Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 14.12.2012 14.12.2012

Tolkien cria universos fantásticos na literatura e Peter Jackson os transporta para o cinema

Atualizado em 17/12/2012
 
Por Luma Pereira
 
“Vou-me embora para Pasárgada”, já dizia o poeta. Mundo imaginário aos olhos de Manuel Bandeira – já que Pasárgada foi mesmo uma cidade Persa –, esse lugar ficou famoso por ter promessas de felicidade. 
 
Alice, de Lewis Carroll, entra na toca do coelho ou vai através do espelho para encontrar outro universo, em que lagartas fumam narguilé e gatos somem, deixando restar apenas o sorriso. E basta entrar no guarda-roupa para encontrar Nárnia, de C. S. Lewis.
 
Mas, de todos os universos da imaginação, um se destaca: a Terra Média, de J. R. R. Tolkien, onde há reis, elfos, orcs e hobbits. Nos livros O Hobbit e O Senhor dos Anéis, o autor nos leva, por meio da literatura, para esse mundo de fantasia.
 
Mas o cinema também quis emprestar esse lugar mágico cheio de surpresas: existem adaptações de O Senhor dos Anéis e, em 14 de dezembro, estreia nos cinemas o primeiro filme da trilogia que conta a história anterior à saga do Um Anel.
 
O Hobbit: Uma Jornada Inesperada é sobre quando o mago Gandalf (Ian McKellen) mais 13 anões convidam o hobbit Bilbo Bolseiro (Martin Freeman) para se aventurar na Terra Média. A missão deles é recuperar o reino de Erebor e os tesouros dos anões, roubados pelo dragão Smaug.
 
Na trama, Bilbo acaba encontrando, por acaso, o Um Anel – sim, o mesmo que desencadeia, posteriormente, a trilogia de O Senhor dos Anéis. Uma das cenas de O Hobbit: Uma Jornada Inesperada mostra Bilbo no instante em que ele consegue o anel com a criatura Gollum (Andy Serkis).
 
Cena de 'O Hobbit – Uma Jornada Inesperada'
 
É importante ressaltar que esse mundo da Terra Média, criado por Tolkien na literatura e que ambienta as histórias da trama, não é um espaço de escape, e sim de autoconhecimento. 
 
“É o que vemos no mundo simbólico, o que somos em essência. Não é fugir do que nós somos na nossa verdadeira natureza”, explica Rosa Sílvia López, autora do livro Tolkien e Senhor dos Anéis: O Poder Mágico da Palavra.
 
“É uma obra que inspira valores universais. Mesmo as estruturas míticas criadas por Tolkien expressam sentimentos tão humanos como os de qualquer um de nós”, comenta Larissa Carvalho, que realizou uma dissertação de mestrado sobre os leitores do autor.
 
NUM BURACO NO CHÃO VIVIA UM HOBBIT
 
John Ronald Reuel Tolkien nasceu na África do Sul, em 1892, e morreu em 1973, na Inglaterra. Foi escritor, professor universitário em Oxford e filólogo britânico. 
 
Quando publicou O Hobbit (1937) e, depois, O Senhor dos Anéis (1954), gerou polêmica entre os acadêmicos, devido ao fato de os livros serem ficcionais e terem virado best-sellers.
 
“Nunca foi pretensão dele que os livros se tornassem algo público. Começou como história para os filhos dele”, conta Rosa. Estudioso de História medieval, gostava muito de mitologia. Por isso, o universo que criou é cheio de seres mitológicos e inventados.
 
“Ele costumava dizer que faltava uma mitologia da Inglaterra, que a Inglaterra vivia de mitologias de outros países. E foi isso que ele buscou construir, de uma forma coerente”, comenta a autora. 
 
Chegou a ser convocado para a Primeira Guerra Mundial, mas logo teve de voltar, pois não aguentou o absurdo daquilo tudo. Para Rosa, essa experiência pode ter servido de base para ele compor seu universo da Terra Média, em especial o mundo dos orcs.
 
Além disso, para criar esses mundos, ele buscava inspiração dentro de si mesmo e na grande paixão que tinha pela cultura celta. “Costumava dizer que algumas palavras são mágicas só pelo som – é o que ele sentia em relação ao galês”, afirma Rosa.
 
Tolkien mencionava a palavra inglesa “cellars doors”, que significa “porta da adega”; um significado banal, porém com uma sonoridade que ele considerava valiosa, mágica, sonora, musical.
 
Esse mundo fantasioso e também os outros citados acima têm algo em comum: as histórias nos transportam não apenas para outro espaço, mas para outro tempo. Apesar de ser um universo tão diferente, ele conversa, de maneira simbólica, com aquele em que vivemos.
 
“Em minha pesquisa, os jovens citam valores que encontram na obra O Senhor dos Anéis que os encantam, como lealdade, amizade, fidelidade, representados pela Sociedade do Anel, no livro, ou pela amizade dos hobbits Frodo e Sam”, diz Larissa.
 
Cena de 'O Hobbit – Uma Jornada Inesperada'
 
FELLOWSHIPS OF BRASIL: AFICIONADOS
 
Aos 14 anos, Rosa López ganhou o livro de presente de uma amiga da escola, que o comprou em liquidação – era o volume dois. Ao contrário do que se pensa, O Senhor dos Anéis não é uma trilogia – foi dividido em três partes devido a questões de mercado.
 
