Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 28.10.2013 28.10.2013

Um dedo de prosa com Ignácio de Loyola Brandão

Por Maria Fernanda Moraes
Quando cheguei ao apartamento de Ignácio de Loyola Brandão para a entrevista, o escritor fazia poses diante do fotógrafo para as fotos da matéria. Mexia nos óculos e recostava-se na parede com aqueles movimentos já desmitificados de um autor acostumado às lentes que, por mais que obedecesse às orientações do fotógrafo, fazia tudo parecer o mais espontâneo possível.
“Agora, para finalizar, um sorriso no olhar, Ignácio”, orientou o fotógrafo. “Ah, mas agora você me pegou. Pediu para sorrir, eu não sorrio mesmo!”, dizia o escritor enquanto desfazia a pose e já emendava outra história. Além da voz grave – que ele prefere chamar de estranha –, o bom humor também é marca registrada de Loyola Brandão.
O bate-papo não foi diferente. Aos 77 anos, o escritor, que há três anos ainda exercia a profissão de jornalista, tem a persuasão dos bons contadores de histórias, vai puxando cada "causo" pela memória como se tivesse acontecido ontem. Lembra das pessoas que conheceu, dos lugares, das comidas, dos cheiros. Revela detalhes mínimos, desses que fazem a diferença para quem escuta, transportando para cada cenário. Ele acaba de lançar o livro O Mel de Ocara – Ler, Viajar, Comer, que reúne suas crônicas publicadas no jornal O Estado de S. Paulo sobre as viagens literárias que fez e ainda faz pelo Brasil.
Sentado à mesa de sua sala, sem cerimônias, como se estivesse conversando com um conhecido de anos, falou de sua paixão em escrever, mostrou seus gatos Chico e Marieta, apresentou Alzenir – a empregada doméstica que está com ele há mais de 18 anos e figura em suas crônicas – e, o fundamental, revelou a alegria que tem em viver e escrever sobre isso. Acompanhe a conversa:
Você publica livros desde 1965 e já ganhou diversos prêmios. O que o inspira a continuar escrevendo hoje? Algo mudou desde o começo para cá?
Loyola Brandão. Não, continua a mesma coisa. Quando eu tenho algo que sinto que é um assunto bom, um tema, eu sento e escrevo, independente de qualquer coisa que esteja acontecendo ao meu redor. Há dois meses, por exemplo, fiz uma reforma aqui em casa e continuei escrevendo. Martelavam muro aqui na frente e eu continuei escrevendo. Fui criado em redação de jornal e, no meu tempo, tinha aquela máquina de escrever italiana, grandona, então era um barulhão só. Tive que aprender a me fechar e me concentrar. Durante anos, tive uma chácara no interior [de São Paulo], perto de Itapetininga. Nunca consegui escrever uma linha lá. Tudo muito quieto, muito bom… mas eu preciso dessa tensão, é isso que me move. Eu não paro, estou sempre escrevendo e viajando muito. Faço essas viagens literárias desde os anos 1970. Tenho amigos que me perguntam: "Pô, mas por que você não aposentou?". E eu digo: "Eu não, vou morrer em cima do computador". Se não fizer mais nada, eu me mato. A Marguerite Duras tem uma frase assim: “É preciso ser muito forte pra não fazer nada”. Você já me imaginou assim? Indo jogar bocha, jogar tranca, bilhar… Eu não!
Como funciona seu processo criativo frente a essa compulsão para escrever?
Loyola Brandão. Eu anoto tudo, todas as ideias que tenho, mas às vezes nem uso. Aquilo fica ali e, de vez em quando, mexo nessa caderneta de anotações. Prefiro escrever de manhã; tudo o que eu escrevo depois das 5h da tarde tenho que reescrever. Isso vem da minha época de redação também, que abandonei há três anos. Escrevia as minhas coisas antes de ir para a redação. Então, quando chega 5h, 6h da tarde, eu já estou cansado. Trabalho bem entre 5h e 11h da manhã. Quando não estou fazendo nenhum projeto, acordo às 6h30, 7h.
Você tem vários livros feitos sob encomenda. Qual a diferença em relação ao processo criativo das obras encomendadas e das outras? Muitos autores têm preconceito contra essa prática. Você tem alguma dificuldade nesse sentido?
