Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 02.09.2011 02.09.2011

Troca-troca de editora ajuda a revitalizar a obra dos escritores, atrai mídia e conquista novos leitores

Por André Bernardo
 
Se o Brasil é o país do futebol, os grandes nomes da literatura brasileira são verdadeiros “craques de bola”. São tantos os “jogadores habilidosos” que é difícil escalar uma seleção só com 11. E, como futebol e literatura são duas das maiores paixões do brasileiro, alguns craques das letras, de vez em quando, também mudam de clube. Ou melhor: de editora. O caso mais recente é o do poeta gaúcho Mário Quintana. Depois de anos vestindo a camisa da Editora Globo, o autor de A Rua dos Cataventos, A Vaca e o Hipogrifo, e Antologica Poética teve o seu passe comprado pela Objetiva. Pelo timaço da editora já jogam, entre outros, João Ubaldo Ribeiro, João Cabral de Melo Neto e Carlos Heitor Cony.
 
Recentemente, a Objetiva anunciou a aquisição dos direitos sobre a obra do escritor gaúcho Mário Quintana. Ao todo, são 19 títulos: a grande maioria, de poemas, que serão relançados a partir de meados do ano que vem. “Quintana é um poeta obrigatório, essencial”, afirma a diretora editorial da Objetiva, Isa Pessôa. “Esperamos ampliar a presença do poeta nas escolas, apostando que o relançamento de sua obra nas livrarias, e também no formato digital, conquiste novos leitores para o lirismo irônico e a métrica perfeita de Quintana”, continua. A obra completa será publicada pelo selo Alfaguara. Mesmo assim, Isa pretende explorar novas possibilidades editoriais e publicar alguns títulos pelo selo Objetiva. “Esperamos incluir um volume de Quintana na coleção ‘Para ler na escola’. Criada há dois anos, a série tem alcançado extraordinário desempenho, sempre reunindo autores que são referência em seu gênero”, complementa Isa.
 

Ao que tudo indica, a poesia anda em alta no mercado. Editor da Companhia das Letras, Luiz Schwarcz fez um gol de placa ao adquirir a obra do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, que estava há 27 anos no Grupo Editorial Record. Pelo acordo firmado com os herdeiros de Drummond, a Companhia das Letras se compromete a publicar, em quatro anos, os 44 volumes que compõem o trabalho completo do escritor, que inclui, entre outros, A Rosa do Povo, Contos de Aprendiz e O Avesso das Coisas. A princípio, os primeiros títulos a serem relançados, a partir de 2012, ano que marca os 25 anos da morte do poeta, serão Lição de Coisas, de poesia, e A Bolsa e a Vida, de prosa. Como normalmente acontece em transações deste tipo, a nova editora promete novo projeto gráfico, concepção editorial inovadora e versão simultânea para e-book. Na seleção da editora, já estão Vinícius de Moraes, Jorge Amado e Érico Veríssimo.

Time dos sonhos
 
Nos últimos anos, o troca-troca de editora tornou-se frequente no mercado literário brasileiro. Em novembro de 2008, a escritora Lygia Fagundes Telles, uma das mais importantes do país, trocou a Rocco pela Companhia das Letras. Em abril de 2009, foi a vez de Rubem Fonseca transferir-se da Companhia das Letras para a Agir. Geralmente, as negociações no mundo das letras são intermediadas pela agente literária Lúcia Riff, que cuida pessoalmente da obra de 55 escritores brasileiros: de Luiz Fernando Veríssimo a Ariano Suassuna, de Rachel de Queiroz a João Cabral de Melo Neto, de Otto Lara Resende a Moacyr Scliar, um verdadeiro “dream team”. Há pouco, Lúcia passou a responder, também, pelas obras de Quintana e Drummond. Sobre os motivos que levam um escritor a trocar de editora, Lúcia tergiversa, com a habitual delicadeza e cordialidade: “Essas questões são muito delicadas e complicadas”.
 
 

Mário Prata
 
Autor de 19 livros, entre romances e crônicas, Mário Prata ajuda a desvendar algumas das “questões muito complicadas” que envolvem o mercado editorial. Desde que estreou na literatura em 1969, com O Morto que Morreu de Rir, Prata já mudou de editora algumas vezes. Em 1999, ele trocou a Globo pela Objetiva e, em 2008, a Objetiva pela Planeta. “Se você relança o livro pela mesma editora, ninguém percebe. Mas, se você troca de editora, o relançamento atrai mídia. Além disso, o autor tem a chance de rever a obra e retrabalhar o texto. Pessoalmente, mexo muito no que escrevi”, confessa. Até o momento, a Planeta já relançou Diário de Um Magro – 15 Anos num Spa, Schifaizfavoire e Mas Será o Benedito?.
 
Para o ano que vem, estão previstos os relançamentos de Minhas Mulheres e Meus Homens, Os Anjos de Badaró, James Lins e Minhas Tudo. “Mudar é sempre bom. Caso contrário, você vira móveis & utensílios da editora”, brinca Prata.
 
Recomendamos para você