Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 30.11.-0001 30.11.-0001

Tóquio dos anos 2000 pelas lentes do cinema

Por Regiane Ishii
 
Yasujiro Ozu, Akira Kurosawa, Kenji Mizoguchi. Há muitas décadas o Japão é retratado pelos mestres do seu cinema. Seduzidos por um tom exótico das tradições japonesas e jogando com certas imagens futuristas evocadas pela capital Tóquio, diversos diretores estrangeiros também se aventuraram na filmagem da cidade.
Sem grandes pontos turísticos, a imagem de Tóquio que fisga seus visitantes é permeada pelo fascínio do simples andar. Nada se compara às caminhadas desorientadas por galerias subterrâneas que ligam as maiores estações de metrô do mundo. Ou por um parque repleto de cerejeiras, flor tipicamente japonesa.
Assim como ocorrido anteriormente com Paris e Nova York, Tóquio integrou os anos 2000 como uma cidade cinematográfica por excelência. Selecionamos oito filmes dessa recente produção:
 
1. Encontros e Desencontros, Sofia Coppola, 2003
Provavelmente o filme mais lembrado quando pensamos em Tóquio no cinema contemporâneo, o terceiro longa-metragem escrito e dirigido por Sofia Coppola mostra os parênteses vividos por Charlotte (Scarlett Johansson) e Bob (Bill Murray). Nesta história de amor em que tudo o que acontece são passeios pela cidade e conversas no hotel, a paisagem urbana é elemento primordial para o deleite dos extraordinários momentos compartilhados. Pela janela do carro em movimento ou pela vista privilegiada de seus quartos, os insones Charlotte e Bob são arrebatados por neons, placas com ideogramas indecifráveis e o movimento fascinante da cidade. O hotel Park Hyatt e o cruzamento de Shibuya, pontos mais famosos, dividem a tela com ruelas, salas de karaokê, restaurantes e pequenos espaços que formam o tesouro a ser descoberto pelo visitante em Tóquio. Uma estreita porta em uma travessa qualquer pode levar o estrangeiro de poros abertos a lugares nunca antes imaginados. Composto muito mais por climas, contemplações e lacunas, o roteiro escrito por Sofia levou o Oscar e conquistou admiradores mundo afora. Sob as guitarras melancólicas de My Bloody Valentine e Jesus and Mary Chain, Tóquio é uma cidade linda e estranha que potencializa as conexões de outro modo impossíveis no país para o qual Charlotte e Bob sabem que, um dia, terão que voltar. 
 

 
2. Stupeur et Tremblement, Alain Corneau, 2003
Inspirado no livro homônimo e autobiográfico de Amélie Nothomb, o filme se debruça sobre o mundo corporativo japonês por meio das experiências vividas pela autora no início dos anos 90. Nascida no Japão por conta do trabalho de seu pai diplomata, Amélie retorna sozinha ao país para trabalhar como intérprete em uma grande empresa. Aqui, o universo dos “salarymen” e a luz fria dos escritórios invadem as projeções românticas da garota que sonhava com as imagens de outro Japão. O rígido e conservador ambiente que Amélie encontrou também pode ser conhecido em Medo e Submissão.
3. Babel, Alejandro González Iñárritu, 2006
O último filme da trilogia iniciada por Amores Brutos e 21 Gramas também subverte a construção linear do tempo e do espaço. Desta vez, Marrocos, México e Japão aparecem interligados por histórias vividas pelo estrelado elenco composto por Brad Pitt, Cate Blanchett e Gael García Bernal. No segmento japonês, Rinko Kikuchi ganhou uma indicação ao Oscar como melhor atriz coadjuvante por sua interpretação da adolescente Chieko. Uma arma que havia sido do seu pai foi utilizada em um suspeito caso de terrorismo no Marrocos. A investigação policial os insere na rota dos engendramentos do longa. Surda-muda, a personagem vive uma experiência sensorial expandida pelos estímulos de Tóquio. Habitante da cidade, Chieko não deixa de se maravilhar, pela janela do trem, com o acender dos neons no início do anoitecer. Sob o efeito de bebidas, ela e seus amigos tomam um banho de luz no cruzamento de Shibuya e seguem para um clube de música eletrônica. A Tóquio de Babel é a paisagem urbana que extravasa signos visuais, cidade diante da qual ninguém pode sair ileso. Não por acaso, a sequência final do filme parte da sacada do apartamento de Chieko rumo a um arrebatamento com a vista noturna da cidade inteira.
4. Tokyo!, Joon-ho Bong, Leos Carax e Michel Gondry, 2008
Seguindo o exemplo de produções realizadas em outras cidades, como Nova York e Paris, Tokyo! reúne em um mesmo filme a visão de diferentes diretores. Em “Interior Design”, de Michel Gondry (Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças), um jovem casal tenta acertar sua relação. Enquanto ele quer se tornar um diretor de cinema, ela começa a viver uma bizarra transformação em seu corpo. “Merde”, do francês Leos Carax (Sangue Ruim), apresenta uma misteriosa criatura que causa pânico pelas ruas da cidade. O destaque fica por conta do último segmento, “Shaking Tokyo”, dirigido por Joon-ho Bong (O Hospedeiro), um dos principais nomes do cinema sul-coreano contemporâneo. Seu protagonista é um “hikikomori”, ou seja, um recluso que se isola em casa. Quando uma jovem entregadora de pizzas cai em seu apartamento durante um terremoto, ele se vê obrigado a encarar o mundo exterior.