Loyola Brandão. É bem diferente. No meu livro, sou eu comigo mesmo, faço o que eu quiser. No livro institucional, que é como se diz para o livro sob encomenda, faço o que os outros me mandam. É uma camisa de força, e você aprende com isso. Não posso inventar nada em cima da biografia de alguém ou da história de uma empresa. A minha liberdade está nos meus livros. Mas só aceito uma encomenda quando o assunto me interessa. Há autores que têm preconceito sim contra esse tipo de trabalho, mas o problema é deles, para mim é natural. Aprendi tanto e conheci tanta coisa – como o processo da empresa privada no Brasil – que muita gente não sabe… Já quase recusei escrever sobre a história do Leite de Rosas achando que era banal, por exemplo, mas aí vi que era arrogância minha. Quando conheci mais sobre a história, percebi que era fascinante e tinha um baita personagem [o fundador].
Seus livros trazem muitas experiências pessoais. Você tem pretensão de algum dia escrever um livro só de memórias?
Loyola Brandão. Não, não… minha vida não é tão importante. Tem um livro meu que se chama Solidão no Fundo da Agulha, que não é exatamente de memórias, e sim uma brincadeira. Um dia eu estava conversando com umas pessoas e ouvi um bolero que vinha do rádio, “Quizás, quizás, quizás”. Eu comentei: "Nossa, isso me lembra o Clube Araraquarense quando eu era jovem, tinha 20 anos e ficava sentado em frente ao clube porque não podia entrar – não era sócio –, olhando as meninas ricas". A orquestra do clube era muito boa, e eu lembro que quando tocava "Quizás", que era a última música, também era sinal de que o baile acabava, e minha solidão me levava para casa. Aí, uma dessas pessoas sugeriu que eu escrevesse memórias como essa, e surgiu também a ideia de montar um livro com as canções ligadas a cada episódio. E todo mundo tem seus momentos ligados às canções, né? Então a minha filha, Rita, que é cantora, foi quem gravou as canções do disco que acompanha o livro. E ela, com 33 anos, conseguiu entender todas as músicas como eu entendia. Ficou uma coisa legal, e depois até fizemos alguns shows juntos: eu contava a história e ela cantava.
No início de sua carreira como jornalista, você foi crítico de cinema (em Araraquara, sua cidade natal no interior de São Paulo). Como foi esse período? Seu lado crítico tem a ver com seu lado literário?
Loyola Brandão. Não, tem a ver com meu lado pobre [risos]. Eu sempre gostei muito de cinema porque era o único divertimento em Araraquara. Quando eu era jovem, ia ao cinema todo dia se pudesse; mas como não tinha dinheiro, não acontecia. Foi aí que eu descobri que os críticos de cinema não pagavam ingresso, e o jornal da cidade estava sem crítico na ocasião. Com 16 anos, fui até o jornal e pedi o emprego. Eu lia todas as críticas que eram publicadas naquela época, porque a biblioteca tinha todos os jornais – até o Correio da Manhã, não sei como chegava esse jornal em Araraquara nos anos 1950. Eu lia muito o Almeida Salles e o Paulo Emílio Sales Gomes, descobri três livros de cinema na biblioteca. Aí, comecei a publicar as críticas e, como pagamento, tive a "permanente", que era o passe livre que os cinemas davam para os jornalistas. A primeira crítica que fiz era sobre uma biografia do Rodolfo Valentino, e enchi de nome técnico, que era para mostrar que eu era inteligente [risos]. Quando vim para São Paulo, também continuei trabalhando com crítica. Consegui um emprego no Última Hora – fazia diversas reportagens, mas mantinha a crítica. Um dia, descobri que eu não conseguia colocar ninguém dentro da sala de cinema, nem tirava ninguém. Perguntei para várias pessoas o que as levava a assistir determinado filme, e elas disseram: "O cartaz, a sinopse", mas não a crítica, porque os críticos têm o mundinho deles à parte. Aí falei que não ia fazer mais isso, apesar de que meu sonho era ser diretor de cinema.
 