No Brasil, a primeira tradução para o português foi publicada pela Editora Arte Nova e tinha seis volumes. Só depois que a Martins Fontes passou a publicar a versão que existe ainda hoje, dividida em três livros.
 
“Em termos gerais, os leitores são sujeitos em sua maioria jovens, de uma faixa etária que vai até os 30 anos de idade, apreciadores da literatura em geral, mas especificamente da literatura de fantasia”, afirma Larissa.
 
E completa: “Eles leem intensivamente, ou seja, repetidamente as mesmas obras de J. R. R. Tolkien. Alguns relatam que já leram os três volumes completos do livro O Senhor dos Anéis mais de 10 vezes”, garante a pesquisadora.
 
Existe um culto à obra de Tolkien. Na Inglaterra, a Tolkien Society, e, no Brasil, a Federação Tolkiendili Brasileira, que reúne vários outros grupos, como o Valinor e o Conselho Branco.
 
“O advento da internet possibilitou que vários leitores de Tolkien espalhados pelo mundo pudessem se encontrar de dentro de seus quartos com pessoas de todos os lugares do planeta. Foram criadas comunidades em redes sociais, sites especializados, blogs sobre Tolkien e o universo por ele criado”, comenta Larissa.
 
Fundado no dia 7 de setembro de 2000, o Conselho Branco é uma sociedade para estudos e divulgação da obra de Tolkien, subdivida em regionais pelos estados brasileiros (essas regionais são chamadas de “Tocas”). 
 
O objetivo é divulgar a obra do autor no Brasil e torná-la um referencial sobre literatura e mitologia. Para tal, promovem encontros, eventos e projetos.
 
Cena de 'O Hobbit – Uma Jornada Inesperada'
 
J. Estel Santiago, membro da Toca São Paulo desde 2003 (ao entrarem no grupo, as pessoas recebem apelidos, como “Estel”), começou a gostar de Tolkien aos 14 anos de idade, quando viu o filme de Peter Jackson.
 
“Saí do cinema embasbacado, porque nas telas via um amálgama de tudo que eu esperava de uma história épica, medieval e que envolvesse magia. Ou seja, via diante de mim o ápice da fantasia”, relata.
 
Em poucos dias, comprou o livro e, apenas uma semana depois, chegava ao final do terceiro volume, O Retorno do Rei
 
“Vejo que a obra de Tolkien, assim como os mitos, versa sobre as potencialidades e as relações humanas: esperança, coragem, amor, fraternidade, medo, conflitos”, diz Estel.
 
E completa: “ler Tolkien é aprender sobre o ser humano e como a cada dia podemos ser pessoas melhores”.
 
Sobre O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, as expectativas de Estel quanto à ‘ambientação’ do cenário Terra Média foram supridas a contento. “Cenas e diálogos convergem para que o espectador se sinta no mundo criado por Tolkien”, diz. 
 
“Várias das cenas apresentam diálogos ipsis literis à obra, o que mostra a atenção e o carinho da adaptação para quem é fã. Um ou outro ‘deslize’, mas que podemos levemente perdoar, face o incrível trabalho criado”, completa ele.
 
Edson de Lima, historiador e membro da Valinor, também começou a ser fã de Tolkien depois de ter assistido às produções de Jackson. Faz sete anos que Edson relê, uma vez por ano, todos os livros do autor editados no Brasil.
 
“Os filmes, apesar de apresentarem muitas mudanças em relação à história original, conseguiram captar e transmitir a essência, ou o espírito, da Terra Média. Nas obras literárias tudo é muito mais complexo e muito bem amarrado e acabado”, comenta.
 
Para Lima, é essa profundidade histórica dentro da trama, aliada aos idiomas élficos, entre outros, criados por Tolkien, e às personagens complexas e arquetípicas, que justificam o enorme sucesso das obras.
 
Poster de 'O Senhor dos Anéis'
Cena de 'O Senhor dos Anéis'
 
O Hobbit é o livro escrito por J. R. R. Tolkien preferido do historiador, que esta ansioso para ver como ficou a adaptação para as telonas. “Quero muito rever meus personagens favoritos, reviver suas aventuras numa outra mídia, mas, ao mesmo tempo, estou temeroso com as possíveis intervenções na história que possam ser desnecessárias”, diz.
 
Lima ressalta que uma adaptação bem-sucedida não precisa recriar tintim por tintim o conteúdo do livro, mas é preciso se concentrar em temas e personagens-chaves, pois aí reside a fidelidade com a obra escrita pelo autor. 
 
João Antônio Madalosso Junior, fã que escreveu um trabalho sobre Tolkien, afirma querer vivenciar o mundo tolkieniano por meio das imagens cinematográficas. “Assim como os livros proporcionaram-me uma aventura e uma viagem, acredito que os filmes também o farão”, comenta.
 
Já Rosa Sílvia López não criou muitas expectativas em relação ao longa. “A meu ver, a linha do filme continuará a ser esta: a opção pelo cinema comercial e, ao ver destes produtores, a verdadeira revelação do mito não é atraente ao grande público”.
 
A adaptação cinematográfica da trilogia O Senhor dos Anéis já foi muito bem-sucedida. Resta saber se seu prelúdio – que se passa 60 anos antes –, O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, seguirá o mesmo caminho.
 
 
 
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