Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 17.09.2013 17.09.2013

The Boss está a caminho

Por Andréia Martins
 
Bruce Springsteen tinha apenas oito anos quando ficou alucinado por uma música pela primeira vez. Era Elvis Presley. Na TV em preto e branco da família, na casa em Long Branch, em New Jersey (EUA), ele assistiu ao cantor enquanto esperava seus comediantes preferidos aparecerem no The Ed Sullivan Show, programa de variedades que ia ao ar aos domingos na rede CBS. Foi ali que Bruce percebeu que a música seria seu caminho.
O início não foi como o esperado já que tirar um som parecido com música no seu primeiro violão – alugado pela mãe – não foi tão fácil. Todo o percurso até tornar-se ídolo em seu país e fora dele é contado pelo jornalista Peter Ames Carlin na biografia Bruce, recém-lançada no Brasil, com exclusividade pela Saraiva. Um detalhe torna o livro mais interessante: foi a primeira biografia do cantor que contou com a colaboração do próprio Bruce. “Não disse nada em particular para que ele cooperasse comigo, mas passei muito tempo pesquisando e entrevistando amigos e pessoas próximas e isso teve um grande impacto sobre Bruce”, conta Peter em entrevista ao SaraivaConteúdo.
Por não gostar de falar muito da vida pessoal, a colaboração de Bruce dá ao livro um atrativo a mais, com revelações que só o próprio cantor poderia dar. "O primeiro dia em que me lembro de ficar olhando para o espelho e suportar o que estava vendo foi o dia em que eu tive uma guitarra nas mãos", comenta Bruce quando fala da importância do instrumento para se reconhecer e afirmar quem ele era.
Da vida pessoal, o leitor também conhecerá mais sobre os bastidores de shows e gravações do The Boss, apelido cunhado pelo próprio Bruce. “Uns podem chamá-lo assim, outros não. É complicado. Mas está tudo no livro”, diz Peter.
A atual turnê, que chega ao Brasil este mês (dia 18 em São Paulo – SP, e dia 21 no Rock in Rio – RJ), 25 anos depois de sua última passagem pelo Brasil, acaba de ser eleito o melhor show do ano pela edição americana da revista Rolling Stone. “Bruce sempre imprimiu níveis quase sobre-humanos de energia em seus shows, mas sua atual turnê, ‘Wrecking Ball’, é uma das mais emocionantes”, justifica a publicação.
 
Capa da biografia de Bruce Springsteen
O próprio Peter revela que foi depois de assistir a um show ao vivo em 1978, pela turnê do disco Darkness on the Edge of Town, que se tornou fã de The Boss. “Foi uma noite incrível para mim”, lembra. Na entrevista a seguir, ele conta um pouco mais sobre Bruce Springsteen.
Ser um fã do biografado mais ajudou ou atrapalhou o seu trabalho? Como você equilibrou isso?
Peter. Balanceei meus longos anos de fã de Bruce e de seu trabalho mantendo a mente focada no meu livro. Descrever ele em termos de super-herói sempre me pareceu sem sentido. Adoro muito o seu trabalho e gostei de conhecê-lo, mas eu tinha um livro a fazer e queria fazê-lo da melhor forma.
 
Você se lembra de quando se tornou fã de Bruce?
Peter. Em 1978, quando Darkness on the Edge of Town [quarto disco de Bruce] saiu. Comprei o álbum e depois assisti Bruce e a E Street Band em um show em Seattle, Washington (EUA), em 20 de dezembro de 1978. Foi uma grande noite para mim e meu fascínio e apreço pelo trabalho dele nunca mais desapareceram.
 
Uma biografia mostra diferentes lados de um ídolo. No caso de Bruce, ele se incomodou em falar das relações mais tensas com ex-namoradas e do rompimento com a E Street Band?
Peter. Acho que ele estava interessado em falar sobre estes assuntos. Ele nunca gostou de ser visto como um super-herói – como ele me disse: “Quando as pessoas falam de mim desse jeito eu me sinto diminuído”. Em seu trabalho e em seu dia a dia, ele vivencia as complexidades da vida e da luta interminável para ser a melhor versão de si mesmo.
 
