Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 30.09.2011 30.09.2011

Um caminho trilhado pela esquerda

Por Felipe Candido
Na foto ao lado, a editora Ivana Jinkings
Uma das editoras mais importantes no meio acadêmico do país, a Boitempo Editorial, fundada em 1995, afirma cada vez mais seu prestígio, focando suas publicações em grandes títulos e autores do pensamento crítico.
 
Ivana Jinkings, editora da empresa e responsável por sua fundação, carrega a tradição de uma família de livreiros e pensadores, e faz com que a herança marxista mantenha seu lugar de destaque no mercado de livros no Brasil.
 
Desde muito cedo, Ivana esteve cercada de livros, por influência de seu pai. Quando Ivana saiu de Belém rumo a São Paulo, iniciou sua carreira como revisora. Porém nunca perdeu a vontade de criar sua própria empresa. A coragem veio em 1994, quando nasceu a Boitempo Editorial.
 
Por se especializar em uma determinada linha de pensamento, e por manter alto nível editorial em suas publicações, a Boitempo se tornou um referencial, em especial no meio acadêmico.
 

O reconhecimento se deve principalmente ao lançamento de títulos até então inéditos no Brasil, ou então sem edições há muitos anos.

Leia entrevista com Ivana Jinkings
 
A familia Jinkings sempre teve uma relação estreita com o universo livreiro. Como essa história começou?
 
Ivana Jinkings. Após perder o emprego que tinha no Banco da Amazônia, ser preso e ter os direitos políticos cassados pelo golpe militar de 1964, meu pai – Raimundo Jinkings – buscou nos livros uma alternativa para sustentar uma leva de cinco filhos, todos pequenos. Era um leitor contumaz, ele e minha mãe compravam livros por reembolso postal numa época em que Belém carecia de livrarias, e por essa razão mantinha contato próximo com editoras dos grandes centros. Sabendo do que lhe havia acontecido, alguns editores do Rio, São Paulo e Belo Horizonte propuseram a ele que se tornasse representante na cidade, dando assim o ponta-pé inicial ao que viria a se tornar depois a Livraria Jinkings, que fechou as portas em 2010 mas durante cerca de quarenta anos foi uma das mais importantes do Norte-Nordeste.
 
Como nasceu a Boitempo?
Ivana Jinkings. Depois de ter quase nascido e crescido dentro de uma livraria, quando me transferi de Belém a São Paulo, na década de 1980, passei a trabalhar como revisora (entre outras, na editora Atual, hoje parte do grupo Saraiva), depois como jornalista. Em 1994 criei coragem de largar tudo e, com um pequeno capital oriundo do meu FGTS e de alguma ajuda familiar, lancei o primeiro livro – Napoleão, de Stendhal –, em setembro de 1995.
 
Como foi a escolha do nome da Editora? Por qual razão o título do poema de Drummond?
Ivana Jinkings. O nome da editora se deve ao poema de Drummond e também ao nome de uma editora fundada em Belém, em plena ditadura militar, por meu pai e outro dirigente comunista, Carlos Sampaio. Teve vida curta a primeira Boitempo, pois os livros mal saíam de gráfica eram apreendidos pelos militares. Quando decidi criar uma editora quis homenagear o maior poeta brasileiro e também o meu pai, que morreu no ano de fundação da editora. O primeiro anima nossas escolhas literárias, as quais incluem tanto obras clássicas – Machado de Assis, Anatole France, Jack London – quanto a publicação de autores como Flávio Aguiar, Roniwalter Jatobá, Edyr Augusto e João Carrascoza, entre outros da literatura nacional. O segundo inspira nossa linha de ensaios, voltada para a história e questões contemporâneas, com obras que se tornaram referência em diversos centros de ensino e pesquisa. Reunimos autores de prestigio internacional, como Boaventura de Sousa Santos, Edward Said, Ellen Wood, Emir Sader, Francisco de Oliveira, Giorgio Agamben, István Mészáros, Leandro Konder, Maria Rita Kehl, Michael Löwy, Mike Davis, Perry Anderson e Slavoj Zizek.
 
