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Um mergulho nas memórias e atribulações de Caeto

Por Bruno Dorigatti

 

A difícil e corajosa atitude de falar de si, agora. Essa foi a empreitada na qual se meteu Caeto, quadrinista, ilustrador e pintor, nascido em Assis, interior de São Paulo, que se mudou com os pais ainda criança para São Paulo. Memória de elefante, lançada pelo Quadrinhos na Cia., aborda a vida do quadrinista, a partir do momento em que passa a morar sozinho na capital paulista, depois que seus pais se separam, a mãe volta a Assis e o pai decreta a falência da livraria, onde moravam no sobrado acima dela. O pai, depois de assumir a homossexualidade e se descobrir com o vírus HIV, se muda também para o interior de São Paulo e Caeto se vê obrigado a arrumar um lugar para morar, depois de ganhar do pai um tanquinho de lavar roupas, veneno para pulgas, três caixas de livros e um relógio cuco. Começa então um período de perrengues e momentos difíceis, seja trabalhando em um bar sem nenhuma experiência ou dividindo o apartamento com a família de seu amigo Shaquil, onde moravam a mãe, o irmão, a irmã e mais dois sobrinhos, em condições as mais deploráveis possíveis, sem a mínima higiene, convivendo com pulgas, ratos e uma bagunça eterna.

É nessa época também que começa a pintar com o amigo Alexandre, que lhe ensina e ajuda com dicas que viriam ser fundamentais para o seu trabalho, sobretudo pintando por cima quando não fica bom, técnica que Caeto vai aperfeiçoar. “Então comecei a experimentar um método de alto-contraste, usando um livro com fotos de teatro que eu tinha roubado do meu pai como referência. Eu ressaltava apenas as sombras das imagens, o que dava um efeito parecido com o de um estêncil. Combinado com um padrão de formas geométricas coloridas, isso se tornou a minha marca registrada nas pinturas”, explica ele a certa altura. As dificuldades em arranjar emprego e conseguir ganhar dinheiro são amenizadas com a venda de algumas de suas pinturas, próximo da Praça Benedito Calixto, em Pinheiros, onde todo sábado acontece uma feira de antiguidades e artes, e com trabalhos free lancer de ilustração.

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Entrelaçando as histórias mais recentes com outras mais distantes, Caeto repassa sua trajetória dos últimos anos sem condescendência, abordando sua complicada situação sem deixar de mencionar os constantes porres, a relação com as mulheres, a situação um tanto surreal na casa com uma família no mínimo desleixada quando fala em higiene e limpeza, a trajetória da banda e do coletivo de quadrinhos que criou a revista Sociedade Alternativa, em parceria com Rafael Coutinho, entre outros, a delicada e tensa relação com a família conforme a saúde do pai vai sendo abalada.

O traço continua sujo, apesar de Caeto acreditar estar mais limpo. As referências e influências passam por autores que também trabalham a própria biografia como principal tema de suas histórias, como Robert Crumb, Harvey Pekar, Art Spiegelman, Craig Thompson, David B. Mas não se restringem a eles. Outros artistas que influenciam seu trabalho são Angeli, Laerte, Allan Sieber, Rafael Coutinho, Ulisses Garcez, Tiago Judas, Daniel Paiva, Daniel Gisé, além do escritor Paul Auster, o diretor Fernado Meirelles, o músico Arnaldo Antunes e a banda Ordinária Hit. 

E hoje, enfim, Caeto tem uma vida aparente mais tranquila, fazendo diversos frilas de ilustração para o SESC, conseguindo lançar esta graphic noveldepois de quatro anos de árduo trabalho. História que segue, assim como a sua vida, que deve continuar inspirando outras HQs tão fortes e pungentes como Memória de elefante

A seguir, Caeto fala sobre a graphic novel, os cuidados e dificuldades em abordar a própria vida. 

 

Memória de elefante (Quadrinhos na Cia., 2010) foi escrita a partir de sua memória. Como é se debruçar sob algo tão íntimo e tão recente, com os personagens quase todos por aí?

Caeto. Antes de fazer esse livro eu já vinha experimentado fazer HQs de memórias nos fanzines que fazia, meus amigos estavam acostumados a aparecer nessas histórias. Da parte dos amigos que apareceram todos se sentem homenageados no livro, pra gente é uma celebração à nossa amizade. Mas tem muitos momentos da HQ que não foram fáceis de escrever nem de relembrar enquanto fazia. 

