Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 04.10.2011 04.10.2011

Trilhas sonoras cinematográficas: a ilustração musical

Por Luma Pereira
 
Quem não se lembra da música de Psicose (Hitchcock, 1960), quando Marion Crane (Janet Leigh) é assassinada na banheira? É inconfundível a melodia em Tubarão (Spielberg, 1975), quando alguém estava prestes a ser atacado no mar.
 
As trilhas sonoras cinematográficas marcam os filmes, e são relembradas posteriormente como o tema da produção, tornando-se populares. Além disso, são responsáveis por entreter os espectadores e dar o tom das cenas – sabemos que algo de ruim acontecerá à mulher na banheira e ao nadador.
 
Mesmo na época do cinema mudo, o silêncio nos filmes não era absoluto. Além dos diálogos escritos em legendas, as cenas tinham acompanhamento sonoro. As músicas não eram sincronizadas com as imagens, pois a tecnologia necessária para tal ainda tinha um custo elevado. Foi apenas em 1927, quando foi produzido O Cantor de Jazz (Crosland), primeiro filme do mundo a ser falado, que som e imagem entraram em simultaneidade.
 
Os estúdios tiveram que se adaptar e modernizar para rodar cenas com sons, e seguir a nova tendência. A partir de então, a trilha sonora passou a ser pensada para o cinema – além das falas das personagens, era preciso ter músicas tema.
 
Com a inclusão do som, a narrativa cinematográfica se desenvolveu. Agora as canções também ajudam a contar a história do filme, juntamente com as imagens. Essa associação cria a atmosfera da produção, despertando emoções nos espectadores. King Kong (Cooper e Schoedsack, 1933) foi uma das primeiras películas a ter uma trilha sonora propriamente dita, elaborada pelo compositor Max Steiner.
 
Ele também escreveu as músicas de …E o vento levou (Fleming, 1939), além de ter realizado a adaptação orquestral de “As Time Goes By”, escrita por Hupfeld, para Casablanca (Curtiz,1942).
 
A trilha do cisne preto-e-branco
 
Tchaikovsky, compositor russo, é autor do balé dramático O Lago dos Cisnes, apresentado pela primeira vez no Teatro Bolshoi, em Moscou, no dia 20 de fevereiro de 1877. Mas as músicas não ficaram guardadas no passado, foram reelaboradas para fazerem parte da trilha sonora do filme Cisne Negro (Aronofsky, 2010).
 
O responsável pela produção da obra foi Clint Mansell, cantor, guitarrista e compositor inglês. “Ele trabalha no mesmo registro de Tchaikovsky, ou seja, harmonias muito vivas”, explica Heitor Augusto, crítico de cinema. E completa: “Quando utiliza violinos, a trilha do filme se assemelha a que o russo compôs para o balé”.
 
Clint Mansell, criador da trilha de Cisne Negro
 
Mas a adaptação difere da original em alguns aspectos. “O britânico inclui elementos do suspense, geralmente com repetição de notas”, esclarece Augusto.
 
Ele acredita que hoje há uma confusão entre inspiração e cópia. “A dialética entre as composições é normal em música”, explica. Mansell não imitou o compositor russo. “A trilha sonora consegue intensificar a sensação do espectador e a dramaticidade das cenas de Cisne Negro”, comenta – essa é uma de suas funções.
 
Para Augusto, as músicas e as imagens remetem ao expressionismo alemão, com uso de sombras, enquadramentos e angulações assimétricas e a maquiagem exagerada das personagens.
 
Mansell era também vocalista e guitarrista da banda Pop Will Eat Itself. Quando esta acabou, em 1996, foi convidado pelo amigo Aronofsky para trabalharem juntos. Desde então, o diretor norte-americano costuma sempre pedir ao compositor que produza as trilhas sonoras dos filmes que realiza.
 
O inglês criou também os sons dos filmes Pi (1998) e Réquiem por um Sonho (2000). As músicas deste último acabaram virando hit e tema de propaganda, o que comprova a ideia de que as trilhas sonoras cinematográficas se popularizam e são relembradas até mesmo em outros contextos. O último trabalho que realizaram juntos foi Cisne Negro, cujas músicas Augusto define: “são elegantes e absorvem o espectador, só o deixando respirar quando acaba o filme”.
 
Mas nem sempre a função da trilha sonora é apenas exaltar a dramaticidade das cenas. Nas composições de Sérgio Ricardo para o filme brasileiro Deus e o Diabo Na Terra do Sol (Rocha, 1964), “as músicas são tão fundamentais quanto o trabalho de câmera”, conta Augusto.
 
A trilha adquire importância de personagem, de tão essencial que é para o entendimento da obra
cinematográfica – ela passa a de fato existir dentro da narrativa do filme. Em 2001: Uma Odisséia no Espaço é utilizada a música de Strauss. A trilha é não-diegética, ou seja, não pertence ao conteúdo da imagem, sendo retirada de contexto.
 
 
Seja no cinema mudo ou no falado, os sons sempre estiveram presentes nas produções – fazem parte do entretenimento. Pode ser Tchaikovsky a conduzir a orquestra na apresentação de bailarinos, na Rússia, em 1800 e tanto. Clint Mansell compondo para Nina, personagem interpretada por Natalie Portman em Cisne Negro, em 2010. Ou mesmo Chaplin e seus filmes mudos que não eram tão silenciosos assim.
 
O indispensável é ter a ilustração musical e levar um susto quando o som aumentar num momento de revelação. No final do filme, não são as cortinas que caem, como ocorre no desfecho de peças teatrais. No cinema, a telona escurece e o som da música aumenta.
 
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