Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 16.06.2010 16.06.2010

Um mergulho na obra de Walter Salles

Por Bruno Dorigatti
Foto de Tomás Rangel

> Assista à entrevista exclusiva de Marcos Strecker ao SaraivaConteúdo 

 

Um dos maisconhecidos e reconhecidos cineastas brasileiros, Walter Salles está diante deseu maior desafio: levar às telonas o clássico de Jack Kerouac, On theroad. Publicado em 1957, o livro é considerado um dos pilares da BeatGeneration, que iria influenciar toda a contracultura da geração hippie nadécada seguinte, e a cultura de um modo geral. No livro, dois jovens atravessamos Estados Unidos de carona, cometem pequenos furtos para conseguir comer erevelam um panorama um tanto sombrio da América, estimulados por drogas comomaconha e anfetaminas, ao som do bebop, o jazz improvisado, ágil, veloz,flexível e nervoso, surgido nos anos 1940. 

Os direitosde filmagem foram adquiridos por Francis Ford Coppola nos anos 1990, que desdeentão vem protelando a produção. Conhecido por road movies como Diáriosde motocicleta, sobre a vida de Che Guevara antes de se tornar orevolucionário, quando atravessou a América de Sul de motocicleta com um amigo,sem falar em Central do Brasil, que o tornou conhecido lá fora,Salles vem se envolvendo no projeto desde 2005.

E sabe dorisco e da incerteza que uma produção como essa traz. Por isso, ele registrou apesquisa que fez para esboçar o roteiro, quando entrevistou personagens aindavivos e pessoas que conheceram ou viveram aquele período, sem falar nosenvolvidos em outras adaptações que não chegaram a se concretizar. A intençãoera ter algum material, caso o longa não chegasse a ser feito. Mas com o filmeem andamento – os atores já estão sendo escolhidos – o documentário Searchingfor On the road deve ser lançado antes do longa. 

Foi também há cinco anos que o jornalista MarcosStrecker procurou o cineasta com o objetivo de escrever sobre seus filmes e suatrajetória. Walter Salles topou e o resultado pode ser conferido em Naestrada – o cinema de Walter Salles (Publifolha),lançado recentemente. No livro, Strecker escreve sobre cada filme que o diretorrealizou, conta episódios de sua vida, e fala do apoio de Walter Salles aoutros cineastas da nova geração e da importância que teve ao ajudar, inclusivefinanceiramente, Mário Peixoto, responsável por um dos marcos do cinemabrasileiro, Limite, realizado em 1930 econsiderado por muitos o melhor filme já feito por aqui.


Confira a seguir trechos da conversa com Strecker 


A ideia 

Conheço o Walter Sallesdesde 1990. Eu era crítico de cinema e repórter da Folha de S. Paulo e ele estava filmando A grande arte, que seria seu primeiro longa-metragem. Acabei fazendo váriasreportagens com ele e desde então acompanho a sua carreira. Há cinco anos,propus escrever um livro sobre o cinema dele. Ele aceitou não só contar váriosepisódios da vida e da carreira, mas também cedeu muito material de arquivo,inclusive roteiros que ele está trabalhando. Espero que meu livro contribuapara dar às pessoas um pouco mais da dimensão da importância que eu acho que otrabalho tem. Não só pelos filmes que fez, a importância que cadalonga-metragem em particular tem, mas pelo papel que ocupa no cinema e nasociedade brasileira.
 

A importância de Walter Salles

No cinema,ele tem um papel muito pouco conhecido de apoiar outras cineastas, ele nãogosta de aparecer, não é um cineasta como era Glauber Rocha, por exemplo, quegostava de participar do debate público, era polemista. Muita coisa que se fazhoje de interessante no cinema brasileiro tem a mão dele diretamente, assimcomo ele resgatou alguns cineastas brasileiros já esquecidos, que sãofundamentais, como Mário Peixoto, que fez Limite (1930).Pouca gente sabe, mas o Walter apoiou financeiramente o Mário Peixoto no finalda vida, além de ter cuidado da restauração e digitalização de Limite, em minha opinião,o maior filme que já se fez no Brasil. Walter Salles é muito amigo da geração do CinemaNovo. E embora o cinema dele não tenha uma relação direta com aquela geração,ele é, de certa forma, um conciliador, alguém que soube abraçar todas essaslinhas de força do cinema brasileiro dentro da obra dele e também ajudando todaessa geração atual que está despontando no cinema brasileiro.
 