Como foi para decidir momentos, histórias que entraram e outras que ficaram de fora?

Caeto. Eu tentei medir um equilibro que não magoasse tanto algumas pessoas envolvidas e nem eu mesmo na hora de escolher o que seria contado. 

Qual a dificuldade e os cuidados ao incluir e excluir histórias de outras pessoas em Memória de elefante? Como é expor a sua vida da maneira como ela aparece no livro? 

Caeto. Escolho o que eu acho que daria um bom trecho do livro, dentro do que imagino ser o foco da historia, porque o foco muda quando você está escrevendo uma história em que você depende que as coisas aconteçam para escrever. Como acabei de lançar o livro, estou começando a sacar como é expor a vida da forma que contei a história, mas sinto que as pessoas tem ficado motivadas a ir atrás dos sonhos delas e tocadas com a história. 

O que dá mais trabalho em uma graphic novel como esta? 

Caeto. A parte do desenho da bastante trabalho, o processo todo de fazer a HQ é longo e traz muita ansiedade. Tem que ter paciência e seguir um passo após o outro. 

Você comentou que nos quatro anos que ficou fazendo a graphic novel, sua cabeça mudou muito. Quais foram estas mudanças e como isso influenciou o seu trabalho?

Caeto. Eu criei o meu método pra fazer HQ, coisas simples que fazem você ganhar tempo, nada de muito diferente de outros artistas, apenas uma luz que quando bate você se pergunta, por que eu não seguia por esse caminho antes? Além de melhorar as técnicas de fazer a HQ e ter uma puta paciência no processo todo, fiz muitos trabalhos de murais gigantescos e oficinas, escrevi muitos projetos e cuidei de um lado mais empresarial do meu trabalho. Estes trabalhos que seguram a onda financeira para que eu conseguisse fazer o Memória de elefante

Você começou com o fanzine Sociedade Radioativa, e hoje trampa com ilustração, conseguiu publicar o primeiro livro e até comenta sobre o futuro das HQs nas livrarias e não mais nas bancas de revista. Tem vontade de voltar a fazer publicações periódicas ou crê que esse mercado dificilmente voltará a se estabelecer?

Caeto. Espero que em algum momento essas publicações periódicas dentro de editoras estruturadas voltem para dar mais um espaço profissional para os autores. No mais, o independente está aí e quando pinta convite continuo participando dessas publicações dos caras que admiro. 

Ao mergulharmos em Memória de elefante, vem à mente outros trabalhos autobiográficos, como os de Robert Crumb, Harvey Pekar, Art Spiegelman, Craig Thompson. Quais as referências para seu trabalho como quadrinista, e que não se restringem somente às HQs?

Caeto. Gosto de todos esses caras que você citou e incluo na lista de quadrinistas o Angeli, Laerte, Allan Sieber, Rafael Coutinho, Ulisses Garcez, Tiago Judas, Daniel Paiva, Daniel Gisé, David B., o escritor Paul Auster, o diretor Fernado Meirelles, o músico Arnaldo Antunes e a banda Ordinária Hit. 

O que tem lido recentemente que te chamou a atenção entre os quadrinhos e graphic novels daqui e lá de fora?

Caeto.Cachalote (Quadrinhos na Cia., 2010), do Rafael Coutinho e do Daniel Galera, porque, além de gostar muito do livro, acompanhei um pouco do processo todo da feitura do livro e sei o tanto de força que o Rafa pôs ali. E Umbigo sem fundo (Quadrinhos na Cia., 2009), do Dash Shawn, pra mim, é inovador na diagramação e no jeito em que o desenho é usado para contar a história. 

Como tem sido o retorno de Memória de elefante?

Caeto. Tem sido bem legal, muito legal mesmo! 

Pode adiantar do que tratam os trabalhos que está realizando no momento?

Caeto. São projetos que pretendo realizar. Ainda não estão sendo realizados fora da minha cabeça, o autobiográfico deve se chamar 1990, dez anos para o fim do mundo e vai falar da minha infância, mais especificamente da mudança que aconteceu na Vila Madalena enquanto eu e meus amigos virávamos adolescentes. O que eu posso falar sobre a outra ideia é que não é autobiográfica. 

E fale um pouco sobre seu traço e o que mudou nele enquanto realizava este trabalho?

Caeto. Continua sujo, mas está mais limpo.

> Leia o começo de Memória de elefante 

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