Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 11.03.2011 11.03.2011

Todos os sotaques do Fino Coletivo

Por Bruno Duarte
Foto de Tomás Rangel

O encontro de oito compositores, em meados de 2005, entre churrascos, feijoadas, cervejas e cachaças, deu origem ao Fino Coletivo. A composição do grupo indicava um caminho, uma ponte entre a música de Alagoas e os sons do Rio de Janeiro. Característica que além de se mostrar na composição do grupo, ficaria mais clara ainda no disco Fino Coletivo (Dubas/Universal), lançado em 2007. O trabalho deu ao coletivo o troféu APCA de grupo revelação do ano. Três anos depois, e com mudanças em sua formação, eles lançaram Copacabana (Unimar) – igualmente elogiado por fazer jus ao nome e, como o bairro carioca, costurar diferentes estilos em um clima leve e descontraído. Na mistura, samba, groove e bossa nova em letras cheias de poesia com uma levada do funk – que em muito lembram o sambalanço de Jorge Ben Jor e conversam com o som setentista dos Novos Baianos, de quem regravaram “Swing de Campo Grande”.

É esse clima praieiro que Alvinho Cabral, um dos vocalistas da banda, explica a escolha do nome do segundo disco do Fino Coletivo. “O disco se chama Copacabana por alguns motivos. Tem os mais óbvios, que é o fato da banda toda, em dado momento, estar morando no bairro. Isso já seria o suficiente. O estúdio também era lá. Copacabana tem essa onda de misturar várias etnias, vários sabores, sons. Eu acho que o disco, por ser um coletivo de compositores, tem essa característica de unir várias sonoridades, vários sotaques. Copacabana tem essa onda. Sem contar que o disco tem também essa energia de praia, uma coisa de sol, veio a calhar com todos esses motivos. Sem contar que é um nome bonito, define bem a música brasileira. Tem suingue”.

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Foi no bairro democrático, contornado pelo mar e abraçado pelas favelas do Pavão-Pavãozinho, Morro dos Cabritos e Ladeira dos Tabajaras, que o grupo fechou o ano de 2010, como uma das atrações da tradicional festa da virada do ano na orla do Rio de Janeiro. O coletivo voltou às areias cariocas no final de janeiro, desta vez no Parque Garota de Ipanema, na praia do Arpoador, onde bateram um papo com o SaraivaConteúdo. “A gente está ficando especialista em tocar na praia. Foi uma experiência nova pra gente, tocar no réveillon, no bairro onde a gente nomeou o disco. É emblemático. Fechamos e abrimos o ano com chave de ouro. E agora tocar aqui no Arpoador, uma delícia. Antigamente, rolavam altos shows aqui, a galera vinha, no mesmo horário, no pôr-do-sol. Acho que tem que ter todo ano”, diz Alvinho Lancellotti. “Aqui foi um cenário onde começou o Circo Voador. Várias bandas começaram aqui nos anos 1980”, completa Daniel Medeiros.
 
Pelo Fino Coletivo já passaram o alagoano Wado e o carioca Marcelo Frota, que hoje encabeça o projeto musical MoMo. Antes de começarem a produzir o segundo disco, Donatinho (teclados) se juntou ao grupo que hoje traz em sua formação Alvinho Lancelloti (voz), Adriano Siri (voz), Alvinho Cabral (violão e voz), Daniel Medeiros (baixo e voz) e Rodrigo Scofield (bateria). A trupe é mais uma das independentes que suaram a camisa para alcançar o reconhecimento nacional de público e crítica. Deste cenário, apontam na impensada cena musical alternativa de Maceió as bandas Coisa Linda, Mofo e Divina Supernova. “A cultura ainda é uma coisa que recebe pouco investimento no Brasil todo. Em Alagoas então… A música alagoana é muito rica, vim de lá – e não é só por causa disso, sei que é – e é muito difícil as coisas chegarem aqui. É difícil em todos os lugares, quanto mais em Alagoas. O Nordeste é muito rico. Recife virou um pólo representativo da música nordestina, os olhares se viraram mais para lá, que é realmente um lugar que produz muita coisa boa”, diz Alvinho Cabral.

A falta de infra-estrutura e de iniciativas governamentais para o aquecimento do mercado fonográfico são apontadas pelos integrantes da banda como as principais dificuldades para o surgimento e estabilização de profissionais da música. A carência se expressa de maneira mais forte nas cidades que estão fora das rotas dos grandes shows e festivais, ainda que independentes, mas não deixam de atingir aos grandes pólos de consumo de música. “Você não precisa ir muito longe. Na zona Sul [do Rio de Janeiro], hoje em dia, você não tem lugar para tocar. Casa de show de médio porte? Na zona Sul não tem, você tem que ir para a Lapa. Acaba que você tem que ficar sempre por lá. Outro dia até me perguntaram: ‘Vocês fazem parte desse movimento da Lapa?’ Não. A gente está mais presente lá porque falta mesmo. Isso aqui no Arpoador é uma oportunidade rara. Você tocar aqui, de graça, é uma oportunidade de mostrar o seu trabalho para pessoas que talvez não conheçam”, completa Lancellotti.

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