Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 12.03.2013 12.03.2013

“Toda Poesia” resgata obra completa do cachorro louco

Por Maria Fernanda Moraes
 
“Cachorro louco” foi autointitulação. Depois, pelos críticos, foi sendo carinhosamente apelidado de samurai malandro, caipira cabotino, polilíngue paroquiano cósmico, caboclo polaco-paranaense, beatnik caboclo. Em sua breve carreira de escritor (estreou na poesia em 1976 e faleceu em 1989, a poucos meses de completar 45 anos), Paulo Leminski ocupou uma zona fronteiriça única na poesia contemporânea brasileira, sempre se equilibrando entre o erudito e o pop, o formal e o prosaico.
 
Toda Poesia, lançado pela Companhia das Letras, chega para reiterar o valor do artista depois de 24 anos de sua morte. Na apresentação da obra, Alice Ruiz, poeta e companheira de Leminski por anos, valida essa vivência. “Este livro é antes de tudo uma vida inteira de poesia. Curta, é verdade, mas intensa, profícua e original”, diz.

O volume resgata a trajetória poética completa do autor curitibano, desde clássicos como Distraídos venceremos e La vie en close, passando por raridades como Quarenta clics em Curitiba, até versos já fora de catálogo. Estão lá o haikai, a poesia concreta, o poema-piada oswaldiano, o slogan e a canção.

 
Leyla Perrone-Moisés, professora da USP e autora de um dos importantes ensaios sobre Leminski que aparecem no apêndice de Toda Poesia, conversou com o SaraivaConteúdo sobre esse lançamento. “É um grande acontecimento na literatura brasileira, e que já devia ter ocorrido há mais tempo. A morte de tanta virilidade deve ser mentira. Como digo no ensaio: Leminski pingou um poema em nosso olho e passou”.
 
Criadora do famoso epíteto “samurai malandro”, Leyla conheceu o poeta no início dos anos 80, em Curitiba, e conta que mantiveram contato nos últimos anos de vida dele. Ela explica a origem do cognome. “Ele é samurai em seus caprichos e malandro em seus relatos. É um malandro da linguagem”. No melhor estilo leminskiano, a professora reitera: “Para bom entendedor, meia palavra raspa; e para bom gozador, uma piscada basta”. Segundo ela, do rio de palavras, Leminski se ri, e à verborragia desatada ele pede, exigente, um momento de silêncio. “Leminski já foi e já voltou, e quem não percebe a inteireza de suas meias palavras ainda nem saiu de casa”, afirma no ensaio.
 
O sucesso do poeta com as gerações mais novas se deve a essa precisão de palavras? Em tempos de redes sociais e imediatismos, a ensaísta afirma: “Acho que esse sucesso se deve ao fato de que estas novas gerações, acostumadas com as mensagens breves e pobres, se espantam ao ver como um ‘tweet’ pode conter tanto significado”.
 
A editora responsável pelo título, Sofia Mariutti, se assume parte da legião de fãs do escritor. “A verdade é que desde o momento em que o Luiz [Schwarcz, fundador da Companhia das Letras] mencionou que faríamos a obra poética completa do Leminski, fiz tudo o que pude para ser a editora do livro. Ele foi o primeiro poeta de que gostei, uma porta de entrada para a poesia. Acho que para um editor não há nada melhor do que revisitar essas velhas paixões e fechar ciclos”.
 
O bigode, símbolo do escritor, ilustra a capa do livro. Os poemas gráficos de Caprichos & relaxos também foram reproduzidos
 
Sofia também contou sobre o projeto gráfico da obra. A capa, por exemplo, traz um dos símbolos do poeta. “Achei a opção do bigode na capa muito acertada: é extrapoética e concentra a estética personalíssima de Leminski. No miolo, a artista Elisa V. Randow trouxe a ideia dos pingos de nanquim para separar poemas numa mesma página, resgatando a influência oriental que é tão determinante para a obra de Leminski”.
 
Alguns dos livros traziam na sua publicação original a junção dos poemas com fotografias e imagens, como é o caso de Quarenta clics em Curitiba. Sofia explicou que uma boa reprodução das fotos encareceria muito o projeto, e a ideia era torná-lo mais acessível. “A Alice também confirmou o que o Leminski dizia no prefácio do livro: os poemas eram anteriores às imagens, aquele foi um diálogo que se estabeleceu ali, para aquele projeto, mas não havia relação de dependência entre imagens e os textos. Mas fizemos questão de reproduzir os poemas gráficos de Caprichos & relaxos, porque são constitutivos, determinantes para aquela poesia concreta que Leminski fazia na época”.

A editora também falou sobre o processo de organização dos poemas, que contou com a colaboração direta de Alice Ruiz. “Para começo de conversa, a Alice nos enviou seis livros: Quarenta clics em Curitiba, Caprichos & relaxos, Distraídos venceremos, La vie en close, O ex-estranho e Winterverno. Depois, pedi a ela para ver os originais de Polonaises e Não fosse isso e era menos, não fosse tanto e era quase, edições independentes que foram incluídas em Caprichos & relaxos, e foi aí que me dei conta de que nem todos os poemas dessas edições caseiras saíram na edição da Editora Brasiliense. Resolvemos então reuni-los na última seção, Poemas esparsos. São poemas praticamente inéditos”.

 
Além de poeta, Leminski era também compositor, e muitos de seus poemas foram musicados. Várias dessas canções aparecem no livro, como "Verdura", que foi gravada por Caetano Veloso. Mas, segundo Sofia, o catálogo das canções ainda não está pronto. “Pelo que a Alice me disse, é muito mais coisa do que podemos imaginar. A Estrela, filha deles, está trabalhando nisso”. No posfácio da obra, o crítico e compositor José Miguel Wisnik, que já musicou poemas de Leminski, fala sobre essa vertente cancionista do poeta.
 
Assista ao booktrailer do lançamento Toda Poesia em que Arnaldo Antunes lê Paulo Leminski:
 
 
 
 
 
Paulo Leminski
Cia. das Letras
 
 
 

Paulo Leminski
Cia. das Letras

 
 
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