Os filmes 


Terra estrangeira (1995) é mais ou menos o retrato emocional e artístico daquele momentono Brasil, da Era Collor. Era uma época de ruptura, o confisco econômico foicriminoso, algo que traumatizou toda a sociedade e no cinema isso teve impactodireto, porque o financiamento de filmes praticamente acabou naquele momento.Esse filme mostra uma geração que estava querendo sair do país para serealizar, já que depois da redemocratização o país tinha frustrado muitasexpectativas. E ele conseguiu traduzir isso de maneira muito bacana, fazendo umfilme pessoal, que é meio documental, mostrando essas pessoas desencantadas como que estava acontecendo no Brasil. E esse filme tem alguns aspectosinteressantes para fertilizar o cinema brasileiro, mostrar alguns caminhos quehoje a gente assiste, como, por exemplo, a ousadia da fotografia em preto ebranco. Foi muito ousado filmar no exterior, como ele fez, com uma equipe muitopequena, na Europa e na África. E, indiretamente, foi um resgate da MPB, com amúsica “”Vapor barato””, cantada pela Gal Costa. Aquilo traduziu ummomento em que o Brasil estava tentando se redescobrir, a autoestima estavavoltando ao país. Pela MPB, ele apontou um norte para a sociedade brasileira,que é de se reencontrar. A melhor expressão disso acabou sendo Centraldo Brasil (1998) alguns anos depois. É um filmeperfeito para mostrar um país que se reencontrou.

 

On the road

É muitodifícil você falar e fazer uma análise de algo que ainda está em construção. Aminha opinião – e por isso que o título do livro ficou Na estrada (Publifolha),em referência ao próximo filme dele, baseado na obra do Jack Kerouac –, é queestamos na eminência de uma mudança na carreira dele. Primeiro Walter provouque era um grande cineasta brasileiro e projetou o nosso cinema no exteriorcom Central do Brasil, Diários de Motocicleta elemostrou que era um cineasta latino-americano e soube traduzir a América Latinapros latino-americanos e pro mundo. Agora, com On the road, ele foiescolhido de alguma forma para traduzir para os americanos e também para oresto do mundo o que foi esse livro, uma obra fundadora da contracultura,essencial para os Estados Unidos e para o mundo inteiro na segunda metade doséculo XX, que repercute até hoje no que se faz em música, artes plásticas,cinema etc. 

E esse filme vai ser uma nova mudança na carreiradele, e vai projetá-lo de uma maneira que a gente ainda não conhece. Talveznenhum cineasta brasileiro tenha alcançado no mundo o que ele vai alcançarcom On the road, na minha opinião.

> Assista à entrevista exclusiva de Marcos Strecker ao SaraivaConteúdo

 


Leia o trecho de 
Na estrada onde Marcos Strecker escreve sobre o novo projeto do cineasta.


Searching for on the road
: o documentário

Para melhorcompreender o longa On the road, é útil estudar primeiro odocumentário que serviu para fundamentá-lo. Desde o início do projeto,anunciado em 2005, Walter passou a fazer um extenso e rico documentário sobre olivro e sobre a geração beatSearching for On the road (EmBusca de On the road). O diretor refez a rota trilhada de leste a oestedos Estados Unidos por Kerouac, entrevistou os poetas que participaram domovimento beat, encontrou pessoas que são mencionadas no livro e conversou comartistas contemporâneos influenciados por eles.

Não é aprimeira vez que Walter faz esse trabalho de pesquisa. “”A direçãocinematográfica é antes de mais nada uma questão de precisão””, define.Em Diários de motocicleta, ele já tinha realizado um filmepara servir de guia a atores e equipe. Mas era um projeto de trabalho, interno.Já Searching for On the road é muito mais ambicioso,autoral. Serviu também para o diretor compreender melhor os significados e aimportância atual do livro.

O formatofinal desse documentário vai depender do destino do projeto com Coppola. Se olonga não se realizar, pode se tornar uma reflexão sobre a impossibilidade defilmar On the road. Não seria a primeira vez. Como vimos, muitosnomes de peso estiveram envolvidos nessa adaptação – Barry Gifford, MichaelHerr e Russel Banks (que conheceu Kerouac pessoalmente) são só alguns.