Bruce mantém distanciamento de algum disco ou de uma fase específica de sua carreira?
Peter. Nós nunca falamos sobre isso em particular, mas ele certamente mantém uma distância do disco Tunnel of Love, que fala sobre seu casamento e a separação de sua primeira mulher, a atriz Julianne Phillips. É um álbum muito austero e autobiográfico, e descreve um momento em sua vida que ele se comportou de uma forma que ainda lamenta. O disco foi um sucesso, se não me engano, com pelo menos três singles em paradas de sucesso, mas você raramente o vê tocando essas músicas no palco. Tirem suas próprias conclusões…
 
Se você tivesse que listar três discos fundamentais de Bruce, quais seriam?
Peter. Wooh!, essa é uma pergunta difícil, porque eu diria que são cinco discos necessários para trabalho ficar bem feito. São eles:  The Wild, the Innocent and the E Street Shuffle (1973), Born to Run (1975), Darkness on the Edge of Town (1978), Nebraska (1982) e Wrecking Ball (2012).
 
A E Street Band toca com Bruce desde o início dos anos 1970. Qual a importância desses músicos para a carreira dele?
Peter. Eles são a outra família de Bruce e fonte de muita afeição, frustração, alegria, raiva e aceitação de seus parentes. Eles são tão importantes para Bruce que ele precisa escapar deles de tempos em tempos. E eles se sentem do mesmo jeito em relação a ele.
 
A família materna de Bruce o incentivou muito na carreira musical, não? Como é a relação entre eles?
Peter. Todos têm muito orgulho de Bruce, tanto pelo seu trabalho quanto pela sua recusa em deixar a fama e o sucesso distancia-lo dos amigos, da comunidade e das pessoas queridas. A influência da família da mãe foi grande. Os Zerilli [sobrenome da família de Adele, mãe de Bruce] eram enérgicos, bem-humorados, quase indomáveis. Eles tinham um dia duro de trabalho, e mesmo assim à noite, ainda dançavam. A família Springsteen inspirou “Nebraska”, os Zerilli são todos “Rosalita”.
 
O 11 de setembro foi algo que mexeu muito com Bruce, a ponto dele lançar o que ficou conhecido como um hino sobre aquele momento, a música “The Rising”, que dá nome ao álbum lançado em 2002. Qual a importância desse momento na carreira de Bruce?
Peter. Acho que esse foi o ponto que fez Bruce ganhar consciência do seu potencial como ícone cultural – um porta-voz, uma voz crítica e política – nos Estados Unidos. Ele já tinha se reunido com a E Street Band e recuperado o grande palco que havia deixado para trás após o disco Born in the USA. Mas, naquele momento de crise nacional, Bruce realmente assumiu esse papel e permaneceu nesse posto desde então.
 
Muito antes desse episódio, temas como a guerra já faziam parte do repertório de Bruce. Ele mesmo perdeu um amigo jovem na guerra, não foi?
Peter. Pessoas que perderam alguém no campo de batalha sabem as consequências da guerra em sua esfera mais terrível. Bruce viu muitos amigos e familiares entrarem no Exército norte-americano, e o primeiro baterista de sua banda na adolescência morreu no Vietnã. De qualquer maneira, você não precisa perder alguém para compreender os horrores da guerra, principalmente quando ela motivada por conflitos políticos.
 
Bruce sempre foi um artista político. Disse que um dia perguntou para a mãe se eles eram democratas ou republicanos e ela ficou com a primeira opção. Esse interesse deve-se à origem da família?
Peter. Ele é definitivamente um Democrata. Suas crenças vêm de suas experiências em uma família trabalhadora de classe baixa em uma comunidade operária industrial de New Jersey. Ele se identifica com os trabalhadores, os pobres, e naturalmente, com os políticos que falam por essas pessoas e tentam fazer leis para protegê-los. Tenho certeza que alguns fãs conservadores não gostam desse lado dele, mas não acho que Bruce se preocupe com isso.
 
Bruce tem uma imagem muito colada na identidade norte-americana. O que o coloca neste posto de ícone americano?
Peter. Para mim, Bruce é o último elo de uma cadeia de artistas e escritores – de Stephen Foster a Mark Twain a Woody Gunthrie ou de John Steinbeck a Bob Dylan – que personificaram a voz/identidade de um americano comum. Ele quer representar os cidadãos de bom coração, os trabalhadores, e isso atinge muita gente.
 
