Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 15.10.2012 15.10.2012

Um pé no cinema e outro em realidades paralelas do escritor Philip K. Dick

Por Carolina Cunha
 
Do Androids Dream of Electric Sheep?, o título em inglês do romance O Caçador de Androides, escrito em 1968 pelo americano Philip K. Dick, poderia muito bem acender algum debate contemporâneo sobre o futuro da nossa espécie ou se a tecnologia salvará o planeta.
O livro que deu origem a Blade Runner – O Caçador de Androides, filme cult da década de 1980, traz um retrato sombrio do futuro, quando, no ano de 2021, robôs humanoides rebelam-se contra a dominação dos humanos numa Terra assolada por um desastre ambiental.
 
O sucesso do diretor Ridley Scott foi o pontapé para a redescoberta da obra de Philip K. Dick. Até aquela época, o autor tinha a fama de “maldito” e seus livros recheavam as estantes de alguns sebos. Hoje, ele já é apontado como um dos grandes mestres da literatura de ficção científica moderna. 
K. Dick morreu com apenas 53 anos, em 1982. Ainda era um nome desconhecido do grande público, tendo deixado uma ampla obra de 36 romances e uma centena de contos, a maioria publicada em revistas obscuras de sci-fi. Agora, alguns desses contos chegam ao público brasileiro no livro Realidades Adaptadas, da Aleph Editora, que traz sete narrativas curtas do autor já adaptadas para o cinema.
 
Entre os trabalhos que os leitores encontram na coletânea, estão os clássicos Lembramos Para Você a Preço de Atacado, que deu origem ao filme O Vingador do Futuro (1990), O relatório Minoritário, inspiração para Minority Report- A nova Lei (2002), e Equipe de ajuste, base para o roteiro de Os Agentes do Destino (2011). Blade Runner, que não está no livro, foi a primeira adaptação de uma obra literária sua para a telona e abriu caminho para o interesse de Hollywood pelas histórias do autor.
Produzindo textos desde os anos 50, o escritor se alimentava de temas clichês da pulp fiction da época, como a viagem no tempo, a telepatia e a invasão alienígena, para criar uma obra com fôlego novo, influenciada pela contracultura dos anos 60 e a paranoia da Guerra Fria.
 
Criador de mundos distópicos, K. Dick abriu caminho para a geração de escritores do gênero cyberpunk nos anos 80. Como um Kafka da ficção científica, suas tramas anteciparam temas como a condição humana frente à realidade virtual e o controle da sociedade pela tecnologia. Mas nem tudo termina em apocalipse. Seus textos muitas vezes trazem referências da cultura pop e um humor digno de qualquer filme B. Para começar, ele escreveu sobre “o tédio das colônias extraterrenas” e nunca acreditou que os mutantes pudessem ser bonzinhos.
“Philip K. Dick é um autor difícil. Não por sua literatura, sempre clara, objetiva e detalhista, mas pelos temas abordados. São questionamentos morais e éticos sérios, quase sempre acionando os limites do que chamamos de humanidade. O leitor é agarrado pelo pescoço e arrastado por um turbilhão vertiginoso, que vai solapando todas as suas certezas uma a uma. Memórias podem ser implantadas ou apagadas, e não existe mais nenhuma linha divisória entre a estabilidade cotidiana e o delírio”, diz o editor Silvio Alexandre, especialista em literatura fantástica e quadrinhos.
 
Capa do livro 'Realidades Adaptadas'
O escritor Philip K.Dick.
 
Certa vez, K. Dick disse que suas obras acabavam girando em torno de duas perguntas: “o que é realidade?” e “o que constitui um ser humano?”. Diferenciar o homem da máquina e entender se a realidade é uma ilusão foi um quebra-cabeça que ele sempre tentou montar.
“O mundo que K. Dick nos revela não é um lugar confortável e nem seguro; pode ser que nem sequer seja um lugar, mas um horrível estado de espírito do qual lutamos em vão para nos libertar”, acredita Sílvio Alexandre.
Se, nas páginas dos seus livros, a atmosfera chega a ser lisérgica, na vida real, K. Dick também viveu com um toque de insanidade. Sofria de esquizofrenia, tinha alucinações atribuídas ao uso de drogas, escutava vozes e reclamava que era espionado pelo F.B.I. Talvez o lado mais surreal tenha sido sua virada mística.
 
Em 1974, o autor passou por uma estranha experiência que mudou sua vida. Na época, ele sofria das sequelas dolorosas da extração de um siso e teve uma visão – trazida à tona pela figura de um pingente em forma de peixe, no colar de uma mulher. Era o símbolo das primeiras comunidades cristãs. Ao vê-lo, teve uma epifania espiritual, um “nirvana cibernético”, no qual se viu como um cristão do século I perseguido pelos romanos. Em alguns segundos, entendeu que todo o universo estava conectado em realidades paralelas. 
K. Dick criou então o conceito de V.A.L.I.S. (Vast Active Living Intelligence System – "Amplo Sistema Vivo de Inteligência"), que ele definiu como "um vórtice espontâneo (…) que tende a, progressivamente, incorporar seu ambiente em padrões de informação". Algo como enxergar Deus e todas as coisas como um grande sistema de computação. A experiência inspirou o livro VALIS, publicado em 1978. 
 
“Dick acreditava que a humanidade estava passando por um processo de embrutecimento e mecanização, em parte pela lógica mercantilista das guerras modernas, ao passo que os computadores estavam se tornando criaturas sensíveis. Ele se colocava por inteiro em tudo que escrevia, e cada obra sua é um registro de suas obsessões, suas inquietações éticas e filosóficas, seu humor torto e surpreendente”, conta Sílvio Alexandre.
Para outubro, a editora Aleph planeja lançar outro romance do escritor: Fluam, Minhas Lágrimas, Disse o Policial, sobre um famoso apresentador de TV que desperta numa manhã e descobre que ninguém mais o reconhece.
 
Cineastas como Ridley Scott e David Cronenberg o adoram. Intelectuais já o estudam nas universidades americanas. Cientistas dizem que suas ideias podem não ser tão absurdas assim e cada vez mais gente acredita que o escritor ainda tem muito a dizer sobre o futuro que queremos ter. 
“Em tempos de redes sociais, excesso de informações, próteses de silicone, clonagens e o progressivo esvaziamento da figura do ser humano, os personagens quase esquizofrênicos e comuns de Philip K. Dick parecem-nos cada vez mais familiares", comenta Sílvio.
 
CONTOS DE REALIDADES ADAPTADAS NO CINEMA:
 
Conto: Lembramos Para Você a Preço de Atacado (1966)
Filme: O Vingador do Futuro (1990), de Paul Verhoeven
 
Conto: A Segunda Variedade (1953)
Filme: Screamers – Assassinos Cibernéticos (1995), de Christian Duguay
 
Conto: Impostor (1953)
Filme: Impostor (2002), de Gary Fleder
 
Conto: O Relatório Minoritário (1956)
Filme: Minority Report – A nova lei (2002), de Steven Spielberg
 
Conto: O Pagamento (1953)
Filme: O Pagamento (2003), de John Woo
 
Conto: O Homem Dourado (1954)
Filme: O Vidente (2007), de Lee Tamahori
 
Conto: Equipe De Ajuste (1954)
Filme: Os Agentes do Destino (2011), de George Nolfi
 
 
Recomendamos para você