Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 14.09.2012 14.09.2012

Tinha que ser o Chaves mesmo!

Por Thaís Ferreira
 
Um programa de televisão que foi gravado entre 1971 e 1992, retransmitido até hoje de forma incessante e sem se tornar obsoleto. No enredo, a rotina de um menino órfão que vive em uma vila humilde e convive com os outros moradores do lugar.
Os diálogos e as ações são uma mistura de comédia pastelão com crítica aos costumes. Os bordões que se repetem já fazem parte das conversas cotidianas. O Chaves já se tornou parte do imaginário coletivo brasileiro.
Escrita pelo mexicano Roberto Gómez Bolaños, a história de seu personagem mais famoso se mistura à do criador nas páginas do livro Chaves – A História Oficial Ilustrada.
No Brasil, a obra foi lançada pela Editora Universo do Livro, que tumultuou os corredores da Bienal do Livro ao trazer o ator Edgar Vivar – o Sr. Barriga da série – para autografar a publicação.
O evento fez parte das comemorações “América Celebra a Chesperito”, organizadas pela emissora de televisão mexicana Televisa e que acontecem simultaneamente em 11 países.
FOI SEM QUERER QUERENDO
Apesar de o título se referir ao personagem, a biografia é realmente dedicada a narrar a vida e as várias facetas de Bolaños como ator, escritor, comediante, diretor e compositor.
No começo da vida, ele sonhava em ser jogador de futebol profissional; na juventude, desejava ser boxeador. Iniciou a faculdade de engenharia e largou após dois anos de curso. E, sem querer querendo, se descobriu como roteirista, enquanto trabalhava em uma agência de publicidade.
 
Capa da obra Chaves – A História Oficial Ilustrada
 
Seu senso de humor e sua originalidade o levaram a seu primeiro trabalho no Cómicos y Canciones Adams, na década de 1960. Primeiramente, ele apenas escrevia para o programa, mas posteriormente começou a fazer suas primeiras pontas como ator.
Em sua primeira experiência no cinema, no filme Los Legionarios, de 1958, ganhou a alcunha que o acompanharia durante a vida: Chesperito, versão em espanhol para uma expressão que significa “pequeno Shakespeare”.
Entre os anos de 1970 e 1980, ele criou seus esquetes mais famosos, como El Chómpiras (Chaveco), Chaparron Bonaparte (Pancada Bonaparte), Doutor Chapatín, El Chapulín Colorado (Chapolin Colorado) e El Chavo del Ocho (Chaves).
Chaves – A História Oficial Ilustrada também retrata a vida pessoal do artista: pai de seis filhos, com fama de brigão e mulherengo. Bolaños se casou duas vezes, a segunda com Florinda Meza, a Dona Florinda do seriado.
TODOS ATENTOS OLHANDO PARA A TV
 
A série mexicana começou a ser transmitida no Brasil no dia 28 de Agosto de 1984, como parte do programa do Bozo. O país foi o último da América Latina a receber as comédias de Chesperito, e esse fato é atribuído à barreira da linguagem, que devia ser modificada para o português. A popularidade do seriado foi crescendo durante os anos e conquistando um público diverso e fiel.
O esquete de Bolaños foi tema de diversos estudos, entre eles uma tese de conclusão de curso de Fernando Thuler e Luís Joly, que se transformou no livro Chaves: Foi sem quer querendo?, da Matrix Editora.
Admiradores da série, eles se desafiavam em curiosidades sobre a turma da vila. A brincadeira virou um estudo sério, que analisa as especificidades dessa comédia. “Chaves subverte a ordem televisiva. Hoje, vemos programas com grandes orçamentos e que rapidamente saem do ar. Com um baixo investimento e com cenário muito simples, o programa permanece no ar durante todos esses anos”, explica Thuler.
O sucesso é tamanho que a atração é transmitida de forma praticamente ininterrupta durante esses 28 anos, e qualquer possibilidade de suspensão gera protesto de seus fãs.
Esse êxito não é localizado e, pelo contrário, se espalha pelo mundo. Como notou o autor do livro: “Algo que me surpreendeu durante a pesquisa foi descobrir o universo do Chaves fora do Brasil. Eu sabia que eles faziam sucesso na América Latina. Mas me espantei ao saber que eles tinham feito um show no Madison Square Garden com lotação esgotada”.
ISSO, ISSO, ISSO
Mas o que explica um triunfo tão duradouro? Parte dos fãs acredita que a escolha do elenco teve papel fundamental nisso.
Ramón Valdés (Sr. Madruga) era um ator mexicano consagrado; María Antonieta de Las Nieves (Chiquinha) era atriz e dubladora da Televisa; Carlos Villagrán (Quico) era fotógrafo profissional que sonhava em ser comediante; Florinda Meza (Dona Florinda) era atriz e cantora.
Angelines Fernández (Dona Clotilde) foi considerada uma das mulheres mais bonitas do México em sua juventude e ficou famosa como atriz de novelas; Rubén Aguirre (Professor Girafales) era locutor de rádio, toureiro, ventríloquo e diretor de televisão; e Edgar Vivar era ator de radionovela. A união desses grandes talentos individuais teria sido uma das grandes responsáveis pelo sucesso.
Thuler aponta para outra possibilidade: “Durante a pesquisa, conversei com psicólogos e educadores. Eles acreditam que a popularidade de Chaves pode ser atribuída à sua comédia atemporal. O humor do programa é similar ao do circo: cabe em qualquer contexto social e para todos os tipos de público. Então, o sucesso vai do Brasil até a Rússia. Por isso, considero Bolaños um verdadeiro gênio do humor”.
 
 
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