Bruce Springsteen
 
Você tem sua lista de músicas preferidas?
Peter. Acabo de fazer uma lista com as minhas 50 favoritas para a revista Rolling Stone. Foi difícil reduzir tantas músicas a uma lista, mas vou revelar dez: “Racing in the Streets,” “New York City Serenade,” “Thunder Road,” “One Step Up,” “Atlantic City,” “Shackled and Drawn,” “Land of Hope and Dreams,” “The Promised Land,” “The Promise” e “If I Was a Priest”. Por que? Elas fazem meu sangue cantar, por muitas razões. No entanto, provavelmente, se você me fizer essa pergunta amanhã eu lhe darei uma lista completamente diferente.  
 
O ÍCONE BRUCE SPRINGSTEEN
 
Bruce Springsteen começou a carreia em 1973. Soma 17 álbuns de estúdio, sendo que 10 álbuns alcançaram o topo da Billboard, a principal parada musical americana, e nove estão na famosa lista dos 500 melhores discos de rock de todos os tempos lançada pela revista Rolling Stone
 
A estreia veio com Greetings From Asbury Park, N.J., que mesmo com apenas 25 mil cópias vendidas, agradou a crítica, já de olho no garoto selvagem de New Jersey. Ele precisou esperar até o terceiro disco e o encontro com aquele que seria seu empresário para todo o sempre, Jon Landau, para chegar ao sucesso esperado. O resultado foi Born to Run, disco de 1975 que mostrou o potencial comercial de Bruce. Foram seis milhões de cópias vendidas.
 
Em 1980, quando lançou The River, os Estados Unidos viviam um período economicamente instável. Bruce, que como cronista moderno escrevia sobre relacionamentos, sentimentos mais pessoais e aventuras com amigos, começou a mostrar seu lado político, social. O que se repetiria em discos futuros, como Born in the USA (1984), seu grande hit, e The Rising (2002), lançado após os ataques às Torres Gêmeas, e o mais recente Wrecking Ball, no qual fala muito sobre justiça social.
 
Sua relação com a política tornou-se mais explícita nos anos 1990. Foi nessa época que ele começou a aparecer em concertos beneficentes de esquerda. “Streets of Philadelphia”, música tema do filme Filadélfia e seu maior hit da década, transformou Bruce na primeira estrela heterossexual do rock a dar voz aos sentimentos íntimos dos gays. Ele é hoje um dos principais defensores no meio artístico da legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo.
 
Todos os principais acontecimentos da história moderna americana inspiraram composições de Bruce. Sejam os atentados de 11 de setembro, a política de guerra contra o terror, as crise econômicas, o furacão Katrina, as medidas contra imigrantes, entre outros. Isso faz dele além de um ícone da cultura americana, talvez o seu maior cronista atual.
 
Discografia básica, por Peter Ames Carlin 
 
The Wild, the Innocent and the E Street Shuffle (1973): Elogiado pela crítica, o disco não conquistou o público de imediato. Mas traz uma das faixas de maior sucesso de Bruce, a animada “Rosalita”.
 
Born to Run (1975): Primeiro grande sucesso de Bruce. Marca também o início da parceria com seu atual empresário, Jon Landau.
 
Darkness on the Edge of Town (1978): Foi o disco que transformou Peter em fã de Bruce. Mais melancólico e denso, sucede um período de brigas judiciais entre Bruce e seu ex-empresário. As músicas falam sobre valores, humanidade e superação.
 
Nebraska (1982): O disco traz músicas que retratam um período difícil pelo qual passava os Estados Unidos, um momento de recessão e expectativa com Ronald Reagan. Para manter o clima das músicas, o disco foi gravado das fitas cassetes demo que Bruce fez no estúdio.
 
Wrecking Ball (2012): Seu mais recente disco. Com essa turnê, Bruce bateu um novo recorde: 4 horas e 6 minutos de show. O marco aconteceu em Helsinki, Finlândia, em julho de 2012. 
 
 
SERVIÇO:
 
Papos & Ideias com Peter Ames Carlin sobre a biografia de Bruce Springsteen
 
Quando: 19/9, quinta-feira, 19h

Onde: Saraiva do Shopping Ibirapuera

 
Quando: 20/9, sexta-feira, 19h
Onde: Saraiva do Shopping RioSul
 
 
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