Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 16.10.2017 16.10.2017

Toquinho fala sobre os tempos em que compunha com Vinicius de Moraes

Por Júlia Bezerra
“A vida, amigo, é a arte do encontro”. Foi com esse disco – uma homenagem a Vinicius de Moraes gravada na Itália, em 1969 – que a história da parceria entre Toquinho e Vinicius começou. Toquinho gravou o violão, mas não chegou a “esbarrar” com Vinicius. Os artistas só se conheceram em 1970, quando o poeta, impressionado com o talento do violonista, chamou-o para tocar em uma turnê na Argentina.
Os dois pegaram um navio – Vinicius tinha medo de avião – e deram início ao que viria a ser uma duradoura amizade. “Houve de cara uma adaptação perfeita entre a gente, porque tudo que Vinicius gostava de fazer eu também gostava: tocar violão, curtir os temas da atualidade, comer bem e viver a noite ao lado de amigos e mulheres bonitas”, lembra Toquinho, que era um rapaz de 24 anos, sendo que Vinicius já chegava aos 57. “Eu o via como um irmão, porque Vinicius não sabia ser velho”.
Nos dez anos de parceria, a dupla criou mais de cem canções, gravou perto de 25 discos e fez mais de mil shows no Brasil e no exterior. Em homenagem ao centenário de Vinicius, o SaraivaConteúdo entrevistou Toquinho, que falou sobre os tempos em que era parceiro do “poetinha”. Confira:
Quando foi chamado para tocar com Vinicius de Moraes, você acreditava que a parceria seria duradoura?
Toquinho. Chegamos a Buenos Aires dois dias antes da final da Copa [do Mundo de Futebol] de 1970. Minha relação de amizade e conhecimento com Vinicius já se iniciou em meio ao clima positivo da seleção ganhando a Copa, nosso show em pleno sucesso e aqueles jantares invadindo a madrugada. Ainda não tinha saído nenhuma música nessa primeira viagem, mas voltei com uma sensação gostosa. Nossa parceria só começaria dois meses depois, com a música “Como Dizia o Poeta”. Logo em seguida, surgiram “A Bênção, Bahia” e “Mais um Adeus”. Mas, apesar disso, não imaginava que fosse tomar o impulso que tomou e chegar até onde chegou.
Tem alguma música de sua parceria com Vinicius que você considere especial?
Toquinho. “Tarde em Itapoã”. Vinicius fez a letra e ia dar para o [Dorival] Caymmi musicar. Um poema lindo, perfeito. Era a oportunidade de fazer uma melodia que não deixasse nenhuma dúvida quanto à minha capacidade musical. Aí, simplesmente “roubei” a folha de papel da máquina de escrever, vim para São Paulo e após três dias voltei para Salvador com a canção pronta. Depois de ouvir inúmeras vezes, Vinicius aprovou. Pela qualidade melódica que consegui, fiz parecer que o poema tinha sido feito em cima da melodia. Foi aí que ganhei o poeta!
Do que você mais sente saudades em Vinicius?
Toquinho. Dos papos descontraídos invadindo as madrugadas. De desfrutar daquela inteligência rara, da sua disposição para a vida, sempre sem bloqueios e com muita intensidade. O que mais me toca é a ausência do amigo.
                                                                                               Crédito/ Macos Hermes
O cantor Toquinho
O que a parceria com Vinicius lhe acrescentou como músico?
Toquinho. Antes de tudo, a autoconfiança, pois passei a ter como parceiro não um letrista comum, mas Vinicius de Moraes! Eu entrava numa galeria privilegiada da música popular brasileira, composta de músicos como Baden Powell, Carlos Lyra e Tom Jobim. Antes de trabalhar com Vinicius, já fazia uma música simples, harmoniosa, agradável ao ouvido. Quando comecei a compor com ele, essa característica acentuou-se, porque Vinicius não tinha medo do “lugar comum”. Além do mais, o poeta era mestre em usar a palavra exata para cada acorde. Aprendi a valorizar esse detalhe, tão importante na composição final. Fora outras facetas ligadas à música, como o melhor jeito de comandar um espetáculo, escolher repertório, tratar o público.
Você diria que Vinicius o completava como músico?
Toquinho. Vinicius é o poeta letrista que todo músico procura. No nosso caso, começamos a trabalhar no momento certo para ambos. Trocamos vivências: eu o estimulei com a experiência da juventude num momento em que ele precisava de um músico jovem que seguisse com ele de uma maneira solta e livre. E eu necessitava da juventude da experiência dele, com fome de poesia, sempre pronto a se renovar e desafiar o tempo.
Vocês tinham ciúmes um do outro?
Toquinho. Quando começamos a trabalhar, era como se eu tivesse ganhado a exclusividade de Vinicius, esbanjando criatividade e prazer a cada canção que nascia. Produzíamos intensamente, gravávamos muito, fazíamos shows por todo o país. Não havia tempo para “traições”. Ao longo da parceria, fiz músicas com outros parceiros e, como era costumeiro em Vinicius, ele sempre revelava algum ciúme, mas isso era contornado pela grande amizade entre nós.
Qual era a maior qualidade e o maior defeito de Vinicius?
Toquinho. Sua maior qualidade era a generosidade. Quanto ao maior defeito, talvez fosse aquele de não aceitar o defeito da vida, que transforma a cor do amor ao longo do tempo. Vinicius não perdoava a vida por isso, e se machucou tantas vezes na busca constante da própria paixão… Para ele, a paixão devia ser perene.
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