Gifford,autor que colabora com David Lynch, escreveu o roteiro de um projeto que chegoumuito perto de se concretizar nos anos 90, com direção de Gus Van Sant e JohnnyDepp no elenco. A Columbia Pictures produziria, mas houve um desentendimentocom Coppola. O próprio Coppola, com seu filho Roman, esboçou um projeto -aquele que seria filmado em preto e branco, em 16 mm. Em 2001, Joel Schumacherera o cineasta cotado para a direção. Brad Pitt seria Dean Moriarty e BillyCrudup (de Quase famosos) interpretaria Sal Paradise. Os atoresColin Farrell e Ethan Hawke também foram cogitados.

Não é raroque projetos importantes tenham tantos talentos envolvidos ou que atravessem osanos como projetos em evolução. Mas On the road édiferente. O histórico acidentado do longa tem a ver com a importância deCoppola como criador e produtor e, principalmente, com a relevância do livropara a cultura contemporânea. Fazer jus às expectativas que cercam essaadaptação será uma grande tarefa. Uma das funções de Searching for Onthe road é documentar essa busca, em registro pessoal.

O filmereúne um material extenso e rico, com 24 entrevistas. Antes de mais nada, dávoz a alguns dos nomes consagrados da geração beat. GarySnyder é um deles. Ex-estudante de antropologia, fazia parte do grupo de São Franciscoque acolheu Kerouac e Allen Ginsberg, nos anos 50. Naquele ambiente, em 1955,Ginsberg faria a primeira leitura pública do poema “”Uivo””(“”Howl””), que se tornaria um marco do movimento – também conhecidocomo o “”Renascimento”” de São Francisco.

Snyder,nascido em 1930, foi figura central do movimento beat. Defendia,em particular, valores budistas (assim como Kerouac) e uma vida simples, pertoda natureza. Foi precursor do pensamento ecológico e defensor das culturasameríndias. Ganhou o Prêmio Pulitzer de poesia em 1975 e continua até hoje fiela suas convicções originais.

MichaelMcClure é outro que participou das leituras de São Francisco, em outubro de1955, ao lado de Ginsberg e Snyder. É autor da canção “”MercedesBenz””, um libelo contra valores materialistas, popularizado na voz deJanis Joplin. Como Snyder, McClure valoriza a natureza, mais especialmente a””consciência animal””.

Outro nomedo núcleo inicial é Lawrence Ferlinghetti, autor de Um parque dediversões da cabeça (A Coney Island of the mind, 1958).Ferlinghetti também é pintor, editor e poeta e tem papel central na
comunidade de São Francisco, onde o movimento floresceu. Criou a revista e amítica livraria homônima City Lights (Luzes da Cidade), que amparou osescritores beat. Foi o editor da primeira edição de
“”Uivo””, que lhe rendeu um processo por obscenidade.

Entre osnomes “”históricos”” que participam de Searching for On theroad está Carolyn Cassady, a mulher de Neal Cassady (retratada comoCamille, no romance). Ela vive na Inglaterra e escreveu suas memórias sobre operíodo tardiamente, nos anos 90: Off the road:twenty years withCassady, Kerouac and Ginsberg (Fora da estrada: 20 anos comCassady, Kerouac e Ginsberg). Outra é Joyce Johnson, escritora natural de NovaYork, que conhecia Ginsberg e foi namorada de Kerouac. Foi com ela que oescritor rumou para uma banca de jornais em setembro de 1957, em Nova York,para ler em primeira mão a resenha de Gilbert Millstein publicada no TheNew York Times. Essa crítica inicial selou o destino do livro. Joyceconheceu de perto o efeito destrutivo que a fama inesperada e surpreendentecausou no escritor. Colaboradora de revistas de prestígio como The NewYorker, é autora de dois livros de memórias (Minor characters e Missingmen) e de uma coletânea de sua correspondência com Kerouac (Door wideopen).

HettieJones, que foi mulher de LeRoi Jones (poeta negro beat, depois rebatizado deAmiri Baraka), é autora da biografia How I became Hettie Jones (Comome tornei Hettie Jones), em que narra os bastidores do movimento nos anos 50. Éuma figura humana rica no documentário. Desmonta alguns mitos que se criaramsobre as figuras de proa no grupo, utilizando um olhar crítico, mas nãorancoroso. Ela viveu o período com intensidade. De uma família de classe média,formou com LeRoi Jones um casal emblemático na vida boêmia do GreenwichVillage, em Nova York, que acolhia os escritores beat comgenerosidade. O casamento inter-racial, um símbolo na época, ruiu quando LeRoipassou a radicalizar sua militância no movimento negro.

