Rimbaud,Proust, o cachorro azul e as mulheres de olhos azuis. Azuis como o fio querefazia o mundo de Arthur Bispo do Rosário. Azuis como certos temas poéticos deStella do Patrocínio, e constante no trabalho de outros artistasesquizofrênicos no país de Nise da Silveira e do Museu do Inconsciente.

Em abstinência, Rodrigo, então, soube que a autora GlóriaPerez ia estrear uma novela com um personagem esquizofrênico. Fez chegar àsmãos dela um exemplar de Todos oscachorros são azuis. Quando a novela foi ao ar, e Tarso (vivido por BrunoGagliasso) fez, pela primeira vez, referência a um chip implantado em seucérebro,

Rodrigo se inquietou. É que, 20 anos antes, em seu primeirogrande surto — descrito no livro a que Glória teve acesso —, Rodrigo acorda,olha-se no espelho e cisma que engoliu um grilo. Vai trabalhar assim mesmo.Formado jornalista, aos 23 anos era assessor da área de seguros da CaixaEconômica Federal.

Chegando ao escritório, no 26º piso da Torre Rio Sul, viu-seperseguido por um japonês com uma zarabatana. Desceu correndo os lances escurosdas escadas tendo a seu encalço o índio japa que, enfim, o atinge com a setaque continha o chip.

Não adiantou dizer a ele que a impressão de ter um chip nacabeça é um clichê da esquizofrenia e, portanto, não configurava plágio.Furioso, escreveu uma carta aberta a Glória, publicada no “Jornal do Brasil”.Mas não chegaria a vê-la impressa: a cena na qual Tarso tenta matar o namoradoda irmã causara-lhe tamanho impacto que Rodrigo passou a ter medo de matar seuirmão Bruno, companheiro de quarto, a quem pagava (de sua aposentadoriaantecipada) para ciceroneá-lo ao Parque Lage ou protegê-lo dos delíriosolfativos que o atormentavam: cheiro de morte, cheiro de merda, cheiro decemitério, emanações, segundo ele, enviadas pelo vizinho do apartamento decima, ex- colega da CEF, provavelmente mancomunado com o nipo-cacique.

Pediu para ser internado. O mais rápido possível. O pai, omédico Antônio Alberto, não queria. A mãe, Maria Sylvia, tampouco. A irmã,Maria Dulce, levou-o.

— Ele foi abraçado ao travesseiro preferido dele — recorda.

Uma semana depois, morreria, vítima de uma parada cardíaca.Os pais e os irmãos desistiram de fazer autópsia quando leram uma carta datadade um mês antes, que estava no seu computador:

“Papai, Mamãe, Bruno e Dulce.Vocês sabem muito bem que a minha vida não foi fácil. Sofreram muito. Sofremosjuntos. Sofremos nós. Eu gostei da vida e valeu a pena. Muito obrigado porterem me ensinado tudo. Amo muito vocês todos. Tomara que exista eternidade.Nos meus livros. Na minha música. Nas minhas telas. Tomara que exista outravida. Esta foi pequena pra mim. Está chegando a hora do programa terminar.Mickey Mouse vai partir. Logo nos veremos de novo. Nunca tenham pena de mim.Nunca deixem que tenham pena de mim. Lutei. Luto sempre. Desculpem-me o mauhumor. É que tudo cansa. Kkkkkk…”

Apesar do alegado mau humor dacarta de despedida de Rodrigo (que, paradoxalmente, se encerra com o “kkkkkkk”,popular onomatopeia contemporânea para o riso), é quase de alegria o clima nacasa da família, entre Copacabana e Lagoa, às vésperas do lançamento de “Meroubaram uns dias contados” (na mesma data, “Todos os cachorros são azuis” serárelançado). A impressão é de que o humor de Rodrigo e a comicidade involuntáriaque perpassa seu drama são compartilhados por todos como uma maneira demantê-lo vivo. Para essa leveza permeada de comoção contribuiu, certamente, anoção de que o filho e irmão queria mesmo partir.

Ao poeta Ramon Mello, um de seusincentivadores, organizador de sua obra e em vias de montar uma peça baseada namesma (parceria com o ator Flavio Souza), Rodrigo dizia que “se chegasse aos 50anos já estaria bom demais”.

— Depois ele repetiu isso váriasvezes. Eu protestava, e ele dizia para eu relaxar, porque, “depois que morre,todo mundo vira Ana Cristina Cesar”. Pior que tem um fundo triste de verdadenisso… só depois de morrer ele começou a chamar mais atenção da mídia econseguiu uma editora de grande porte.


Percurso em zigue-zague

No sofá azul da sala, Babi, acadela yorkshire de Rodrigo, parece postar-se ao lado de seu fantasma na entrevistada ultima quarta-feira com os pais, Antônio e Maria Sylvia, e os irmãos, Brunoe Dulce.

— Todos os dias, lá pelocrepúsculo, ela vai até a porta. Tinha se acostumado com a nova rotina doParque Lage — descreve Maria Sylvia.

Levada ao corredor onde estáafixada a maioria dos quadros de Rodrigo (que devem ser doados para a Casa deRui Barbosa), Babi, em zigue-zague, observa as paredes em busca de um refúgio,transmitindo a ilusão de que aprecia as telas. Assim era o percurso de Rodrigo:inebriado, sinuoso, multipolar. Sua arma era a de muitos escritores“saudáveis”, se é que isso existe: a autoironia, a consciência dos limites, abusca por uma saída.

