Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 20.12.2013 20.12.2013

Três autores juvenis relembram presentes de Natal inesquecíveis

Por Marcelo Rafael
 
Natal é época de solidariedade, amor, amizade e, principalmente, família. E não se pode esquecer dos presentes, é claro. Eles também fazem parte da festa e simbolizam as oferendas dadas pelos Três Reis Magos ao Menino Jesus, tradição perpetuada por São Nicolau Taumaturgo, arcebispo de Mira, que distribuía aos pobres sua riqueza herdada.
O objeto em si é bacana, mas a história por trás dele pode ser ainda mais. Por isso, neste Natal, três autores de livros juvenis contam para o SaraivaConteúdo sobre os presentes que marcaram a sua infância e que refletiram em suas vidas na idade adulta.
Um livro em uma família sem o hábito da leitura; um presente caro em uma época de carestia, que inseriu uma criança em um novo mundo de fantasia; e um disco de vinil com letras proibidas em uma época de censura. São histórias narradas por alguns dos expoentes da literatura juvenil nacional.
CAROLINA MUNHÓZ
“Foi no Natal de 2001. Eu tinha uns 12 anos, mais ou menos, e foi a época em que estava começando meu vício pela literatura”, relembra Carolina Munhóz, autora de O Inverno das Fadas e Feérica, entre outros.
"Pottermaníaca" assumida, a escritora credita ao bruxinho e a Paulo Coelho seu gosto por livros e também a inspiração de sua carreira. Mas os títulos da série Harry Potter custavam caro. “Eu só podia ler os de amigos, e chegava uma hora em que ficava insuportável, porque tinha que ficar pedindo para os mesmos amigos 10 mil vezes, para poder ler várias vezes”, brinca.
Eis que, no dia 25 de dezembro daquele ano, Carolina saiu gritando pela casa ao abrir o pacote dado por uma tia. A Pedra Filosofal, A Câmara Secreta, O Prisioneiro de Azkaban e o Cálice de Fogo estavam lá.
“Minha família nunca teve o hábito de ler. Então, para eles, esse tipo de reação era algo estranho. ‘Por que essa menina está tão empolgada com um livro!?’”, relembra. “Sendo que minhas primas estavam empolgadas com brinquedos, com outros tipos de coisas”, completa.
Não eram apenas livros que estavam ali, mas também um ideal, um modelo de vida. “Minha tia sempre teve condições melhores na família. Ela sempre foi motivo de inspiração para mim porque viajava, conhecia o mundo, era independente”, conta a autora, que, aos 12 anos, tentava mil maneiras para arranjar dinheiro e comprar a coleção. “Só que… com 12 anos, você não trabalha, né? Fica difícil”, ri.
RAPHAEL DRACCON
Se Harry Potter inseriu Carolina em um mundo de fantasia e magia, uma tecnologia hoje ultrapassada fez o mesmo com seu marido Raphael Draccon no Natal de 1991. “Foi quando eu ganhei um Master System, que era o videogame de 8 bits que era o grande lançamento da época”, afirma.
O país passava por uma crise econômica após os mal-sucedidos planos Bresser, Verão e Collor, e tal presente era para poucos. Aos 9 anos e vestido com uma roupa de ninja que havia ganhado de aniversário, meses antes, o escritor ouviu de seu pai que havia algo perto da escada.
“Eu subi para ver e, quando virei, estava lá o pacote com o Master System”, conta Draccon. Aí, foi só alegria. “Comecei a pular, a agarrar meu pai, essas coisas. 'Caraca', primeiro presente caro que eu ganhei na minha vida!”, ressalta Draccon, que ainda lembra do jogo Alex Kidd in Miracle World.
"Nesse tempo a gente jogava Atari, né? E aquilo ali [Master System] foi a entrada numa nova geração, embora hoje já esteja tão ultrapassado…", completa ele, que recorda com carinho até da "musiquinha" do game.
“[O presente] traz essa lembrança da entrada num mundo de entretenimento que foi muito importante até na minha profissão”, comenta o autor de Dragões do Éter, livro que tem referências a jogos como Final Fantasy e Chrono Trigger.
 
Raphael Draccon e Carolina Munhóz
PAULA PIMENTA
Em 1984, ainda se ouvia música em discos de vinil e a banda Blitz estourava nas paradas de sucesso com hits como “Você não Soube Me Amar”.
Paula Pimenta, então com 10 anos, mesmo tão criança, quis um disco da Blitz. E tanto fez que conseguiu na noite de Natal. “Fiquei muito feliz. Até coloquei para tocar na vitrola na hora”, lembra. Até hoje, a autora das séries Fazendo Meu Filme e Minha Vida Fora de Série, que citam e brincam muito com músicas, mantém o álbum.
Mas algo deu errado logo em seguida. “Para minha grande decepção, as duas últimas faixas estavam muito arranhadas, riscadas mesmo. Era impossível escutá-las”.
Com os últimos respiros da Ditadura Militar no país, a censura ainda trazia seus despautérios. Sem saber e pensando ser um defeito só de seu disco, Paula foi com mãe à loja, para tentar uma troca. “O vendedor explicou que na própria capa, em letras pequenas, estava escrito que aquelas faixas haviam sido censuradas”, explica.
E o motivo da censura ter causado os arranhões? Nada de mais. Porém, a escritora foi saber só depois de adulta que se tratava de algo na faixa "Cruel, Cruel Esquizofrenético Blues".
“Um palavrão e uma frase de sentido meio dúbio em uma letra que hoje em dia parece até canção infantil em comparação com o que a gente anda escutando por aí: ‘Você mandou embora numa cena feia, depois da ceia na noite de Natal. Só porque ela pegou no peru do seu marido, peru de Natal…”, detalha Paula.
Músicas, brinquedos bacanas, grandes livros, a presença de um ente querido ou simplesmente boas notícias são presentes – materiais ou não – que podem transformar o Natal em algo inesquecível. Você se lembra do seu?
 
 
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