                                                                                                   Kiko Ferrite

A crítica literária se aproxima da cinematográfica nesse sentido?

Loyola Brandão. Eu acho que sim. Hoje a gente não tem mais crítico, tem resenhista, que dá ali uma opinião passageira, que não acrescenta nem tira nada. O que há hoje são informantes literários: o que saiu e o que não saiu. Porém, não tem mais análise literária como tinha antes, com Wilson Martins, Otto Maria Carpeaux, Álvaro Lins, Antonio Candido, Sergio Milliet. Ficou resumido a um grupo de pessoas que estão dentro da universidade fazendo uma coisa fechada, com uma linguagem inacessível.
O livro Acordei em Woodstock traz várias referências literárias. Em certo momento, você faz uma pausa na narrativa de viagem para falar de grandes escritores como F. S. Fitzgerald e William Faulkner. Eles são suas referências pessoais? Quais os escritores que mais influenciaram sua obra?
Loyola Brandão. São sim, gosto muito deles. Primeiro, quis escrever como o Faulkner, que tem um estilo rebuscado, mas que cria um clima impressionante. Depois, veio o [Ernest] Hemingway, que se aproximava muito mais da linguagem que eu tinha, jornalística, econômica. Aí eu passei para o Graciliano Ramos, porque quando li Vidas Secas fiquei encantado com esse jeito de escrever, que não tem penduricalho em volta. Nessa mesma época, também descobri o Scott Fitzgerald, que é bem diferente do Graciliano. Mas de um [dos escritores] eu “pegava” essa economia, essa coisa enxuta e, de outro, a maneira de fazer diálogos e reproduzir o momento da sociedade norte-americana nos anos 1920 – aliás, esse filme O Grande Gatsby é uma porcaria, porque não entendeu nada do Fitzgerald. Depois tive um cara que foi fundamental na minha carreira, John dos Passos, que escreveu uma trilogia dos Estados Unidos, e eu pensei: "Esse é o livro que eu quero fazer de São Paulo". Ele tem um livro que se chama Manhattan Transfer, que é sobre um jovem dentro de Nova Iorque, e era como eu dentro de São Paulo. Muito do John dos Passos está nos meus livros Bebel e Zero.
Se você pudesse escolher algum livro que gostaria de ter escrito, qual seria?
Loyola Brandão. Eu sou de uma geração que leu Sartre, mas ao mesmo tempo adoro O Vermelho e o Negro, do Stendha. Eu gostaria de fazer um livro como esse. Gostaria também de ter feito um livro como O Tempo e o Vento, do Érico Veríssimo. Ninguém mais escreveu no Brasil um romance histórico como ele.
Há algum tipo de linguagem ou texto que você ainda tenha interesse em explorar?
Loyola Brandão. Não. Poesia, por exemplo, eu nunca fiz. Não sou poeta e admiro os bons e poucos poetas. Mas gostaria de fazer um livro que retratasse o nosso momento atual, de manifestações nas ruas, corrupção… Gostaria de apreender esse momento e pôr num livro. Nem sei se vou fazer, mas tenho a intenção – eu tenho sempre a intenção [risos].
Quais são seus projetos futuros?
Loyola Brandão. Bom, quero continuar viajando pelo país, quero dirigir um filme… A gente tem que ter um projeto, né? Senão como se vive? Preciso viver meus cento e tantos anos. Em 1996, tive uma experiência que eu não morri por um segundo, por conta de um aneurisma. A vida é muito frágil, e penso nos projetos todos que tenho que fazer ainda. Estou escrevendo um novo livro que é a história do meu avô, e tem também aquele sobre o momento da nossa sociedade. Há um projeto de filme, mas como ainda tenho que levantar fundos, vou adiando. Eu escrevo uns contos, às vezes, e vou guardando na gaveta. Não quero publicar agora, mas eles estão lá. Deixo lá, quietos. Um dia, de repente, vou ter uns 30 contos. E vai que eu tenha morrido, alguém pega e publica um livro 30 Contos de Ignácio de Loyola… E aí o pessoal diz: "Ainda bem que ele morreu, olha essa bosta aí" [risos].
 
Almanaque Saraiva
A edição de novembro do Almanaque Saraiva terá mais Ignácio de Loyola Brandão. O escritor conta detalhes sobre seu novo livro e relembra histórias e viagens especiais pelo Brasil. A revista pode ser retirada gratuitamente em qualquer loja Saraiva a partir do dia 4 de novembro de 2013.
 
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