Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 13.11.2012 13.11.2012

Um olhar de dentro da guerra

Por Felipe Branco Cruz
 
Um dos mais importantes correspondentes de guerra, o fotógrafo Robert Capa, dizia que “se uma foto não está boa o suficiente é porque você não chegou perto o suficiente”. Tanto é que as únicas fotos dos desembarques das primeiras tropas aliadas na Normandia, em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, foram feitas por ele. Capa morreu em 1954 após pisar em uma mina terrestre, na guerra da Indochina.
 
Sua câmera foi encontrada presa em suas mãos. Sua máxima ainda é seguida por muita gente corajosa. Prova disso é o lançamento de três obras que descortinam os conflitos atuais no mundo e trazem um olhar privilegiado de dentro da guerra. Trata-se dos livros Argo, de Antonio Mendes e Matt Baglio; Não Há Dia Fácil, de Mark Owen e Kevin Maurer; e Dias de Inferno na Síria, do jornalista brasileiro Klester Cavalcanti, que trabalha na revista IstoÉ e foi enviado pela revista.
 
Os três livros foram escritos por pessoas que estiveram no olho do furacão, no centro nervoso dos acontecimentos. “Não sei se você já notou, mas no final das reportagens sobre a guerra na Síria, quase sempre o apresentador diz que ‘as notícias não puderam ser checadas porque o governo não permitiu a entrada de jornalistas’”, diz Klester Cavalcanti. “É aí que entra a vontade de estar no lugar dos fatos”, completa. Cavalcanti foi o único jornalista brasileiro a entrar na cidade de Homs (Síria), o maior ponto de resistência ao governo do ditador Bashar al-Assad. Na cidade, ele foi preso e torturado em uma cadeia local. Se não fosse pela interferência do Ministério das Relações Exteriores brasileiro, Klester poderia ter sido morto.
 
 
'Não Há Dia Fácil', de Mark Owen e Kevin Maurer
'Dias de Inferno na Síria', do jornalista brasileiro Klester Cavalcanti.
 
'Argo', de Antonio Mendes e Matt Baglio
 
NO FOCO DOS CONFLITOS
 
Hoje, no mundo, há pelo menos dois lugares que despertam a atenção do público. O primeiro é a Ásia Central, onde ficam o Afeganistão e o Irã. O segundo é o Oriente Médio, que engloba a Síria, o Líbano e o Iraque, passando por países do norte da África, como Egito, Líbia e Tunísia. Dessas duas áreas do globo, extremamente voláteis, é possível ouvir histórias sobre terrorismo, violência e revoluções. Klester Cavalcanti ficou preso na Penitenciária Central de Homs durante seis dias.
 
Em seu livro, conta como foi ameaçado com armas de fogo, teve seu rosto queimado com um cigarro aceso e como passou a primeira noite algemado a um sofá. “Meu objetivo era encontrar boas histórias. Queria saber se, apesar da guerra, as pessoas tentavam ter uma vida comum”, lembra. “Boa parte dessas histórias eu acabei conseguindo dentro da prisão onde fiz amizade com os presos”. A obra mostra uma visão pessoal do conflito no país árabe além de várias histórias de vida do povo local. “Conheci um jovem que viu os pais serem mortos pelo exército.
 
Algum tempo depois, o exército convocou esse mesmo jovem para lutar ao lado dos soldados que mataram seus pais”, conta. Para chegar até Homs, Klester pegou um ônibus em Damasco. O cobrador do veículo era o ex-dono de uma empresa de turismo que perdeu tudo após a guerra. “Ele sabia do perigo e insistiu para que eu voltasse para Damasco”.
 
Proximo ao centro de Homs, o jornalista fotografa de dentro do táxi, a explosão de uma bomba durante um ataque do Exército Sírio
 
Na tarde do sábado 19 de maio, Cavalcanti chega à Rodoviária de Homs, surpreendentemente vazia
 
Em Homs, Klester conseguiu pegar um táxi que o levaria ao encontro de um ativista de direitos humanos que mora em Homs. No meio do caminho, o carro foi parado pelo exército de Bashar al-Assad, e ele foi preso. “Os policiais ficaram dando voltas pela cidade devastada. Eu estava no banco traseiro do carro, cercado por dois policiais sem farda. Vi carros queimados, prédios destruídos e muita violência”. Da prisão, o jornalista conseguia ouvir tiros e explosões. “Eu não me acho corajoso. Mas precisava fazer isso”, afirma.
 
O HOMEM MAIS PROCURADO DO MUNDO
 
Da Síria para o Paquistão, um livro conta a história da morte de Osama Bin Laden. Mais de um ano depois de sua morte, ainda existem pessoas que não acreditam nessa notícia. Para o soldado Mark Owen, no entanto, o assassinato do terrorista faz parte do rol de missões que sua unidade de elite realizou. Owen testemunhou o momento em que os seus colegas, soldados americanos, mataram Osama. Ele foi o líder da equipe que invadiu a casa do terrorista, na cidade de Abbottabad, no Paquistão.
 
A história sobre a missão está no livro Não há dia fácil, ditado pelo militar ao jornalista Kevin Maurer. Mark Owen não é o nome real do soldado.Ele assinou com esse pseudônimo, assim como mudou o nome dos colegas citados na obra por questões de segurança. Segredos militares e táticos, entre outras coisas que pudessem prejudicar a segurança nacional dos Estados Unidos, segundo Owen, também foram omitidos.
 
O livro, no entanto, contém um retrato bastante completo da histórica ação, além de fotografias de algumas missões, treinamentos e plantas da casa de Osama. A missão, batizada de Lança de Netuno, foi acompanhada de perto pelo presidente Barack Obama, em tempo real, via satélite. O nível de especialização da equipe foi tanto que eles, antes de invadirem a casa do terrorista, treinaram em uma maquete em tamanho real construída nos Estados Unidos, construída por meio de fotos de satélite. Em um dos momentos mais marcantes, Owen descreve quando foi confirmada a identidade de Osama. “Ajoelhado perto da cabeça, puxei-lhe a barba para a direita e para a esquerda, para que Jay pudesse ver o perfil. Eu tinha comigo uma foto e coloquei perto do rosto”, conta o militar no livro.
 
Após ser preso, o jornalista é interrogado e tem seu rosto queimado. Dentro da cadeia, Cavalcanti constrói seu relato da guerra, a partir da história das pessoas ali presentes. Poemas escritos em seu bloco de anotação e cartas de baralho feitas ali dentro ilustram a rotina
 
CINEMA A SERVIÇO DAS FORÇAS ARMADAS
 
Assim como já existem projetos para levar para os cinemas a história de Mark Owen, outra história também ganhará as telonas. Trata-se de Argo, baseado no livro homônimo de Antonio Mendez, funcionário da CIA, que ditou o livro para o jornalista Matt Baglio. O livro conta a história da invasão da embaixada dos Estados Unidos no Irã, em 1979, durante a revolução iraniana. A história real se parece tanto com um roteiro cinematográfico que acabou virando um. A adaptação cinematográfica dessa história foi exibida no Festival de Cinema do Rio de Janeiro (outubro 2012) e tem no elenco os atores Ben Affleck, George Clooney e Alan Arkin. A estreia no circuito nacional está prevista para novembro.
 
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