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Ulysses, de James Joyce, ganha nova (e ousada) tradução para o português

Por Luma Pereira
 
Um romance todo em apenas um dia. Assim é Ulysses, publicado em 1922 por James Joyce, um dos maiores escritores de língua inglesa que já existiu. A tradução para o português, porém, levou dez anos para ser concluída.
 
O tempo pode parecer grande, mas, para Caetano W. Galindo, tradutor e professor do curso de Letras da Universidade Federal do Paraná, foi um prazer passar esse período lendo e estudando essa obra do autor irlandês.
 
A nova tradução é a terceira a ser publicada no Brasil e se pretende “mais colorida, mais variada, mais engraçada, que respondesse mais diretamente aos diversos desafios do Ulysses”, conta Galindo.
 
Em entrevista ao SaraivaConteúdo, ele fala sobre como foi realizar esse trabalho – os desafios e prazeres de se passar uma obra de Joyce do inglês para o português. A tradução foi lançada pela Companhia das Letras em maio de 2012.
 
O que o motivou a realizar uma nova tradução de Ulysses, de James Joyce, considerado um autor “difícil”?
 
Galindo. Foi a minha vontade de ‘entender’ a fundo um livro que, num primeiro contato (e num segundo, e num terceiro…), percebi que não poderia ‘ler’ satisfatoriamente sem me dedicar mais detidamente a ele. Traduzir, aqui, para mim, foi o equivalente a desmontar um brinquedo preferido para ver como funciona, sempre torcendo para ele continuar funcionando depois!
 
O que você considera o diferencial da sua tradução em relação às outras duas que existem dessa mesma obra de Joyce?
 
Galindo. A tradução de [Antonio] Houaiss é heroica. Ele escreveu em um ano, sem quase nada do aparato crítico disponível nos dias de hoje. Ele é muito corajoso e inventivo quando necessário. A professora Bernardina [Silveira] tem muito do que ele não tinha, que é um contato mais profissional com a obra de Joyce. Ela provavelmente é a acadêmica com uma formação joyceana mais sólida no Brasil, e isso se reflete no privilégio que foi poder contar com a tradução dela. A minha? Hmmm… a tentativa foi unir a inventividade, mas sem peias do Houaiss e a solidez da professora Bernardina, numa tradução mais colorida, mais variada, mais engraçada, que respondesse mais diretamente aos diversos desafios do Ulysses.
Ofício do tradutor: quanto de seu próprio estilo você acabou colocando na tradução do texto?
 
Galindo. Quando eu dou de presente pra alguém um livro que traduzi, costumo escrever que aquilo é ‘um livro de fulano, escrito por mim’. E é isso. Uma tradução, em diversos sentidos muito importantes, foi escrita pelo tradutor. É ele o responsável pelas escolhas que definem o texto final, no miúdo. É claro que você tenta evitar que as tuas idiossincrasias penetrem demais o texto. Mas, para começo de conversa, é preciso ‘saber’ quais são elas! Mas o Ulysses que sai agora é meu. Tem a minha cara, alguns dos meus vícios e, espero, uma ou outra coisa que se avalie positivamente.
 
Caetano W. Galindo, tradutor da terceira edição brasileira de Ulysses
 
Quais são os principais desafios de se traduzir para o português um dos maiores escritores de língua inglesa que já existiram?
 
Galindo. Todos os de sempre, de todos os romances, só que em um grau elevadíssimo. O romance seguinte de Joyce, Finnegans Wake [em português: Finnicius Revém, publicado em 1939], apresenta desafios qualitativamente únicos. Ali, a própria noção de tradução precisa ser repensada. No Ulysses, é muito mais uma questão de grau. A experiência de se traduzir o Ulysses equivale a uma passagem por uns vinte romances. Eu tenho um colega que diz que gosta de pensar que seria possível dar um semestre de teoria da prosa na universidade usando apenas o Ulysses, sem livros de teoria e sem outros romances. Pra tradução é exatamente a mesma coisa.
 
Comente a experiência que você obteve realizando essa tradução e diga como você espera que será a repercussão do seu trabalho aos olhos dos leitores.
 
Galindo. A experiência? Dez anos de convívio com o maior romance do século. Foi genial. A repercussão? Eu te diria que ia ficar muito feliz se as pessoas se divertissem com este Ulysses. Achassem graça, se emocionassem, e que mal pensassem que isso foi possibilitado pela tradução. Tradutor de prosa, às vezes, é como juiz de futebol, ele mais acerta quando não chama atenção. E que uma ou outra pessoa ficasse satisfeita ao perceber uma ou outra solução mais feliz. Mas, acima de tudo, eu queria mesmo era que o livro vendesse muito, fosse muito lido. Que fizesse diferença…
 
Você pretende traduzir outras obras do escritor irlandês? Quais?
 
Galindo. Ainda estamos conversando. Mas a ideia no momento é fazer os outros livros pré-Ulysses, a médio prazo, e deixar, talvez, o Finnegans Wake como projeto de longo prazo.
 
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