Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 16.01.2012 16.01.2012

Traços de ilustradora: Tatiana Paiva fala sobre a vida e a profissão

 
Por Luma Pereira
 
Caixas com tecidos, papéis, canetinhas, lápis de cor, tintas… É assim o ateliê de Tatiana Paiva, ilustradora formada em Desenho Industrial pela FAAP. Nesse ambiente em sua casa, bastante iluminado e cheio de livros, trabalha como freelancer criando desenhos.
 
Tatiana gosta de desenhar desde a infância. Os pais sempre a estimularam muito, o que fez com que esse interesse crescesse ainda mais. “Tinha um muro no fundo do quintal, dava para fazer pintura coletiva, era sempre divertido”, recorda.
 
Mas foi só tempos depois que a ilustradora deixou de desenhar apenas por lazer e decidiu fazer disso sua profissão. Pensou que seria bióloga ou veterinária, “mas nunca imaginei que eu fosse ser ilustradora”, afirma.
 
 
Já trabalhou com comunicação visual – produtos e sites. “E quando uma amiga escritora começou a se envolver com ilustrações infantis, eu passei a me aproximar da literatura infantojuvenil”, diz.
 
Então, montou o primeiro portfólio e fez o primeiro livro: Os Bichos e os Seus Caprichos, de Fabiano Onça, da Melhoramentos. Depois vieram outras obras infantis, além de trabalhos para revistas como a Casa & Jardim e campanhas de publicidade.
 
“Como eu trabalhei esse tempo todo com comunicação visual, usei todo esse conhecimento que tive para ajudar nas minhas ilustrações”, comenta. Hoje, ela é ilustradora profissional e adora trabalhar com literatura infantil.
 
Traço, desenho, ilustração
 
Em dezembro de 2011, foi lançado o livro O Rato e o Alfaiate, de Milton Célio de Oliveira Filho, pela Brinque-Book. É o terceiro trabalho de Tatiana para essa editora, após A História Mais Longa do Mundo, de Rosane Pamplona, e Fuzarca, de Sônia Rosa.
 
O processo criativo dos desenhos de O Rato e o Alfaiate foi como o dos outros livros. “Eu fico com o texto na cabeça por um tempo, começo a desenhar os personagens e desenvolvo a história colocando os desenhos no papel”, conta.
 
Ilustração de O Rato e o Alfaiate
 
Tatiana começa a desenhar as cenas em preto e branco, a lápis. Em seguida, passa a caneta e manda para a editora avaliar. Algumas vezes, o autor acompanha o processo; em outras, ele só vê o resultado final, já impresso.
A ilustradora conta que isso ocorre para que não haja uma intervenção direta na criação do artista. Porém, às vezes, ela conversa com o autor para pedir sua opinião e entender melhor o que ele imaginou para aquela história.
 
Também gosta de pedir a opinião das crianças, que são o público-alvo desses livros. Ela conta que, quando foi ilustrar A Dona da Bola e a Dona da História, de Heloisa Prieto, da Ática, teve de pedir ajuda aos sobrinhos.
 
Esse livro tinha de ter ilustrações como as das crianças, pois uma das personagens desenhava. E é difícil para um adulto desenhar assim, então ela teve de conversar e se inspirar no desenho dos sobrinhos para conseguir realizar o trabalho.
 
Quando a editora vê os esboços e aprova, Tatiana pode começar a colori-los e trabalhá-los. “A parte mais trabalhosa é o colorido, porque envolve pintura, escolha de materiais, a montagem do trabalho. E, depois, isso volta para o computador ou é fotografado”, diz.
 
Ilustração de O Rato e o Alfaiate
 
Os desenhos de O Rato e o Alfaiate demoraram três meses para ficarem prontos. Ela fez pranchas no formato A3, com mais ou menos 40 x 30 cm, e usou tinta acrílica. Depois, as colagens com papel e tecidos foram fotografadas e as imagens digitalizadas.
 
O visual da história
 
É fundamental que um livro infantil tenha ilustrações, pois, assim como o texto, elas também contam a mesma história, mas de outra maneira. Para Tatiana, esse é o maior desafio: “ter de dar vida e cor aos personagens, concretizar a história com imagens”.
 
E, além da narrativa do livro, é preciso colocar ali humor, sensibilidade e sutileza. “Meu estilo é muito colorido. Tento sempre ver o tema da história, seleciono os materiais e as cores. E, então, conto nas imagens como eu senti aquele enredo”, conta.
 
Sua principal característica é utilizar cores e colagens, num processo chamado técnica mista. “As colagens são quase sempre reais: tudo bem artesanal, uso panos, tecidos e tintas”, diz.
 
“Isso te leva a um mundo lúdico, onde, por exemplo, bichos usam roupas, conversam, sonham…”, garante. E completa: “ilustrar um livro infantil é como se você estivesse dentro de um sonho”.
 
O que ela gosta nas colagens é que o uso de determinado material acaba despertando sua própria imaginação. Uma tampinha de garrafa que utiliza ali para fazer a ilustração pode se tornar, no desenho, uma roda, um nariz ou o sol.
 
“Tenho prazo para entregar as ilustrações dos livros, o texto para seguir, um livro para ilustrar, com começo, meio e fim. Mas isso não deixa de ser uma diversão”, comenta. No tempo livre, costuma ir ao cinema, viajar e se encontrar com os amigos. E também gosta de desenhar por desenhar.
 
Ilustração de O Rato e o Alfaiate
 
Os acontecimentos do cotidiano servem de inspiração para sua arte: “de um bom poema ou filme pode surgir uma ideia, uma cena. A inspiração vem todo dia e toda hora. Gosto muito de ficar esboçando, deixar fluir alguns desenhos e depois usar ou não”, afirma.
 
Futuramente, tem vontade de realizar três desejos. Fazer um livro só de imagens, sem texto; um que seja interativo, “com espaço para a criança participar do conteúdo”, diz. E também um livro com materiais reciclados.
 
Em O Rato e o Alfaiate, os desenhos parecem mesmo de verdade. É preciso tocar as ilustrações das páginas para ter certeza de que as roupas do alfaiate são de fato apenas imagens dentro da ficção.
 
 
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