Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 19.11.2012 19.11.2012

Trevas e o além-vida no elaborado mundo de Douglas MCT

Por Marcelo Rafael
 
Um rapaz perde seu ente mais querido – seu irmão – para a morte. Extremamente abalado, Verne Vipero descobre, por meio de um misterioso cigano, que seu irmão ainda não deixou de existir e que ainda pode ser salvo. Para tanto, o jovem terá que adentrar o fabuloso mundo de Necrópolis, onde, além da essência dos que já morreram, convivem monstros e outros seres místicos.
 
Além de local de trevas e aventuras, Necrópolis é também o título de uma saga em seis volumes do roteirista, designer gráfico e escritor Douglas MCT.
 
Lançado inicialmente pela Dracco em outubro de 2010, Necrópolis – A Fronteira das Almas ganhou uma nova versão, com acréscimos ao original, durante a Bienal do Livro de São Paulo (em agosto deste ano). “O diferencial [da nova edição] é trazer um mapa tridimensional, um glossário, notas do autor e o prólogo do livro 2. São alguns extras para o leitor que já havia comprado em 2010”, comenta Douglas.
 
O tema de terror e morte, o favorito do autor, já havia sido abordado antes em O Coletor de Almas, lançado em março deste ano durante a Odisseia Fantástica, evento literário de Porto Alegre. Seu terceiro livro este ano foi o segundo volume de Necrópolis, A Batalha das Feras.
 
Curiosamente, porém, antes dos romances de arrepiar, Douglas adicionou ao currículo roteiros para a Turma da Mônica e para a série de animação infantil A Galera Animal, produção da Nestlé em parceria com a Rede Globo.
 
Sobre essa trajetória ampla – do infantil ao terror – e sobre a elaboração de seus livros e mundos relacionados, o autor conversou com o SaraivaConteúdo.
 
Como surgiu a ideia de Necrópolis?
Douglas MCT. Em 2003 – já tem todo esse tempo mesmo – eu tinha três ou quatro ideias de histórias de fantasia bacanas, mas nenhuma delas, isoladamente, conseguia andar. Então, chegou um momento em que eu resolvi juntar alguns elementos dessas histórias. Só que faltava alguma coisa, faltava um gatilho nisso. E eu tenho um irmão, que tem 12 anos hoje, e eu sempre quis ter um irmão, aquela coisa… Pensei: “Putz, se ele morresse, o que seria de mim? O quê que eu faria?”. Aí, me veio essa ideia, a premissa do rapaz indo em busca do irmão no mundo dos mortos. Levei um ano pra escrever o livro inteiro.
 
A história se passa em uma cidadezinha da Itália. Por que a escolha desse local?
Douglas MCT. Eu criei uma cidade chamada Paradizzo, inspirada em Stilo, uma cidade lá do sul da Calábria, que é de onde vieram meus antepassados. Meu bisavô veio de lá. Meu pai já viajou lá pra conhecer, eu tenho o sonho de conhecer um dia. Eu quis homenagear os meus antepassados. A trama, de certa maneira, poderia se passar em qualquer lugar: no Brasil, no Japão… O livro – toda a série, na verdade – tem centenas de homenagens a amigos ou obras de que eu gosto, seja dando nome a algo, um apelido ou uma característica da personalidade. No próprio mapa, você vê nomes que remetem a algo.
 
Em O Coletor de Almas, você se valeu das lendas nórdicas e etruscas. Em Necrópolis, há todo um mundo novo, e um dos personagens vem do meio cigano. Quais foram as inspirações para a série?
Douglas MCT. Diferentemente de O Coletor de Almas, Necrópolis bebe de todas as mitologias, dependendo da necessidade. Mas, no caso do Elói, por exemplo, que é o homem que faz a chamada do Verne para a jornada, a minha referência foi o Morpheus, de Matrix, e o Mace Windu, de Star Wars, a nova trilogia. Eu estudei um pouco de exorcismo para escrever o prólogo do livro 1, alguns rituais. Estudei um pouco de tarô. Não sou um cara que consegue fazer uma leitura, mas estudei umas consultas na época [da escrita do livro]. No mais, tem influências da mitologia grega, nórdica – de várias – para criar alguns elementos.
 