Já apesquisadora e professora Ann Charters, que acompanha a geração beat desdea famosa apresentação da Six Gallery, em São Francisco (1956), foi amiga deJack Kerouac e é autora de uma biografia importante do escritor, Kerouac (1973).Também participa do documentário o compositor e músico David Amram, quetrabalhou com grandes nomes do jazz e conviveu com Kerouac,Ginsberg e Corso. Já Robert Stone, jornalista e escritor premiado, foi amigo deKerouac e viveu de perto as agitações dos anos 60. É autor de Quem vaifazer a chuva parar?.

Numdepoimento especial, o documentarista D. A. Pennebaker, que renovou odocumentário americano nos anos 60, ao lado de Robert Drew, contribui paraexplicar a mudança de paradigma nos filmes da época, em especial na gravação deshows. Os dois participaram do direct cinema (cinemaverdade), movimento focado em temas políticos e musicais. Como seu inspiradorrusso, dos anos 20 (Dziga Vertov), o direct cinema valorizavaa agilidade e o registro naturalista, em detrimento da edição.

Pennebaker éautor de alguns dos principais documentários musicais da história do cinema,como Dont look back (1967), com Bob Dylan. Também registrouapresentações antológicas, como Monterey pop (1968),quando o Monterey International Pop Festival lançou as carreiras de JanisJoplin e Jimi Hendrix. Para Pennebaker, os shows deveriam ser gravados com aurgência do momento, cruamente. Fazia questão de registrar todas as músicas emsua integralidade e rejeitou a comercialização que logo cercou os ícones daépoca.

Além dePennebaker, nomes essenciais do cinema que devem suas carreiras à irradiação domovimento beat também comentam On the road, comoDennis Hopper, Wim Wenders e o ator Scott Glenn. Johnny Depp lembra aparticipação que teria em uma das adaptações. Também há o depoimento de SeanPenn, um dos nomes mais talentosos de sua geração, fortemente influenciado pelacontracultura; e Matt Dillon, que teve sua carreira lançada por Coppola, nos anos80.

Os músicosLou Reed, David Byrne, Laurie Anderson, Wynton Marsalis e Philip Glass comentama influência de Kerouac e do movimento beat emsuas carreiras.

Há aindadepoimentos do escritor Dave Eggers, um dos principais nomes da literaturaamericana contemporânea, do guitarrista Bob Weir (um dos fundadores do GratefulDead) e de Toby Thompson, autor de Sixties report, um livroque narra os acontecimentos da época. Lou Reed encerra lendo trechos do poema””The fall of America””, de Allen Ginsberg.

É um materialriquíssimo, que joga luz sobre os ecos do movimento até hoje. Também traz cenasraras de Kerouac na televisão. Os depoimentos de amigos e colaboradoreshumanizam a figura do escritor. Também deixam patente o efeito destruidor dosucesso repentino que o autor conquistou em 1957. Seu final foi melancólico,nos anos 1960, e fica evidente como sua visão generosa foi subvertida, como umamaldição, por aqueles que atribuíram a ele a responsabilidade pelas mudançasnas quais teve papel central.

O documentário,pelo conjunto expressivo de entrevistas e pela força de suas imagens, já seriaimportante por si só. Mas o que esse material representa para Walterpessoalmente e para sua visão de cinema parece ainda mais importante. Searchingfor On the road, narrado em primeira pessoa, é a expressão dosquestionamentos de um cineasta. Nunca Walter se expôs tanto. O documentáriopode até receber a narração do próprio diretor. (Mas provavelmente, seránarrado por Gael García Bernal.) De qualquer forma, esse mergulho interior estáem sintonia com a definição dada por Wim Wenders para os road movies:””Neles, você precisa se expor, não é possível se esconder. Você vive umaaventura, deve estar preparado para viver””. Vale para o público, vale parao autor.

On the road foiescrito num momento de medo e insegurança. Mas suas mensagens de energia evitalidade são claras e contagiantes. Viva, experimente, confronte, siga aestrada. O filme também faz esse convite.

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