Como aconteceu a seleção dos primeiros títulos que seriam publicados?
Ivana Jinkings. Fiz muitas reuniões, convoquei amigos à minha casa, ouvi editores, escritores, leitores. Aos poucos foi se desenhando o perfil da editora e assim os originais começaram a chegar, não impedindo que fôssemos atrás dos títulos que julgávamos mais importantes.
A editora já nasceu com a tendência à publicação de livros relacionados à esquerda?
Ivana Jinkings. De certa forma sim, pela formação que tive. Inicialmente planejei mais espaço para a ficção e obras raras, que foi em parte “solapado” pelas urgências teóricas do pensamento crítico. Mas temos planos de reforçar a parte de  literatura.
 
Como aconteceu a recepção desse perfil pelo público brasileiro?
Ivana Jinkings. Boa, acredito, pois havia uma cultura de que livros de esquerda deveriam ser publicados sem muito esmero gráfico, sem grande apuro editorial. A Boitempo imprimiu uma face nova às suas edições, que são reconhecidas até internacionalmente como de excelência.
 
Como é o público da editora hoje?
Ivana Jinkings. Intelectualizado, exigente. Composto principalmente por escritores, pesquisadores, professores, estudantes de pós-graduação, de graduação e parte do ensino médio, embora alguns títulos nossos, como os da coleção Clássicos, já tenham sido adotados por escolas do ensino fundamental.
 
E como acontece a escolha dos títulos que serão publicados pela Boitempo hoje? Principalmente com relação a novos autores.
Ivana Jinkings. Recebemos uma quantidade imensa de originais, todos os dias, e temos uma produção bastante reduzida – a preocupação é não lançar mais livros do que somos capazes de editar sem pôr em risco a qualidade. Somos, assim, obrigados a recusar muitos livros de excelente nível, e muitas vezes sequer conseguimos avaliar todos os que recebemos (tarefa que dividimos com os coordenadores das coleções e alguns pareceristas).
 
A Boitempo se tornou um referencial, especialmente no meio acadêmico. Esse sempre foi um objetivo da editora?
Ivana Jinkings. Para o tipo de obras que publicamos o reconhecimento da academia e do público especializado, que sabe que pode confiar em nossas traduções e edições, é fundamental.
A editora tem se firmado no mercado editorial com grandes lançamentos inéditos no Brasil, ou sem publicações há muitos anos, como o recente lançamento de Grundrisse. Existem outros projetos como esse?
Ivana Jinkings. Sim, acabamos de lançar uma nova edição das Memórias, do líder camponês e ícone da resistência à ditadura militar, Gregório Bezerra. Esse livro, com registros inéditos e em um único volume, encontrava-se esgotado há muitos anos. É uma honra para a editora recuperar e lançar luz sobre as memórias de Gregório, que inspirou gerações de militantes.
Um dos projetos centrais da Boitempo é a coleção Marx-Engels, que já conta com 12 títulos, entre os quais os Grundrisse, A ideologia alemã, A guerra civil na França. Estamos preparando a edição de Crítica do programa de Gotha (tradução, seleção e notas de Rubens Enderle), que será a única no mundo até hoje a publicar as atas do congresso de Gotha, em que se pode ver como os trechos criticados por Marx e Engels foram em parte modificados. Será material valiosíssimo para os estudiosos, que não se encontra nem em edições alemãs, com prefácio de Michael Lowy.
Outro próximo lançamento será As lutas de classes na França (tradução de Nélio Schneider), obra em que Marx analisa um período mais longo e movimentado da história francesa e generaliza experiências teoricamente importantes da Revolução de 1848/1849. Foi publicada pela primeira vez em 1850, como série de artigos.
Fora esses, iniciamos outra empreitada editorial e intelectual de peso: a tradução completa de O capital, pela primeira vez a partir do projeto alemão MEGA-2, com tradução de Rubens Enderle e supervisão editorial de Jorge Grespan, um dos maiores especialistas na obra econômica de Marx.
Como acontecem as escolhas para os tradutores dessas obras?
Ivana Jinkings. Trabalhamos com um time selecionado de tradutores, que no caso de Marx e Engels são também versados em marxismo. Temos procurado, de modo geral, manter tradutores fixos para cada autor, o que os familiariza com a linguagem, os temas tratados.
 
Quais são os projetos da editora para o futuro?
Ivana Jinkings. Seguir em linha reta, sem atalhos, sem abrir mão de princípios, ou da qualidade, para assim manter um público que nos é fiel e formar novos leitores. A cultura não se improvisa. Como bem disse Monteiro Lobato, “um país se faz com homens e livros”.
 
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