De 'Turma da Mônica' ao mundo das trevas e ao fim do mundo. Douglas tem um viés literário amplo
 
Particularmente, quais são seus autores favoritos?
Douglas MCT. Phillip Pullman, principalmente pelo primeiro livro, A Bússsola de Ouro. Também sou muito fã de Neil Gaiman, mais pelos contos. Acho magnífica a forma como ele consegue tornar [algo] original, mesmo quando pega elementos que já existem. Ele dá um carimbo. Tem um nacional que eu gosto bastante, que é o Leonel Caldela, de Tormenta e de Deus Máquina. Eu acho um cara excelente, um herdeiro do George Martin, que eu descobri recentemente – faz um ano que eu li Guerra dos Tronos. Stephen King, pela Torre Negra, é outra influência. E, saindo da fantasia, o Dennis Lehane – Sobre Meninos e Lobos, A Ilha do Medo – pelo suspense. E o Henry James, por A Outra Volta do Parafuso. Foi o único livro que eu fiquei com medo, igual ver um filme de terror de qualidade. Fiquei realmente apavorado.
 
Você escreveu roteiros para a Turma da Mônica e para Galera Animal, e seus três últimos livros são de terror. Como é transitar por esses dois mundos tão diferentes?
Douglas MCT. Aprendi a ler com Turma da Mônica. Em 2005, depois de enviar centenas de roteiros, consegui ter o primeiro publicado na Mauricio de Sousa [Produções] e, desde então, publiquei algumas histórias por quase quatro anos. Já Galera Animal surgiu em 2010. São histórias extremamente infantis, pra crianças mesmo. Tendo um irmão criança, convivendo, eu gostaria que ele lesse ou experienciasse de alguma maneira. Mas não foi tão fácil migrar para a parte infantil. Com Turma da Mônica, você volta meio que pra infância. Já Necrópolis e O Coletor de Almas são coisas que sou eu mesmo. Tenho uma naturalidade com elementos sombrios por tudo que eu consumo de filmes, seriados, literatura, games, animações. Inclusive, estou com um projeto de fazer um livro infantil, para meninas, mas com elementos dark. Totalmente infantil, ilustrado. É a Pequena Górgona, que vai lidar com bullying e aceitação. Vai ser um desafio pra mim, porque agora vou lidar com esses dois mundos ao mesmo tempo.
 
Qual a contribuição que os autores brasileiros podem dar à fantasia e ao horror mundial?
Douglas MCT. Acho que o grande mérito do Brasil, do brasileiro, é essa coisa mestiça. A nossa literatura é mestiça. A minha literatura é mestiça. Você tem influência de muita coisa. Não é uma influência da sua cultura – que é uma cultura forte – a literatura consciente. Não tem, vamos dizer assim. Não estou desmerecendo o Machado [de Assis] nem ninguém. [A literatura] não é a principal cultura no Brasil. A gente importa e consome de tudo. Necrópolis tem influência de seriado, animação, quadrinhos, filmes. Não só de literatura.
 
A série tem toda uma produção elaborada: mapas, música, ilustrações, site. Como foi esse processo de criação? Há algo novo a vir por aí?
Douglas MCT. Das várias mídias, o cinema me influencia fortemente. A gente é da época do VHS, e quando surgiu o DVD, com extras, eu falei: “Nossa, que fantástico! Eu sempre quis saber o ‘por trás das câmeras’”. Então [para Necrópolis], pensei “Putz, seria fantástico se o livro tivesse uma música própria”. Eu nunca tinha visto nada parecido com livro. Então, em uma comunidade no Orkut, acabei conhecendo uma amiga [Ísis Fernandes] de Belo Horizonte que trabalhava com música. Ela adorou a ideia. Propus uma parceria e ela topou. De 2006, 2007, até o ano passado, ela lia cada capítulo do livro e concebia uma música. E agora eu venho colocando, semanalmente, cada música que ela concebeu no site [www.necropolissaga.com.br]. A outra ideia midiática foi o booktrailer: a mesma coisa de influência de cinema. Este ano, o MJ Macedo fez o booktrailer do Necrópolis, que engloba os livros 1 e 2. As ilustrações internas também foram feitas por ele. Foi uma ideia da editora, a Gabriela Nascimento, para dar um “tcham”. O mapa foi uma das coisas mais trabalhosas do artista. Foi um trabalho bem longo, cansativo, para acertar os detalhes. Tenho ainda o projeto Necrópolis Comics, que seria em quadrinhos, e o de contos também, as Crônicas de Necrópolis. São essas as ideias.
 
Booktrailer de Necrópolis, por MJ Macedo, com trilha sonora de Isis Fernandes:
 

 
 
 
 
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