 
5. Hanami – Cerejeiras em Flor, Doris Dörrie, 2008
Após a morte de sua mulher, o alemão Rudi parte em direção ao lugar que ela sempre desejou conhecer e hospeda-se na casa de seu filho em Tóquio. A partir daí, empreende a missão de apresentar o Japão à sua falecida esposa. Amante das artes japonesas, ela nutria uma admiração especial pela dança butô, difundida nos dias de hoje principalmente por Tadashi Endo, que faz participação no filme. Os tons rosados e suaves dominam as imagens da viagem de Rudi, que inclui alguns dos principais cartões postais do país, como o florescimento das cerejeiras e o monte Fuji. Hanami se conecta com os principais elementos do imaginário coletivo ocidental que cerca o Japão, e é por meio deles que Rudi tem o privilégio de viver seu período de luto em harmonia.
6. Map of the Sounds of Tokyo, Isabel Coixet, 2009
O filme da diretora espanhola Isabel Coixet (Minha Vida Sem Mim) tem como fio condutor a trágica história de amor vivida entre uma japonesa e um espanhol. Sergi López interpreta David, um comerciante que se mudou para Tóquio para viver com sua esposa. Porém, ela comete suicídio. Já Ryu, vivida pela atriz Rinko Kikuchi, trabalha no famoso mercado de peixe Tsukiji e também é matadora de aluguel. Contratada para matar David, ela acaba se apaixonando pela suposta vítima. Por repetidas vezes, David e Ryu se encontram no quarto de um motel que recria o interior de um vagão de metrô. Esse e outros elementos povoam a sombria fantasia do submundo de Map of the Sounds of Tokyo.
7. Enter the Void, Gaspar Noé, 2009
Dois minutos e meio bastam para Enter the Void hipnotizar o espectador. A eletrizante sequência dos créditos de abertura foi eleita como a melhor da história do cinema por Quentin Tarantino. Do mesmo diretor do polêmico Irreversível, o filme apresenta Tóquio sob o ponto de vista de Oscar, um traficante de drogas que é morto pela polícia. A câmera subjetiva é mantida mesmo após a sua morte, e assim enxergamos a cidade por seu olhar reencarnado. Por meio dele, podemos adentrar o universo underground e também sobrevoar os prédios. Acompanhando as imagens da metrópole, Gaspar Noé criou sequências de alucinações que misturam pós-morte e drogas. Integrante da seleção oficial do Festival de Cannes de 2009, Enter the Void foi definido por seu diretor como um melodrama psicodélico. 

 
8. Like Someone in Love, Abbas Kiarostami, 2012
O último filme da lista ainda não foi lançado comercialmente. O iraniano Abbas Kiarostami (O Gosto da Cereja) apresentou sua mais recente realização no Festival de Cannes deste ano. Nela, Tóquio é cenário para a história de amor entre uma estudante e um velho professor.
 
 
Recomendamos para você