Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 22.12.2009 22.12.2009

The Beatles por trás das cortinas

Por Vinicius Valente

“Bem, me lembro que fazia frio de final de tarde em Londres, já escurecendo. Quando entro na Oxford Street, vejo muitos vendedores de tablóides gritando por todos os cantos que alguém havia sido assassinado em Nova York. Cheguei a duvidar do meu inglês, mas mesmo que o idioma fosse húngaro, ou grego, havia nas pessoas a sensação de que alguma coisa séria havia acontecido.” A sensação da brasileira Ana Lúcia Marino, que então cursava o mestrado em Londres, se provou correta minutos depois, ao se deparar com a manchete: “John Lennon assassinado”.  A comoção do crime do Edifício Dakota transpôs as esquinas de Londres e Nova York, abalando fãs de todos os cantos do mundo. Em 2010, quando sua morte completa 30 anos, o músico poderá ganhar um capítulo a mais em sua biografia: a liberdade de Mark David Chapman, seu assassino.

Lennon morreu após levar quatro tiros nas costas provenientes do fã para o qual, momentos antes, concedera seu último autógrafo. Chapman foi preso e, em 1981, considerado responsável por seus atos, sendo condenado à prisão perpétua com possibilidade de liberdade condicional após 20 anos de reclusão. Desde então, é mantido separado dos outros criminosos do presídio de segurança máxima de Attica, Nova York, devido ao risco de vingança pelo contato direto com outros presos. Para Aldo Gimenez, a pena pela morte de Lennon não foi suficiente. “Sou a favor do olho por olho, dente por dente. O cara matou, tem que ser morto.”, afirma o fã e colecionador de tudo o que se refere ao quarteto de Liverpool.

Chapman teve o pedido de liberdade negado por cinco vezes e poderá tentar novamente no próximo mês de agosto. O presidiário declarou estar “envergonhado e arrependido”. A ex-esposa do Beatle, Yoko Ono, já afirmou diversas vezes ser contra a liberdade do preso. A artista japonesa se casou com Lennon em 1969, ano que precedeu a dissolução da banda. Com 18 anos na época, Gimenez não encarou com melancolia o fim do quarteto de Liverpool:

“Eles eram como se fossem meus irmãos, meus conhecidos, meus vizinhos. É chato de repente você se privar daquilo. Foi um baque, mas ao mesmo tempo eu fiquei, opa, agora eu vou ter quatro discos do grupo ao invés de ter um. Vou ter um leque muito maior de músicas para gostar e ouvir”, declarou o fã.

A editora Cosac Naify lançou, em dezembro, o livro The Beatles – A história por trás de todas as cançõesNa obra, o autor Steve Turner conta como foi o processo de criação das 208 músicas gravadas pelos artistas mais influentes do século XX. O escritor buscou declarações de pessoas que presenciaram as composições, tendo como o resultado um livro recheado de histórias de bastidores da banda.

Depois de dez anos de carreira e treze álbuns lançados, Os Beatles se dissolveram no dia 10 de abril de 1970. Paul McCartney manteve sua linha romântica ao formar o grupo Wings, sendo o mais bem sucedido dos quatro. O guitarrista George Harrison aproveitou para produzir suas canções, antes ofuscadas pela dupla Lennon/McCartney. O músico apresentou composições bem acima da média como o álbum All things must passse revelando um compositor talentoso. Ringo Starr preferiu a carreira cinematográfica, participando de filmes medianos como Blindman(1971) e Son of Dracula (1974). Gravou alguns álbuns sem maiores repercussões. Já John Lennon produzia quando tinha vontade. Pouco antes de morrer deixou gravado o disco pop Double Fantasy, em parceria com a esposa Yoko. O astro teve a carreira interrompida pela morte no dia 8 de dezembro de 1980, o que constituiu um golpe certeiro nos fãs.

“Um amigo me mostrou o Jornal da Tarde antes de eu chegar à porta da minha loja. Eu não acreditei. O telefone não parava de tocar. A fita da secretária eletrônica já tinha acabado, lotada de recados que até hoje eu não ouvi. Liguei para um amigo meu, que trabalhava no Museu do Disco em Nova York, que me confirmou. Eu caí.Peguei um vôo no mesmo dia, esperando chegar lá e ver que era mentira”, relembra Marco Antonio Mallagoli, fundador do fã-clube paulista Revolution.

A melancolia foi similar em outros lugares do mundo. Uma multidão na frente do Edifício Dakota cantarolava músicas de Lennon. A Cidade do México ficou as escuras às 22h para expressar seu luto. Gimenez enxerga grande semelhança entre o assassinato de Lennon e a recente morte do rei do pop Michael Jackson. “Michael Jackson tem toda a história de uma infância conturbada. Uma infância horrível. Talvez tão horrível quanto à infância do John Lennon, que também foi ruim. Então, quer dizer, interromperam uma carreira que de repente podia dar muitos frutos até hoje, declara o colecionador.

Mallagoli completa: “Eu acho que a morte dele foi o fim da banda de verdade, pois até então todo mundo, até eles ainda tinham uma esperança dessa volta”.

Mesmo não concretizando a sonhada volta, Os Beatles, em verdade, nunca acabaram. Mesmo muito antes da dissolução da banda, em 1970, já haviam sido devidamente canonizados na história da música, e não apenas do rock ou da música pop. Tomado de nostalgia ou comemoração, 2010 traz para os brasileiros o consolo de assistir ao vivo o membro remanescente da dupla Lennon/McCartney. No palco, Paul estará só. John, o músico, se foi, porém o mito persiste, junto com a saudade que o tempo, por mais que passe, não consegue curar.

> Confira o site oficial da banda

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