Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 17.05.2012 17.05.2012

Tostão: de jogador a cronista

Por Marcos Fidalgo
Em fevereiro de 1973, o olho esquerdo de Tostão não era mais compatível com o futebol.
 
Uma inflamação na retina obrigou o então meia de 26 anos do time do Vasco a abandonar preventivamente a carreira, quase três anos depois de ter conquistado no México a Copa do Mundo com a seleção brasileira.
Com aquele apito final prematuro, sem acréscimos nem prorrogação, o mineiro de Belo Horizonte foi fazer carreira em outros campos.
Em 1981 se formou médico, e em 1995 começou a publicar em jornais suas primeiras crônicas, sempre relacionadas ao universo do futebol. São algumas dessas publicações que ele unifica no livro A Perfeição Não Existe, reunião de textos escritos por mais de uma década para o jornal Folha de S. Paulo.
Para escrever as crônicas, Tostão mesclou as experiências como jogador e psicanalista (área em que se especializou). Suas análises envolvem as táticas e as torcidas, os pés e as cabeças, o homem e o atleta.
O Cronista/ A Técnica
As primeiras palavras de Tostão na imprensa não saíam tão fáceis como os chutes iniciais. “Antes de me tornar colunista esportivo, não tinha o hábito de escrever. Mas sempre gostei de ler, desde a adolescência”, relatou Tostão na apresentação do livro.
 
Mais adiante ele explica: “Aprendi a escrever escrevendo, lendo os colunistas da Folha e de outros jornais. Cada um tem seu estilo. Aprendi com todos eles.”
Entre os jornalistas lidos por Tostão estavam Nelson Rodrigues, Armando Nogueira, Juca Kfouri (que assina o prefácio do livro), Fernando Calazans, José Geraldo Couto e José Roberto Torero, responsável por alertá-lo sobre o excesso de orações adversativas – que expressam um pensamento que se opõe com o anterior – em seus textos.
Hoje, ‘homem feito’ na imprensa esportiva, Tostão observa as evoluções em sua escrita ao longo dos anos: “Melhorou o português, me livrei de muitos vícios e tento, cada vez mais, tentar ser claro. Às vezes, é muito difícil escrever o que quero dizer”, confessou ele, em entrevista concedida ao SaraivaConteúdo.
A Marcação
Se alguns colegas de jornalismo jogaram ao lado de Tostão como irmãos mais velhos que indicam macetes do jogo, outros fizeram marcação cerrada e por vezes desleal pelo fato dele não ter vindo das categorias de base da imprensa.
 
“Na introdução do livro, relatei o caso de um radialista que duvidava que fosse eu quem escrevia minhas crônicas. Ainda existe preconceito, mas não é frequente.”
A Armação
As ideias para um texto chegam de diferentes ângulos para Tostão. “Penso em um assunto ou, algumas vezes, vai por associação livre. Uma coisa gera a outra, que gera a outra, e não para."
O prazo, cão de guarda que late no ouvido de muitos jornalistas, cutuca Tostão de quatro em quatro anos, no corpo a corpo da Copa Mundial de Futebol. “É quando tenho que escrever todo dia. Fora isso, tenho mais tempo para elaborar o texto, por não trabalhar tanto em outras áreas da mídia.”
 
A tabela de Tostão com o tempo permite a ele armar sua crônica com a serenidade com que pensava suas jogadas. “Diferentemente de um texto jornalístico, em que o autor senta e escreve, escrevo minhas crônicas aos poucos. Vou lendo, pensando, riscando, até ficar pronta.”
O maior reconhecimento de Tostão na imprensa veio em 2010, quando recebeu o Prêmio Comunique-se como melhor jornalista esportivo de mídia impressa. “Fiquei contente, mais ainda por não ser um jornalista”.
Para o futuro, Tostão planeja cair mais pelos flancos da ficção. “Gostaria de tentar escrever um livro só com contos relacionados ao futebol. Pretendo tentar.”
 
 
 
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