— Ele habitava um espaço difícile ambíguo, onde aluci- nação e arte se superpõem. Se isso é complicado paraescritores que se julgam “normais”, imagine para ele. A crítica que se ocuparde Rodrigo tem que tomar cuidado com a questão martirológio & arte —analisa o poeta e cronista Affonso Romano de Sant’Anna, com quem Rodrigo secorrespondia com frequência.

A morte como prêmio

Ao contrário das demaisinternações, Rodrigo esteve indócil ao longo daqueles dias. Tentou estrangularuma enfermeira; foi para o quarto seguro, onde passou os dias aos gritos;sequer olhou para a mãe quando esta foi visitá-lo, ocupado em disputar com umenfermeiro a faixa de judô com a qual era atado à cama para não se ferir.

— Um paciente advogado organizouum abaixo-assinado para que ele fosse expulso. Advogado adora um abaixo-assinado — relata o pai, num dos vários rasgos de humor que deram o tom daquelefim de tarde na casa da família Leão. — Quando ele morreu, o sujeito voltouatrás e acusou o médico de tê-lo matado.

Se Rodrigo se suicidou, ou seprovocou uma hipermedi- cação, ou até se foi morto, permanecerá um mistério. Decerto mesmo (a valer a lógica daquela sentença galhofeira carimbada em suaúltima tela) só o fato de que Rodrigo conseguiu, em algum evento muito bemdemarcado no universo paralelo de sua imaginação compulsiva, o seu Nobel, aindaque, nesta intrincada lexicografia, o prêmio seja a própria morte.

Foto de Tomás Rangel
 


Trecho do livro Me roubaram unsdias contados

“Rodrigo é beato. Acredita emdeuses. Cristo. Iemanjá. Apolo. Afrodite. Ateneia. Exu. Afrodite. Mickey Mouse. Chaves. (…)Tudo o que vem do humano é Deus. Uma geladeira. Uma máquina de lavar. Conhecideuses na infância. Garotos que morreram. Solidões inóspitas que só se davamcomigo. Café com leite. A utopia é importante. Escrever uma página hoje já éuma utopia. O futuro manda lembranças. As lambanças que fiz. Que farei. Eusofro. Sofro de um sopro de vida”

 

Escrever é falar sem ser interrompido

 por Suzana Vargas

 Leio emocionada Me roubaram os dias contados, último livro escrito por RodrigoSouza Leão, um misto de romance, diário autobiográfico ou colagem de contosinterdependentes em que um personagem escritor-narrador se aventura na florestade sua psique, extraindo matéria-prima para sua ficção. Poderíamos dizer quepertence a uma certa linhagem da prosa brasileira contemporânea essa mistura degêneros, se o texto de Rodrigo não levasse essas tendências ao limite de umdesafio.

 São 335 páginas de um quase tratado ficcionalde uma não ficção no sentido mais literário do termo. Personagens, nãopersonagens, episódios múltiplos aparecem e somem através do alter ego doautor, que reflete sobre sua criação e criaturas, sobre seu mundo interno eexterno. O que vai surgindo aos poucos e fantasticamente é nosso mundo, tãopleno de ausência de sentido quanto real. TVs, canais especiais, telefones,sexofones, internet e os mais velozes meios de comunicação fazem parte dessecotidiano pleno de palavras sem que uma só — a essencial — seja pronunciada.Extremamente solitários, os personagens (e seu criador) estão imersos nodesamor e nas receitas de felicidade alardeadas pela propaganda a que Weimar (oprotagonista) e seus dez aparelhos de telefone têm acesso do fundo de seuconfinamento.

 Súmula de suas referências culturais, o autor— morto em 2009 — vale-se de sua conturbada biografia para esta recriação. Oque deseja é gritar contra a falta de sentido dos limites que nos autoimpomosno campo existencial e literário. Deste ponto de vista, somem as fronteirasentre os gêneros, e conceitos como eternidade, sexo, amizade, amor caem porterra através de um rigoroso e desesperado autoexame.

 O livro estrutura-se em quatro partes. Emtodas, os personagens estão permeados pela mesma síndrome: o pavor de umcontato mais profundo com eles mesmos. Essa relação se radicaliza no segundocapítulo, onde surge o próprio Rodrigo em feroz depoimento. Semautocomplacência, não poupa nada nem ninguém. Impossível ficar de fora: comquantos medos se faz uma síndrome do pânico? É o que nos pergunta a certaaltura. Segundo ele, ou Kafka, ou Weimar, ou quem quer que lhe tenha sopradoessas palavras: “”Vamos envelhecer e morrer. Isso já não basta. Quem querviver para sempre é um idiota. O que nos faz melhores é o fato de não sermosmortais? O que é a imortalidade? A repetição. O eterno retorno. O circularfilosófico. Não estamos de passagem. Estamos e só. O que quero conseguir queroem vida””.

 Acompanhado de interlocutores como Platão,Schopenhauer, Machado ou Proust, Rodrigo dialoga a partir de sua doença comnosso mundo doente e mágico onde “”O segredo é não fazer exame para tersaúde””. Livro implacável e belo que reflete a um só tempo a crise danarrativa humana afirmando a necessidade inadiável da poesia e da escrita. Aescrita enquanto manifestação profunda de procriar e continuar. Como nos falaainda seu autor: “”Escrever é uma forma de falar sem serinterrompido””.

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