Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 10.11.2011 10.11.2011

Traduções de livros: até que ponto elas são fiéis ao estilo do autor?

Por Luma Pereira
Na imagem, Tolstói
 
A palavra “saudade”, em português, é considerada uma das mais difíceis de traduzir. O termo não existe na língua inglesa, diz-se “I miss you”. Isso mostra como é complicado realizar traduções de livros, pois cada idioma tem suas particularidades culturais e fonéticas. Além disso, os autores têm um estilo próprio de escrever.
 
Como, então, passar do alemão para o português? Sem falar no russo, grego e árabe, que utilizam outro alfabeto, diferente do nosso. Poucos poderiam ler Dostoievski e Homero se não fossem os profissionais que traduzem esses textos.
“Ganhamos o acesso a uma obra que, do contrário, não poderíamos ler senão depois de anos de estudo de uma dada língua”, afirma Rubens Enderle, tradutor de obras de Marx e Engels diretamente do alemão.
Paulo Bezerra, tradutor de O Duplo, afirma que traduzir é recriar na língua de chegada aquilo que o autor criou com dimensões filosóficas, históricas, antropológicas e psicológicas na língua de partida. “Não se trata de escrever um novo livro nem adaptá-lo”, comenta.
 
“Dostoievski via o mundo profundamente conflituoso, duro, áspero, de difícil compreensão, o que se reflete na linguagem dos seus romances”, diz Bezerra. E completa: “então, é isso que procuro captar e recriar como estilo do autor”.
 
Trajano Vieira traduziu Odisseia (Editora 34), poema épico, direto do grego. “Procuro estar atento às diferentes características da linguagem original, no plano da sintaxe e no âmbito vocabular, no que concerne à musicalidade”, afirma.
 
Livro Odisseia
 
“Os termos navais que Homero usa com precisão me deram algum trabalho a mais, assim como encontrar soluções para palavras compostas que ele emprega”, diz. Não classificou o processo como fácil ou difícil, e sim como um desafio constante.
 
Direto do original
 
Os tradutores não consideram as línguas menos conhecidas – como russo e húngaro – mais difíceis de passar para o português. “Prefiro traduzir do russo, que é totalmente diferente, do que do espanhol, pois não corro o risco de cair nas armadilhas das aparentes semelhanças entre frases do espanhol e do português”, diz o tradutor de O Duplo.
 
Uma boa tradução não deve deixar o leitor perceber que está lendo algo traduzido – o texto tem de fluir naturalmente. É preciso ter cuidado com as diferentes épocas para não modernizar o texto nem arcaizá-lo com termos rebuscados. “O tradutor também é escritor, usa seu talento individual para recriar um produto alheio”, diz Bezerra.
 
Entretanto, Enderle discorda. Para ele, as línguas latinas, por serem semelhantes à nossa, tornam o trabalho do tradutor menos penoso. “O alemão, muito mais do que as línguas latinas, conservou uma enorme riqueza lexical”, diz. E completa: “A língua alemã pode expressar mais traços e nuances da realidade do que as outras”.
 
Mas por que só recentemente foram lançadas essas traduções diretas? Cide Piquet, editor da Editora 34, explica que um dos motivos é o fato de as traduções indiretas fatalmente reproduzirem os erros que a primeira tradução possa ter cometido.
 
“As grandes obras literárias resistem até a traduções indiretas, desde que razoavelmente boas, mas uma boa tradução direta será sempre muito superior”, comenta Piquet.
A 34 realiza traduções diretas do russo, pois “o interesse pela literatura da Rússia cresceu muito no Brasil na última década”, afirma o editor. O trabalho de Bezerra com O Duplo faz parte de um projeto de traduzir todos os grandes romances de Dostoievski.
 
Piquet conta que Bezerra teve o cuidado de deixar essa obra do autor russo para traduzir após já ter passado muitos textos de Dostoievski para o português, pois assim conseguiria adquirir mais familiaridade com o estilo dele.
 
Ivana Jinkings, diretora editorial da Boitempo, diz que, desde a criação da editora, em 1995, são publicadas apenas traduções diretas. Ela afirma que o interesse por passar esses livros diretamente do idioma original para o nosso “não é de agora”.
 
Além de Marx e Engels, a Editora também já traduziu obras de Lenin e Trotsky diretamente do russo. Em 2012, eles planejam passar para o português os escritos do poeta húngaro Attila Joseff. A Boitempo procura manter tradutores fixos para cada autor, já que isso “os familiariza com a linguagem e os temas tratados”, conta Ivana.
 
Marcas na tradução
 
Muitas vezes, o tradutor se coloca no livro, sendo inevitável que este contenha um pouco de seu estilo. “Perde-se fundamentalmente certa visão de mundo que é própria de cada língua”, diz Paulo Schiller, tradutor de obras diretamente do húngaro, como O legado de Eszter (Companhia das Letras), de Sándor Márai.
 
“O estilo é o próprio homem”. Essa frase de Georges-Louis Leclerc, o conde de Buffon, escritor francês do século XVIII, define bem os desafios de traduzir livros. Não há como o tradutor eliminar sua participação no texto, mas é conveniente que coloque a essência do idioma original em evidência.
 
“Tudo o que se é, sobretudo tudo o que se lê, acaba deixando marcas na linguagem de um autor, tradutor ou não”, conclui Vieira. E Enderle completa: “O que importa é que o tradutor saiba se submeter às exigências do próprio texto, que aceite sua condição de mediador entre o autor e o leitor e não queira usurpar o lugar do autor”.
 
Bezerra define: “traduzir é penetrar nas intenções mais recônditas do autor, auscultando sua linguagem, sondando as linhas e entrelinhas do discurso do narrador e das falas das personagens para recriar os sentidos às vezes camuflados nas infindas formas de dizer”.
 
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